Livro: um presente que une gerações

 

Quando era criança, a fotógrafa Camila Ruy Zorzi todo mês ganhava um livro da sua mãe. Assim que chegava o tão esperado presente, o acordo era de que a menina deveria lê-lo para que as duas conversassem sobre a história. Foi assim que ela completou sua coleção Vagalume (feito do qual se orgulha), mas, principalmente, foi com essa tradição que virou leitora. Já crescida, a fotógrafa conta que, depois de todos esses anos, quando encontra um livro de seu interesse, a primeira reação é apresentá-lo à mãe para que possam conversar sobre a obra.  

O caso de Camila não é uma exceção, já que 33% dos leitores brasileiros contam ter tido a influência de alguém para gostar de ler. Desse total, 19% citaram algum familiar como a principal figura para o desenvolvimento do hábito de leitura, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, desenvolvida pelo Instituto Pró-Livro. Além disso, pais de leitores têm, em geral, uma maior escolaridade que pais de não leitores. Entre os entrevistados, 12% das mães e 11% dos pais são analfabetos. Entre os não leitores, esse índice sobe para 28% das mães e 25% dos pais. Foram considerados leitores aqueles que leram um livro nos últimos três meses que antecederam a pesquisa.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

A formação de leitores, no entanto, vai muito além da compra do livro. A professora de história Andréa Andrade, por exemplo, ainda lembra dos seus tempos de menina, quando mexia nos livros de suas tias. Os títulos variavam de clássicos do Machado de Assis a histórias em quadrinhos. Alguns – os "proibidos" – eram lidos escondido de sua mãe. A história de Andréa, que de tanta paixão hoje faz mestrado na área de Literatura, assemelha-se a 21% das pessoas que têm acesso a livros por empréstimos de amigos e familiares, contra os 23% que ganham as obras de presente e 43% que compram eles mesmos seus livros.

Depois de muitas leituras escondidas, Andréa faz questão de presentear seus filhos e sobrinhos com livros. Conta que sua filha de 14 anos tem paixão por poesia, e que o filho, de 10 anos, adora livros sobre dragões. Seus dois filhos estão entre os 48% dos leitores abordados na pesquisa que afirmaram receber livros como presentes da família. Entre os que compraram livros nos últimos três meses, esse percentual sobe para 56%.

Mas como escolher os livros que serão presenteados? Considerando que 42% das crianças com idades entre 11 e 13 anos lê por gosto, também é importante levar em conta suas preferências leitoras. É o que faz o sociólogo Ezequiel Machado, conhecido na família como o "tio dos livros", de tanto presentear seus sobrinhos com as mais variadas histórias.

"Penso no que eles gostam. Geralmente compro livros com figuras, formatos ou assuntos do interesse deles no momento. Tenho sobrinhos na fase da textura, dos dinossauros, dos youtubers, da preocupação com o Enem", conta Ezequiel, que afirma que em seu círculo social os livros fazem mais sucesso com as crianças do que com os adultos. Segundo a pesquisa, "tema ou assunto" é o que mais influencia na escolha de um livro para leitura (30%), mas, quando observamos a faixa etária de 5 a 13 anos, o fator decisivo mais importante passa a ser a capa do exemplar.

Apesar da certeza de que presenteará seus sobrinhos com livros, a fama de Ezequiel extrapola a época da festa natalina. O tio conta que o passeio por livrarias e sebos com seus sobrinhos não tem data certa. Todo dia do ano é bom para levar as crianças para "dar uma olhada" nas prateleiras desses espaços, tornando-as familiarizadas com esses ambientes.

 

 

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