Histórias saborosas das avós japonesas

 

Um livro escrito e ilustrado a oito mãos: assim foi criado Vovó veio do Japão, de Janaina Tokitaka, Mika Takahashi, Raquel Matsushita e Talita Nozomi, todas autoras descendentes de japoneses. A obra, com quatro narrativas envolvendo deliciosos quitutes feitos pelas obaatians, as avós japonesas, será lançada no sábado, dia 1/9, às 16h, na Livraria Martins Fontes (av. Paulista, 509), em São Paulo.

A ideia de fazer um livro de autoria coletiva surgiu de Janaina Tokitaka, que andava pensando sobre a sua identidade nipo-brasileira. “Senti que esse deveria ser um livro coletivo, para falar sobre comunidade e laços em comum. Já conhecia e admirava o trabalho e trajetórias das outras meninas e sabia que não tinha como o projeto dar errado. É um dos livros mais especiais da minha carreira, e não é só ‘meu'. É uma ótima sensação!”

 

 

Foi numa primeira reunião no estúdio de Raquel Matsushita que alguns nortes do livro foram estabelecidos. “Combinamos que cada uma escreveria e ilustraria a própria história seguindo dois pilares: a comida e as estações do ano”, explicou Raquel. É que no Japão cada época é demarcada por uma iguaria típica. Por isso cada história envolve um prato: somen, um macarrão bem fininho, é mais consumido no verão; o chá matcha-iri-genmaicha marca o outono; no inverno, tem lámen, um tipo de sopa japonesa; anmitsu é uma sobremesa para brindar a primavera.

As autoras, no entanto, ficaram livres para trabalhar com suas histórias como bem entendessem. “Tentamos ser respeitosas com as linguagens umas das outras, e o resultado é uma linda colcha de retalhos: harmonioso, mas mantendo as individualidades”, conta Janaina.

 

 

Memórias de infância

As autoras recorreram às memórias de infância para a criação do livro. Raquel, por exemplo, diz que isso aconteceu de forma muito natural. “Remeti imediatamente à minha avó. Ela fazia o doce moti quando eu passava as férias na casa dela. Juntei essa memória afetiva da minha avó com uma lenda japonesa sobre a primavera (a estação do ano que escolhi). Foi uma experiência encantadora porque, a partir de uma história de íntima conexão com as minhas lembranças, abri para uma narrativa ficcional que, espero, toque muita gente”, afirma.

As memórias alimentares da infância têm uma potência incrível para despertar esse viés sensível. “Por isso não acho que foi à toa que todas nós lembramos do tempo de infância na casa da avó. Daí surge o título da obra. No final do livro, fizemos um caderno com as quatro receitas contempladas nas histórias. Compartilhar as receitas foi uma maneira de multiplicar esse afeto para dentro da casa do leitor”, completa Raquel.

Talita também recorreu aos tempos em que visitava sua obaatian no Paraná, na sua casa e no seu sítio, durante as férias escolares. Conta que a maior parte das ilustrações foram feitas a partir de seu álbum de fotos de família, a protagonista criança fisicamente parecida com a sua sobrinha, Alaia. A obaatian criada é uma mistura de sua mãe com sua avó. “A comida feita pelas obaatians nos aproxima da terra do sol nascente, da origem, das raízes…”

 

Talita Nozomi inspirou-se na família para ilustrar a sua história

 

Para Janaina, escrever o livro foi revisitar o sítio de seus avós, lembrar da “geografia da casa, dos detalhes da cozinha, do ofurô…”. Rememorar as comidas servidas naquela época foi uma experiência especial. “Não é a culinária típica dos restaurantes japoneses que servem rodízio de sushi. Carne com gengibre, raiz de bardana refogada, gelatina de agar, conserva de ameixa… A cultura japonesa prega que não se deve desperdiçar nada e que é importante servir e comer com alegria e atenção aos convidados.”

 

 

Algumas etapas do trabalho de Raquel Matsushita para ilustrar a obra 

 

Com Mika não foi diferente. Ela conta que muito de sua narrativa foi baseada em acontecimentos reais. Elaborar o livro foi uma forma de homenagear a avó, falecida em 2016. “A culinária é um reflexo da cultura, mas, além disso, é uma forma de afeto. Quando nossos avós chegaram ao Brasil, a culinária foi uma forma de manter a conexão com as suas origens. A culinária japonesa que experimentamos quando criança já eram adaptações da comida japonesa. Nossas avós misturavam ingredientes brasileiros e japoneses para criar um novo sabor, uma mistura que reflete a essência de seus descendentes.”

Passeio por muitas referências

Raquel conta que se inspirou muito nas lendas japonesas para escrever a história. Escolheu duas narrativas sobre a primavera: uma de princesa e outra de samurai. Acabou optando apenas por uma, que ainda adaptou, pelo pouco espaço que tinha. Já as ilustrações tiveram como referência as antigas gravuras japonesas como técnica de impressão. Os desenhos foram impressos em matrizes de xilogravura a objetos, e depois finalizados no computador. Quem também recorreu às gravuras tradicionais japonesas foi Mika, em especial aquelas que retratam os famosos tsurus, as garças japonesas. Ela ainda fez vários origamis para entender as formas do pássaro. Já Janaina decidiu passear pelo bairro da Liberdade, grande centro de cultura oriental da cidade de São Paulo, além de aguçar as memórias.

 

Técnicas das mais diversas

As técnicas utilizadas no livro foram das mais variadas. Enquanto Talita optou por colagens e desenhos digitais, Janaina usou tintas aquarela e acrílica. Já Mika utilizou o giz pastel, pois este era o seu material favorito para desenhar na época de menina. Depois, os pincéis digitais do Photoshop ajudaram a adicionar textura e reforçar linhas e contraste. Raquel lançou mão da técnica híbrida. Usou matrizes, linóleo (xilogravura), objetos do dia-a-dia (pétala de flor, pedaços de madeira, plástico bolha) e computador para desenhar os personagens com traço vetorial.

 

Originais de Mika Takahashi

 

Paleta de cores “calorosa”

Apesar de não ter se prendido a referências, a paleta de cores de Raquel é marcada pelos tons de sua estação do ano, a primavera, e com suas flores, em especial a cerejeira. Ela ainda aproveitou para potencializar certos momentos da história com cores mais intensas. Mika, por sua vez, usou as cores de forma intuitiva, mas acabou por utilizar tons coloridos e claros para passar a sensação de calor, e alguns mais escuros para criar tensão.

Janaina observou que cada paleta de cores corresponde à história e aos alimentos utilizados por cada autora. “A da Talita é mais verde, a minha mais marrom e assim por diante. A paleta escolhida para ‘costurar’ o livro nas páginas de abertura e capa foi escolhida com muito cuidado e após algumas tentativas. Achamos que é uma paleta que transmite calma, ao mesmo tempo em que é alegre e calorosa – assim como as histórias de nossas obaatians!”

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