Ler: muito prazer!

 

Livros que deslocam o leitor de seu lugar, abrindo brechas para novos mundos. É esse tipo de obra que a educadora Mara Dias busca utilizar nos clubes de leitura que organiza no Colégio Rainha da Paz, localizado na zona oeste de São Paulo. Tudo para que os alunos tenham cada vez mais autonomia na leitura e leiam por prazer, sem as amarras e os modelos instituídos muitas vezes (erroneamente) em sala de aula.

Na tentativa de aproximar a criança do livro, a prática dos clubes de leitura tem sido ampliada em diferentes ambientes, de educação formal ou não, em escolas, bibliotecas e centros culturais. Nesses espaços o compartilhamento da leitura em grupo rompe com um ato solitário. “As crianças se sentem muito à vontade para fazerem seus comentários, pois o ambiente é acolhedor, é de generosidade entre os participantes, é de troca de impressões e não há certo ou errado, há apenas a conversa sobre os livros e sobre a vida”, conta a educadora.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Ela explica que a participação da criança nos encontros não prescinde da leitura das obras. “Na vida, conversamos sobre leituras que não fazemos e ficamos com vontade de fazer, fazemos listas dos livros que queremos ler”, explica. “Ter ouvido falar sobre um livro mesmo sem ler é um ato de leitura. Estamos abertos para todos.” A educadora acrescenta, no entanto, que a paixão pela leitura é contagiante nos encontros.

Elaine Guarani, que coordena pela Cia Arte Negus um clube de leitura itinerante por diversos espaços culturais de São Paulo, defende que a leitura extrapole as funções utilitárias por vezes conferidas nas escolas. As histórias são para a vida. “A criança pode entender sobre si mesma, tendo consciência sobre seus saberes, e, a partir disso, ampliá-los”, explica. “A interpretação de leitura de um livro amplia a interpretação de qualquer coisa na vida”, completa a mediadora.

Seus encontros partem de atividades lúdicas, como sorteios de parágrafos da obra e leitura coletiva de capítulos, para incluir até aqueles que ainda não leram o livro. Na sequência, o grupo dialoga sobre o que foi mostrado, em uma leitura interpretativa. Depois, a tentativa é extrapolar a obra, relacionar o texto a outros contextos, outras linguagens, outros discursos. Por fim, há o anúncio do livro que será lido na próxima sessão.

Por vezes, algumas crianças chegam arredias, mas logo se soltam após os primeiros minutos. “Os momentos mais interessantes são quando uma criança dialoga com a outra sobre os temas que o encontro trouxe, sem que precisemos mediar. Pois aí percebemos a autonomia nos processos interpretativo, social e cognitivo. Discussões sadias são sempre bem-vindas”, diz a mediadora, que sempre inclui a leitura de clássicos infanto-juvenis –Peter Pan e Wendy, de James Matthew Barrie, As Aventuras do Barão de Munchausen, de Rudolph Erich Raspe, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, As Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi, e Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

O pedagogo Beto Silva, presidente do Instituto Clio (Cultura, Leitura e Juventude), lembra que o exercício da leitura é por vezes difícil e árido. Por isso é relevante que adultos ajudem na mediação das leituras e proporcionem o acesso a determinados livros. “A leitura não é fácil, temos nessa atividade um esforço cognitivo (decodificar e interpretar) e psíquico (relacionar a si, aos outros e a condições que permitam encontrar significados com o conteúdo literário).”

Ele também enfatiza a importância do ato de ler para além dos muros escolares. “A variedade dos espaços constrói e fortalece a leitura sob o ponto de vista da prática social”, diz. “É fundamental para que outros leitores possam também encontrar-se e encontrar a prática da leitura em todo e qualquer espaço”, conclui o mediador, empenhado em disseminar por diversos cantos da cidade os clubes de leitura, ferramentas fundamentais para promover mudanças efetivas na sociedade.

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