Ler para (re)conhecer um território

 

Uma mala cheia de livros, um diário de bordo, um mapa. Um total de 32 escolas públicas, envolvendo 68 educadores e 540 estudantes, espalhados por seis distritos do município de Mangaratiba, no estado do Rio de Janeiro. Assim se construiu o projeto Rotas & Redes Literárias, realizado pelo Instituto de Arte Tear, com patrocínio da Fundação Vale, que, durante 18 meses, aproximou as crianças da cidade à literatura e ao seu próprio território. O objetivo? Promover uma revolução leitora no município fluminense, tratando o ato de ler como uma prática social, um “potente canal de intervenção sobre o mundo”, como explica a diretora da entidade, Denise Mendonça.

 

Crédito: Projeto Rotas & Redes Literárias

 

É uma “educação politizante”, termo que não pode ser confundido com o uso de palavras de ordem, mas que parte da poiesis, da expressão artística, como espaço de encontro consigo mesmo e, assim, como chave da liberdade e da revolução leitora. Num projeto que pretende desbravar os territórios da cidade, inventariando seus saberes, fazeres e viveres, a literatura foi o chamado para investigações interiores, simbólicas. Ao final, os estudantes mangaratibenses desbravaram diferentes aspectos de seu rico patrimônio cultural, material e imaterial, incluindo as histórias de seu chão, de suas raízes, aquelas contadas também por seus avós, vividas no dia a dia.

Assim, coletivamente, eles foram compondo inventários etnopoéticos, inspirados pela pesquisa da jornalista e documentarista Gabriela Romeu, autora de livros como Terra de cabinha – Pequeno inventário da vida de meninos e meninas do sertão (editora Peirópolis). Ela explica que os inventários são uma espécie de plataforma de narrativas que se aproxima das experiências inventariantes no campo das artes e bebe nas fontes da etnografia e da literatura, ambas formas de recriação de mundos. 

No projeto, crianças e adolescentes passaram a olhar de outra forma para as referências culturais que estão ali, presentes há séculos no território onde nasceram, muitas vezes invisíveis no cotidiano. Entre as diversas atividades desenvolvidas nas escolas (e também fora delas), eles desenharam um mapa com rotas de migrações de suas famílias, muitas delas originárias de outras regiões do país. Também (re)contaram histórias populares da região, como o causo do Vento Vieira, da sereia do Poço Encantado ou da melancólica noiva do trilho do trem. Pararam para ouvir histórias dos pescadores que passam o dia na praia, para dançar o jongo da ilha de Marambaia. Descobriram ruínas, quilombos, figuras importantes da história local, histórias de resistência, canções, brincadeiras de hoje e de sempre.

Depois de uma formação de mediação de leitura ao longo de alguns meses, com diversos encontros presenciais, os professores da rede municipal de educação seguiram numa espécie de “formação em curso”, ao longo oito aulas, em que a experiência inventariante era desenvolvida nas escolas. Foram acompanhados por educadores do Instituto de Arte Tear enquanto desenvolviam o projeto que relacionava literatura e território – ou seja, as muitas histórias dos livros e as histórias do local onde atuam. Nessa “formação em curso”, trabalhou-se a sensibilidade etnográfica e a poética dos profissionais da educação, criando educadores-leitores, sensíveis tanto à leitura literária quanto à escuta das crianças em seu território.

 

Crédito: Projeto Rotas & Redes Literárias

 

Desse processo cheio de histórias (as dos livros e as de boca; as dos escritores e as dos alunos) saíram as mais diversas reflexões das crianças. Um menino exclamou “na nossa imaginação cabe o mundo inteiro” ao ouvir histórias ao pé de uma árvore. Já durante a leitura de A menina dos livros (editora Zahar), de Oliver Jeffers e Sam Winston, outra menina percebeu que a protagonista estava “flutuando num mar de letras”, “subindo uma montanha-russa de histórias”, “descendo por uma corda de palavras”.

Eu vi! (editora Brinque-Book), de Fernando Vilela, foi uma obra que convocou os alunos a verem os detalhes das conchas na praia, a areia, cada pedrinha, graveto, tudo posteriormente guardado em um saquinho de recolhas que virava tesouros de pirata. Atividade seguida de uma conversa com os pescadores, sobre os modos de viver à beira-mar. O livro estimulou um olhar atento para o próprio território, suas brincadeiras e suas árvores. Já Andar por aí (editora 34), de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, exercitou um olhar para um passeio pelo bairro, também inspirando as crianças a perceberem atentamente cada flor, folha, placa, pessoa, semente do lugar. 

Diversos livros do grupo Companhia das Letras abriram portais: Saci: a origem, de Ilan Brenman, deu o que falar sobre relatos dessa criatura  que já aprontou muito pela zona rural de Mangaratiba. Jabuticabeira, de Raul Fernandes, promoveu conversas – e invenção de histórias! – sobre as árvores locais, como a fruta-pão que rende muitos causos e receitas na cidade. Pequeno manual de peixes marinhos e outras maravilhas aquáticas, de Beatriz Chachamovits, abriu uma conversa sobre os peixes que vivem naqueles mares fluminenses e tantas outras espécies das águas que ainda se pode inventar, como o “peixe-da-imaginação” e o “peixe-mágico”.

Todos esses achados e recolhas feitos pelas crianças em comunidades ribeirinhas, rurais, quilombolas e urbanas do município ficaram guardados numa cartografia afetiva e coletiva: o Mapa dos tesouros (in)visíveis de Mangaratiba, com desenhos, histórias, versos e frases de meninas e meninos de lá. Um mapa em que podemos ler sobre o jongo da ilha de Marambaia, as ruínas do povoado do Saco, a estrada da Zalminhas, os mistérios do Poço Encantado e as brincadeiras feitas nas praias locais. O Caderno de Mangaratiba, uma publicação tratando do processo pedagógico dos educadores, foi outro resultado desse projeto etnoliterário.

 

Crédito: Projeto Rotas & Redes Literárias

 

“A leitura de mundo precede a leitura da palavra”, nos lembra o patrono da educação brasileira, o pernambucano Paulo Freire. E foi a partir da leitura dos pequenos detalhes de mundo(s), das miudezas do cotidiano, que muito foi descoberto pelos estudantes sobre o próprio território, que foi investigado o chão em que se pisa e que foram criados, inventados, imaginados outros tantos lugares, criaturas e histórias possíveis. Basta virar a página.

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