Festival das letras pretas da literatura

 

Dos autores publicados no Brasil, 94% são brancos, assim como 92% dos personagens das histórias. Dos 5,8% de protagonistas negros encontrados nos livros, a maioria ocupa espaços marginalizados nas narrativas. Em um país em que 53% da população se autodeclara negra, os dados são espantosos. Foi por isso que o Festival do Livro e da Literatura de São Miguel decidiu que a sua oitava edição, que tem início nesta quarta (8/11), debaterá a questão em "Letras Pretas: poéticas de corpo e liberdade".

Desde 2015, com a busca em discutir o papel da literatura, o festival abordou de maneira mais ampla a questão do diálogo e da multiplicidade de vozes. Em 2016, foi a vez de se falar de gênero, do feminino e do feminismo. Para este ano, o debate abrange “a equidade racial como um dos pilares fundamentais da consolidação da democracia", conta Inácio Pereira, coordenador da programação cultural da Fundação Tide Setubal, responsável pelo evento. "Toda essa crise da democracia é por conta de uma série de lições de casa que precisam ser feitas", diz, referindo-se ao ato de pensar em equidade de gênero e de raça, na desigualdade social.

 

 

Apesar de contar com nomes conhecidos da literatura contemporânea, as estrelas do festival são as crianças. É que são realizadas, em parceria com as escolas da região, os chamados "encontros de trabalho criativo", atividades de literatura e língua portuguesa com as temáticas abordadas no evento. Neste ano, os alunos de rede pública, portanto, tiveram a oportunidade de debater a questão negra a partir de saraus, por exemplo. Eles apresentam-se durante o festival, como protagonistas da cultura da região. "O festival é um grande momento de publicar, no sentido de tornar pública, toda e qualquer escrita que as crianças fizeram", explica Inácio.

A programação do evento, no entanto, também oferece o modelo clássico de debate. No dia 8 a escritora Ana Maria Gonçalves discute, com o escritor Cuti e a psicanalista Maria Lúcia da Silva, a trajetória de negras e negros nas narrativas literárias no século XX. O encontro, na Universidade Cruzeiro do Sul, às 20h, é intitulado "O corpo: da literatura à psique". Parte da conversa será baseada na pesquisa de Regina Dalcastagnè, publicada em seu livro "Literatura brasileira contemporânea: um território contestado", cujos dados foram divulgados acima.

Em sua tese, a pesquisadora também aponta que, das personagens brancas, 46,9% pertencem à elite intelectual. Quando se trata dos negros, esse número cai para 17,3%. Os personagens negros ainda são mais jovens: 9,2% deles são crianças e 16,3%, adolescentes. Quando falamos de personagens brancos, esses números caem para 7,4% e 9,4%, respectivamente. Acontece que, das personagens crianças e negras, 33,3% são retratadas como dependente químicas; esse número cai para 4,1% quando se referem às crianças brancas. “A literatura é um instrumento profundo de humanização, mas também pode ser um instrumento de reprodução de poderes, de hierarquias, de estereótipos", lembra Inácio.

 

 

Para que essa ocupação fosse realizada de maneira efetiva, foi criado um grupo de apoio curatorial, constituído por Adriana Barbosa (fundadora da Feira Preta), Andrio Candido (Coletivo Ururai), Camila Casseano (Sesc), Danilo Ramos Silva (Literasampa), Débora Garcia (Sarau das Pretas), Elizandra Souza, (Sarau das Pretas), Erika de Oliveira Ruiz (Sesc), Iracema Santos do Nascimento (Consultora do Gife e da Rede LEQT), Luiz Paulo Lima (Feira Preta), Maria Lúcia da Silva (Instituto AMMA Negritude e Psique), Nadiele Pires (Feira Preta), Neide Aparecida de Almeida (Museu Afro Brasil) e Renato Gama (ator, compositor e músico).

O 8o Festival do Livro e da Literatura de São Miguel acontece entre os dias 8 e 10 de novembro e conta com programas em 52 pontos da região. Confira a programação completa.

 

Anote na agenda

O que: 8o Festival do Livro da Literatura de São Miguel

Onde: diversos pontos de São Miguel

Quando: de 8/11 a 10/11

Quanto: grátis

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