Literatura infantil entra na rota Brasil-China

O Brasil coloca mais um pé no Oriente. Vários pés, na verdade. É que uma delegação de autores brasileiros, organizada pelo Centro de Leitura Quindim, participa entre os dias 17 e 20 de novembro de uma série de encontros, palestras e oficinas na Feira Internacional de Livros para Crianças de Xangai (China), uma espécie de meca oriental da literatura infantil, similar à ocidental Feira de Bolonha, na Europa.

O Festival Internacional de Literatura Brasileira e o 1º Seminário Internacional de Literatura Brasileira para Crianças e Jovens – Imagens e Palavras Sem Fronteiras, ações da feira chinesa, contam com a participação de Roger Mello, Marina Colasanti, Mariana Massarani, Graça Lima e Marcelo Pimentel, liderados por Volnei Canônica, cujo desejo de atravessar oceanos é antigo.

“O mercado europeu é importante, mas há outros para desbravar. E é preciso desmistificar que o Oriente é distante e com tantas diferenças. Por isso que destacamos o ‘sem fronteiras’. A ficção não escolhe cultura”, diz Volnei, que assumiu a missão de promover a leitura e a literatura pelo Centro de Leitura Quindim logo após deixar um cargo estratégico na Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), hoje um departamento do Ministério da Cultura.

É um mercado ainda não explorado pelas editoras brasileiras. “Os chineses têm um potencial incrível de edição, os livros saem com tiragem de 20 mil exemplares. A China, diferentemente do que ocorre em outros países, em que o número de impressões tem diminuído e o mercado encolhido, está num processo ascendente de produção e venda de livros”, diz Volnei. Ele destaca que a única editora nacional que participou da feira foi a Cortez.

Roger Mello já foi descoberto pelo Oriente, onde fez exposição na fantástica ilha Nami (ali livros são expostos ao ar livre), deu palestras e lançou diversas obras, incluindo o inédito A pena, em parceria com o escritor chinês Cao Wenxuan, vencedor do Hans Christian Andersen de 2016. E está para lançar um outro livro, este feito com o sul-coreano Mr. Kang Woo-hyon. A previsão de lançamento é 2017, na Feira de Bolonha.

Mas é inevitável lançar a seguinte pergunta: Meninos do mangue, que já foi traduzido para o Oriente, e Carvoeirinhos, que está para ser editado, não têm impressos em suas páginas contextos, narrativas e palhetas brasileiras demais para os leitores orientais?

“Eles não têm essa questão recorrente do mercado europeu, que acha que isso ou aquilo é específico de um certo país”, responde Volnei, que logo lembra que esse papo de local X universal é antigo. “Em 1994, quando os brasileiros começaram a chegar em Bolonha e mostrar seus trabalhos, escutaram: ‘Ah, mas isso é bem local, é do Brasil. Não temos interesse’.”

Na China, os autores da delegação brasileira vão visitar escolas e centros culturais, encontrar a imprensa e dialogar com editoras. “Não vão lá fazer uma fala na feira e voltar para casa. A ideia é que a China comece a estudar a literatura brasileira, pois esse é o impacto que podemos promover entre essas culturas.”

A depender do diretor do Centro de Leitura Quindim, Xangai entra na rota da literatura infantil brasileira. “O Brasil foi país homenageado em muitas feiras, mas ficava sempre numa ação pontual, pois o próprio governo brasileiro não conseguia dar continuidade ao projeto.” Para Volnei, é preciso promover ações de modo coordenado e sistemático em feiras estratégicas para promover a internacionalização da literatura. “Sabemos que o negócio, a venda, não acontece de um momento para outro.”

O Centro de Leitura Quindim é inspirado no Espatapájaros, projeto colombiano da pesquisadora e escritora Yolanda Reyes que visitou durante viagem pelo Instituto C&A, onde coordenou o programa Prazer em Ler até 2014. Fica localizado em Caxias do Sul (RS), cidade natal de Volnei, com o forte desejo de ampliar fronteiras, “sair um pouco dos eixos Rio-São Paulo-Minas”. O nome, Quindim, batizado por Roger Mello, faz uma dupla homenagem: ao rinoceronte de Monteiro Lobato e ao doce preferido do escritor gaúcho Mário Quintana. A literatura é “fortaleza e doçura”.

Criado em 2014, o centro começou como um grupo de estudos, mas já tinha a pretensão de fomentar e discutir a leitura no Brasil, dialogando fortemente com as política públicas. Com a saída do Ministério da Cultura, brinca que pegou o “rinoceronte pelo chifre”. “Meu desejo é que a gente conecte o Brasil de ponta a ponta nas ações de promoção da leitura”, diz Volnei, que, posando com seu mascote em diversos cantos do país, demonstra que já está unindo mundos. Ao voltar da China, lança no dia 23 de novembro um novo projeto na Biblioteca Monteiro Lobato, em São Paulo. Vale aguardar.