Ficção e realidade em Robinson

 

Uma história real adaptada para ficção, que, depois, inspirou mais uma história real e, então, foi novamente transformada em registro ficcional. Ficou confuso? A gente explica. Robinson Crusoé, escrito por Daniel Defoe e publicado em 1719 no jornal inglês The Daily Post, é considerado o primeiro romance-folhetim. Ele narra a história de um náufrago que passou 28 anos em uma ilha na costa da América e sozinho teve de lidar com canibais e diversas outras dificuldades que só a solidão em uma terra desconhecida proporciona.

 

 

Acredita-se que essa história tenha sido baseada na vida de Alexander Selkirk, um náufrago escocês que ficou isolado em uma ilha do Pacífico durante quatro anos. Renomeada em 1966, hoje, a tal ilha é reconhecida como Ilha Robinson Crusoé e fica na costa chilena. Assim, solucionamos o primeiro caso de realidade adaptada para ficção. A obra de Defoe, reforço da máxima “arte imita a vida”, fez parte da infância do escritor americano Peter Sís, que, anos depois, utilizou de um momento real envolvendo essa narrativa para criar outra história. Assim, nasce Robinson, o novo lançamento da Companhia das Letrinhas.

O autor, nascido na República Tcheca durante a Guerra Fria e naturalizado estadunidense, já tem certo histórico de recorrer a sua própria biografia para a escrever livros. A exemplo disso, podemos citar Tibet through the red box (1998) e O muro (2012), que, respectivamente, homenageia os relatos de viagem de seu pai e conta sobre sua experiência, ainda criança, no lado oriental da Cortina de Ferro. Em Robinson, o contexto é o tempo de escola, as brincadeiras com os amigos, as aventuras do cotidiano. Tudo inspirado na vida real.

 

 

Em entrevista anterior ao blog da Letrinhas, o escritor declarou: “Eu serei sempre constituído pela minha infância em Praga. Não existia televisão nem internet quando eu era criança. Então, eu sempre rabisquei e desenhei”. Vivia em um país em que não conhecia a história ou a política e desenhava sobre as histórias que ouvia de seu pai e seu avô. No discurso que fez quando recebeu o prêmio Hans Christian Andersen - considerado o Nobel da literatura infantil -, em 2012, recordou: “Minha mãe, uma artista, sempre se certificou que eu tivesse papel e lápis para desenhar”. É justamente esse lado imaginativo e essa permissão para experimentar que o leitor conhece por meio de suas ilustrações. Têm um estilo que ajudam a reforçar essa fronteira flutuante entre o real e o imaginário, são ricas em detalhes e por isso criam um universo próprio, fácil de se acreditar.

Robinson, então, parece ser uma síntese do que Peter Sís é como artista. Um caminhante de lembranças vivas que percebe a literatura como forma de registrar a magia da vida e de explorar novos mundos sem sair do lugar. O encantamento da descoberta está sempre presente em seus livros. E a as diversas formas de viagem também – físicas ou geográficas e simbólicas ou filosóficas.

 

 

O lançamento traz mais descobertas do que apenas uma viagem à uma ilha distante. O enredo gira em torno de uma memória. Certa vez, Peter Sís se vestiu de Robinson Crusoé, personagem de um de seus livros favoritos, para um concurso de fantasias da escola. Sua mãe, Alenka, artista habilidosa em trabalhos manuais, foi quem confeccionou a roupa, usando um collant de sua filha, peruca, pelúcias e tapetes. Em uma nota no livro, o autor lembra que embora tenha ganhado o concurso, aparecido no jornal local e sido o orgulho de sua mãe, esse momento não o deixou muito à vontade. “O collant ficava escorregando. As peles davam coceira. Minha maquiagem estava derretendo”, comenta.

Caracterizado como um aventureiro que nenhum de seus amigos conhecia, virou motivo de chacota. Depois da ocasião, passou dias doente. “Será que viajei para a ‘Ilha do Desespero’ de Crusoé?”, imagina. Nunca teremos acesso ao que de fato aconteceu na sua cabeça durante aqueles dias. O livro que escreveu, no entanto, dá alguns indícios dessa jornada. Nele, admite ter saído mais forte da situação: “Na minha solidão, me tornei o senhor da minha própria ilha”. A dedicatória do livro (ou diário compartilhado) não poderia ser outra: Peter escreve para sua mãe, grande apoiadora dos desenhos e incentivadora de viagens a lugares desconhecidos.

 

 

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