Malala, “livre como um pássaro”

 

“Percebemos a importância da luz quando vemos a escuridão. Percebemos a importância da nossa voz quando somos silenciados. Da mesma forma, quando estávamos em Swat, no norte do Paquistão, percebemos a importância de lápis e livros quando vimos as armas.” (Malala Yousafzai, ativista pelo direito das meninas à educação)

Malalai de Maiwand, mais conhecida como "Joana D'Arc afegã", guerreira na luta contra os colonizadores ingleses no século XIX, não está nos livros de história, mas permanece como heroína da tradição oral de seu país. Foi inspirado nessa figura que Ziauddin Yousafzai, pai de Malala Yousafzai, nomeou a filha logo que a pequena chegou ao mundo. Se a primeira morreu lutando pelo que acreditava, a segunda enfrenta ainda hoje ameaças por defender também sua crença. A menina paquestanesa ficou famosa no mundo inteiro como a pessoa mais jovem a ganhar um Prêmio Nobel da Paz, pelo ativismo em favor do direito à educação feminina.

O reconhecimento internacional veio em 2014, quando ela tinha apenas 17 anos de idade. É que desde cedo a menina deu muito valor à educação. Seu pai era dono de uma escola e, diferentemente dos outros, valorizou a filha pela sua inteligência e por suas ideias. “As pessoas me perguntam o que há de especial na minha orientação que deixou Malala tão corajosa, destemida e segura. E eu digo: ‘Não me perguntem o que eu fiz. Perguntem-me o que eu não fiz. Eu não cortei as suas asas, foi só isso’”, ele declarou em uma palestra que concedeu no Canadá.

 

Esse verdadeiro processo de “desaprender a obediência” funcionou muito bem. Malala sonha desde pequena com diferentes realidades, como conta no seu novo livro Malala e seu lápis mágico, lançado neste mês de março pela Companhia das Letrinhas. Aos 11 anos, a estudante já tinha um blog no jornal BBC Urdu, onde defendia a importância das meninas frequentarem a escola. Participou de um documentário do jornal americano The New York Times, e denunciava essa realidade em todas as plataformas possíveis. Sua voz ressoou tanto que em 2012 a adolescente de então 15 anos levou um tiro a queima roupa na cabeça. A bala vinha de uma arma do grupo fundamentalista Talibã, cujas medidas no Paquistão dificultavam o acesso feminino à educação, ponto de denúncia da jovem ativista.

Durante a sua internação, a comoção já havia se tornado internacional. Tanto que o Talibã voltou a ameaçar Malala, que partiu em viagem a Birmingham, no Reino Unido, onde vive até hoje para garantir sua segurança. Depois de um longo processo de reabilitação, voltou a aparecer publicamente em um programa de TV em seu aniversário de 16 anos, em 12 de junho de 2013, declarado pela ONU, aliás, como o "Malala Day". Na ocasião, prometeu dedicar toda a visibilidade do dia para defender o direito da educação às meninas.

Dito e feito! No ano seguinte, em seu aniversário de 17 anos, a adolescente viajou à Nigéria, onde muitas meninas tinham sido sequestradas pelo grupo fundamentalista Boko Haram. Lá conversou com as famílias das vítimas e deu visibilidade ao acontecimento. Com 18 anos completos, em 2015, foi a vez de fundar uma escola para as meninas sírias que estavam refugiadas no Vale do Beca, no Líbano. Em 2016, quando fez 19 anos, passou o dia com garotas refugiadas que viviam nos campos de Daddab e Kakuma, no Quênia, e no campo de Mahama, em Ruanda. Ano passado, passou o aniversário no campo Hasanshan U3, na região do Curdistão, no Iraque, estabelecido para receber iraquianos deslocados pelo conflito da retomada de Mossul -- e lá também defendeu o direito à educação.

Para atuar de forma ainda mais enfática nessa causa, fundou, em 2013, o Malala Fund, organização dedicada a garantir o direito à educação às meninas de todo o mundo. Uma das frentes da organização é o Gulmakai Network, uma rede de apoio a educadores que atuam pelo acesso universal à educação em países como Paquistão, Nigéria, Líbano, Turquia e Afeganistão. Gul Makai era o pseudônimo usado por Malala quando escrevia à BBC, época em que o Vale do Swat, onde vivia, era dominado pelo Talibã e expor seu nome seria perigoso demais.

Desde o seu famoso discurso proferido na ONU em 2013 e o recebimento do Prêmio Nobel em 2014, Malala não parou. Em 2015, sua história virou filme sob a direção de Davis Guggenheim e chegou a 175 países, em 11 línguas diferentes. Em 2016, lançou a campanha #YesAllGirls, encorajando pessoas ao redor do mundo a apoiar a educação para todos. 

 

Suas andanças não pararam por aí. Em 2017, realizou uma viagem ao redor do mundo, conhecendo histórias inspiradoras de garotas na América do Norte, no Oriente Médio, na África e na América Latina. Foram sete os destinos dessa incursão, batizada por Malala como Girl Power Trip. No site do projeto, você pode acompanhar histórias como a das nigerianas Taiwo e Kehinde, irmãs gêmeas que sonhavam com uma educação superior, mas, após a mãe adoecer e o pai perder seu emprego, trabalham 12 horas por dia para ganhar não mais de dois dólares. Segundo o Malala Fund, os motivos mais comuns para as meninas terem de abandonar a escola são trabalho infantil, saúde, casamento infantil e conflitos armados.

Depois de toda a luta da jovem Malala, ao final de 2017, com 20 anos de idade, ela entrou na faculdade. Foi aceita na Universidade de Oxford, considerada uma das melhores do mundo, onde estuda filosofia, política e economia. A luta, no entanto, continua. Não só para a Malala, mas também para todas as meninas no mundo que ainda hoje são impedidas de estudar. 

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