Livro de rua: o grafite da literatura

 

Livro no papel, livro no tablete, livro no fone, livro no muro. No muro? Sim, o livro também pode estar nos muros. Essa foi a ideia que inspirou o escritor Hugo Barros a publicar suas histórias nas ruas de Brasília e, assim, criar o projeto Livro de Rua. A primeira delas, O menino invisível, grafitada pela artista brasiliense Camila Santos, está há um ano exposta nas paredes ao redor de um posto de gasolina, na SQS 413. E conta a saga de um super-herói nada comum, que tem o poder da invisibilidade atrelado a sua condição social. Hugo já tem outros três livros encaminhados e todos apontam problemas reais de maneira bem imaginativa.

 

Foto: Divulgação

 

Além da intenção de democratizar o acesso à literatura, a ideia de testar diferentes plataformas de suporte para o texto também fomentou a criação do projeto. Inovar tem seus desafios. A Biblioteca Nacional negou o primeiro pedido de registro da obra. O ISBN (International Standard Book Number) de O menino invisível, que, como coloca o autor, funciona como "uma espécie de CPF dos livros", um sistema que registra por número livros de todo o mundo, foi conquistado depois do envio de uma carta argumentando os motivos pelos quais a história impressa no murodeveria ser considerada uma produção literária. "Tem tudo que um livro tem: capa, dedicatória, textos, ilustrações, ficha catalográfica", ele comenta. Coincidentemente, a resposta positiva em relação ao registro chegou no dia que ele deu uma palestra sobre a iniciativa na 25ª Bienal de São Paulo, em 2018. 

"O grafite é uma arte popular muito bem aceita pelo público em geral. As pessoas gostam do resultado, valorizam os artistas. Sem falar que o grafite é responsável por apresentar o conceito de arte a muita gente que não tem acesso a museus e a livros de arte. E assim como ajudou a democratizar um pouco a arte, acredito que ele pode ajudar a democratizar a leitura também", defende o escritor. No caso da experiência invisível do menino Mino, a grafiteira de 21 anos Camila Santos, mais conhecida como Siren, investiu em tons quentes, seguindo uma proposta já imaginada por Hugo, que vislumbrava as ilustrações com cores vivas para contrastar com a rotina "sem cor" do garoto. O trabalho levou sete dias para ser concluído, mas foi compensado, parece ter sido bem aceito pelo público. 

 

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As reações são variadas, fotos nas redes sociais, indicação aos amigos, comentários positivos. A partir desse projeto, Hugo percebeu o alcance da literatura infantil e a forma como toca pessoas de todas as idades. Modifica-se a relação de quem frequenta aquele espaço. Um morador da região se autodenominou guardião do livro: "Pode ficar tranquilo, se alguém tentar estragar sua obra, vai ter que se ver comigo", o escritor relembra a conversa que teve com o "segurança". A literatura passa a pertencer à vida dos leitores de maneira concreta.

Hoje, um ano depois de publicado, as únicas intervenções que o livro sofreu foram alguns descascamentos de tinta pelo próprio tempo. Nenhuma pichação – o que Hugo não encara como um problema, já que são parte da expressão urbana, assim como o próprio grafite. "O grafite tem um pouco essa característica, de mudar com a ação do tempo ou da comunidade à sua volta", completa o autor, que está trabalhando em outras três obras que vão ocupar os muros da cidade.

 

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Ainda sobre a relação da obra com o espaço, encontrar o lugar ideal para ser impressa não foi nada fácil. O muro precisa ter algumas dimensões específicas para comportar as histórias. No mínimo, 60 metros de comprimento e 2,5 de altura, estar localizado em uma região segura para crianças transitarem e ser adaptado à história. "Exemplo: se o livro fala sobre alguém que dorme na rua, o lugar precisa ser um muro onde uma pessoa eventualmente dormiria. Afinal, é isso que um livro na rua pode oferecer a mais que um livro impresso em outra plataforma. É a plataforma servindo como mensagem também", conclui o escritor, que sonha em transformar as ruas de Brasília em uma biblioteca a céu aberto. 

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