Literatura para crianças: com ou sem adjetivo?

Por Renata Penzani

Quando eu era criança, não sabia que existiam livros feitos para mim e livros feitos para os outros. Não sabia ainda que os tais “outros” eram as pessoas diferentes de mim – os adultos, os velhinhos, os bebês, meninos e meninas de lugares distantes. Para mim, era tudo história. Com seis ou sete anos, eu nem sequer racionalizava a autoria: todo livro parecia ter sido escrito pelo mesmo escritor com a mesma finalidade de chegar às minhas pequeninas mãos, afinal, era tudo “literatura infantil”. Mas você já parou para pensar para que serve o adjetivo “infantil” nesse contexto?

Depois de adulta (seja lá o que isso for), eu finalmente posso dizer que já. Que sempre. Pode parecer um contrassenso questionar uma regra que parece ter sido criada para deixar a vida de todos nós mais fácil (cof cof!); um simples adjetivo, que apenas estipula o público-alvo, a faixa etária e a prateleira que ocupa a tal “literatura infantil”. Aparentemente, está tudo bem assim, tudo limpo e organizado: os leitores sabem onde encontrá-la, as livrarias sabem onde guardá-la, pais e professores não esbarram em surpresas indecifráveis. Mas a quem serve essa rotulação? Não há mal em fazer mais essa pergunta neste mundo tão respondido, pois, como bem disse a poetisa polonesa Wislawa Szymborska, “não há perguntas mais urgentes do que as perguntas ingênuas”.

No livro Contracorrente: conversas sobre política e literatura, de 1998 (!), Ana Maria Machado já chamava a atenção para o perigo da coisa toda. Para ela, o caráter transgressor da literatura infantil começa num ponto que poucos percebem: ao invés de restringir o sentido, o adendo “infantil” só faz por ampliar o seu alcance. Livro infantil, afinal, seria aquele que pode ser lido também por crianças (e pelos adultos, pelos velhinhos, pelos bebês, por meninos e meninas de lugares distantes). Tem até um livro todinho dedicado à questão: Por uma literatura sem adjetivos, de Maria Teresa Andruetto (2012, Pulo do Gato). Mas o que quero dizer é: o que perdemos quando perdemos a curiosidade pela infância? Por aquilo que ela lê, investiga, experimenta?

Pensemos em um exemplo prático. Quando um adulto entra em uma livraria, sabe bem por onde correr os olhos se quiser encontrar os lançamentos, os livros mais vendidos, a última obra daquele autor-genial-e-respeitadíssimo. Ficam todos expostos em torre, disputando a atenção de seus futuros leitores. Da mesma forma, se uma criança entra em uma livraria, também vai encontrar sem dificuldade os lançamentos infantis, os mais vendidos, a última obra daquele autor-infantil-genial-e-respeitadíssimo. Percebem os adjetivos limitando a experiência a uma trajetória programada?

Porém, se um leitor – seja qual for a sua idade – entra em uma livraria procurando encontrar algo mais do que livros destinados a ele, terá de se embrenhar com muito mais afinco na busca. E aqui entram os porquês, que são muitos, a começar pelo conceito de infância extremamente protetor. Entendemos como mais importante poupar a criança de lidar com aquilo que ela não entende do que fazer do contato com a linguagem a porta de entrada para o mistério do mundo. De modo geral, nós, seres humanos, lidamos muito mal com a incerteza; a criação, seja ela literária ou não, é o incerto. Certo e incerto: ambos nos chegam através da linguagem.

Nesse sentido, adjetivar a literatura como “infantil”, ao invés de agregar quem de antemão se interessaria por ela, afasta os leitores, parece supor que quem não é criança não tem nada a ganhar ali. Mas a necessidade de encantamento não cresce junto com a gente? Por que deixar de visitar a seção infantil quando nos tornamos adultos? Que infância é essa que supomos vencer tão por completo que nunca precisamos voltar a ela?

O caráter do “feito sob medida” da literatura serve mais a uma necessidade de mercado do que à própria experiência de leitura, que nada tem a ver com classificações precipitadas. Ao catalogar as histórias em rótulos, esquecemos que literatura também é encontro. Arrebatamento. Deslumbre.

Como se entrássemos em uma cidade planejada onde sabemos exatamente o que vamos encontrar e em que lugar, somos privados – adultos e crianças – de esbarrar no surpreendente. Ítalo Calvino dizia que encantamento é estar sujeito ao desconhecido. Bonito, né? Mas como fazer isso neste lugar tão calculado que reservaram aos livros ditos para crianças? Um adulto não pode ter com os livros infantis a mesma experiência artística que tem com a literatura em geral?

A boa literatura, como toda forma de arte e linguagem, vem antes do nome. Bons livros são maiores do que os adjetivos e adendos que recebem. Não por acaso, enquanto uma legião de marqueteiros e profissionais do mercado editorial se preocupam em produzir uma literatura planejada, para nossa sorte, outra legião de artistas e autores está criando livros “crossover”, aqueles que ultrapassam gêneros e definições etárias e estilísticas. Ufa.

Quem ousaria dar um nome, uma idade, um rosto e um CEP para o leitor como se só existisse um? Como saber do que ele gosta, o que o emociona, que palavras fazem a diferença em sua vida? Cada relação história-leitor é tão desconhecida quanto um livro antes de ser aberto. Jorge Luís Borges disse palavras certeiras sobre isso. “O que são as palavras dormindo um livro? O que são esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. O que é um livro se não o abrimos? Simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lemos acontece algo especial, e creio que muda a cada a vez.”

***

Renata Penzani é jornalista, pesquisadora do livro para a infância e autora do blog Garimpo Miúdo, espaço em que compartilha achados da literatura infantil e juvenil. 

Neste post