Mais um superpoder do Capitão Cueca

 

O que dois amigos com cerca de sete anos de idade podem fazer em um final de semana na praia? Se você respondeu “criar uma história em quadrinhos”,  pensou igual ao Antônio. Ele e seu amigo Thomáz criaram O Velhinho Canadense, uma HQ inspirada no Capitão Cueca. Um herói gorducho e comilão que explode coisas, arranja confusão por uma clonagem inesperada e precisa resolver algumas brigas com seus inimigos, tais como o Velhinho Mexicano e o Velhinho Americano.

 

 

A criação dos dois amigos tem também inspiração na vida real. "A escola onde a gente estuda foi fundada por padres canadenses e a gente achava os velhinhos um pouco engraçados, então, nasceu O Velhinho Canadense", explica Antônio, que já escreveu mais de 30 edições e faz algumas cópias sob encomenda. O preço de venda é simbólico, não passa de alguns trocados. O menino não planejou o que comprar com o dinheiro arrecadado, quer "esperar até aparecer alguma coisa legal". 

Além de Thomáz, parceiro criativo de Antônio, outros amigos dão sugestões de enredo e bolam outros personagens – e alguns deles até já começaram a inventar suas próprias histórias em quadrinhos. José criou o Velhinho Peruano; Thiago, o Velhinho Argentino, e Pedro, o Velhinho Espanhol. A aventura de uma volta ao mundo empreendida pelo Velhinho Canadense para conhecer os outros velhinhos que têm suas histórias escritas nos intervalos da aula é cotada para uma edição de aniversário. A ideia é fazer um incrível encontro dessa turma!

A sala de aula, o hubcriativo do pessoal, onde todo minutinho de folga é aproveitado para escrever e desenhar, é também um ambiente propício para a concepção das histórias. A professora dessa turma de meninos criativos, Helena, dona do cachorro Poker, já até apareceu como personagem em uma das edições. E o coitado do cachorro foi alvo de uma explosão. Quando a professora leu a história em sala de aula, Antônio lembra que foi uma gargalhada só. E não terminou por aí. Em um trabalho de criação para a aula de artes, quem apareceu numa atividade de desenho de Antônio? Isso mesmo, o Velhinho. 

 

 

As inspirações são muitas e brotam de forma natural. Das aulas de ciências, surgiu a ideia de um cientista que fez cópias-zumbi do herói. Seu interesse por esportes (leia-se: futebol) o inspirou a escrever e desenhar a edição O grande jogo dos Velhinhos e das comidas. Um livro, os desenhos animados, um passeio e uma notícia do jornal, como no caso das eleições que inspiraram a edição 13, A eleição dos cocôs, são também fontes inspiracionais. Qualquer coisa, até as mais banais, faz render uma história engraçada. Inclusive, o menino acaba de começar uma nova coleção: Histórias abobalhadas, para explorar com humor as situações cotidianas.

Antônio vê na literatura e nos quadrinhos uma maneira de se divertir. Denunciado pela mãe como um verdadeiro “devorador de livros”, ele diz que não consegue enfrentar viagens de carro sem ter algo para ler em mãos. Se for uma história com forte veia humorística, ainda melhor! Essas são suas preferidas. E ele só sabe inventar peripécias divertidas. Além da comicidade, inspirada nos livros de Dav Pilkey, o menino também acha o estilo de suas ilustrações parecido com o do escritor americano. Com uma estética geométrica, traços simples e contornos bem delimitados, seus personagens são desenhados principalmente a partir de círculos.

Ainda que Antônio diga que a matemática – uma de suas matérias favoritas, ao lado de artes, ciências e educação física – não esteja assim tão presente em seus quadrinhos, ela é perceptível na proporção dos desenhos, em cada um dos quadros, pensados para comportar bem o texto e a ilustração. Há muito cálculo também nos títulos escritos com grandes "letras bastão" na capa. Ele logo conta a estratégia por trás disso: "Prefiro fazer a capa em letras maiores para chamar mais atenção".Segundo ele, o tamanho também facilita a leitura para pessoas que estão em processo de alfabetização, como sua irmã mais nova, Tereza: "Eu não podia fazer em letra cursiva ou minúscula, senão minha irmã não poderia ler".

 

 

Em folhas sulfites grampeadas e sem nenhuma intervenção de cor, o Velhinho Canadense faz parte da vida de Antônio e até virou tema de decoração da sua última festa de aniversário. Com ajuda de Tereza, alguns gibis foram coloridos. Ela é mais da pintura. Ele, do texto e do desenho. Ouvindo histórias desde quando tinha apenas três meses de vida, o garoto, hoje, aos nove anos, tem uma coleção de suas próprias. Quem diria que um dos poderes do Capitão Cueca também seria criar jovens autores? Valeu, Jorge e Haroldo, por inspirarem Antônio e Thomáz.

Acesse a Letrinhas nas redes sociais