Feliz Dia Nacional do Designer Gráfico!

 

Um livro é, ao mesmo tempo, veículo de comunicação, peça literária, instrumento pedagógico, fonte de saber e de lazer. Mas um livro infantil carrega um desafio a mais: atrair e estimular ainda mais a curiosidade da leitura nas crianças em seus primeiros anos de vida. O texto, a imagem, os caracteres, o tipo do papel, a encadernação, a forma e o peso adequados à pequena mão do leitor são elementos com os quais um designer, ao produzir uma obra, trabalha para comunicar despertando a criatividade e a imaginação na criança. Por isso, hoje, no Dia Nacional do Designer Gráfico, são eles os nossos homenageados do Blog!

 

 

No Brasil, o Dia Nacional do Designer Gráfico foi instituído em homenagem a um dos nomes mais importantes do design brasileiro, o pernambucano Aloisio Magalhães. Criador múltiplo e pioneiro do design gráfico no Brasil, criou projetos históricos no país, como o do IV Centenário do Rio de Janeiro, o desenho da cédula de 1 mil cruzeiro e a identidade visual da Petrobras. Também ficou conhecido por sua atuação na política cultural, na garantia de reconhecimento do design como patrimônio intelectual da humanidade, na participação da fundação da Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro (ESDI) e na criação do Centro Nacional de Referência Cultural (CNRC). Também já ocupou a posição de direção do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) e a secretaria-geral do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Como demonstra a Ocupação Aloisio Magalhães realizada pelo Itaú Cultural: esse artista “colocou em debate público o pensamento que pautou a sua própria existência: o desenvolvimento econômico e social do país deveria aliar-se à sua diversidade cultural”.

 

Vídeo parte da Ocupação Aloisio Magalhães, disponível online no site do Itaú Cultural

 

É no dia do seu nascimento, 5 de novembro, que é comemorado há 21 anos o Dia Nacional do Designer Gráfico. Em meio a homenagem, convidamos algumas designers para refletirem sobre o papel desse profissional na literatura infantil respondendo à pergunta: “Quais são os caminhos e as transformações pelos quais o design percorre quando entra no universo da literatura infantil?”. Confira!

 

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“Design é projeto que, na literatura, principalmente para a infância, funde-se ao próprio projeto narrativo. Quando se pensa nas linguagens e materialidades possíveis dessa criação, quem melhor que o design, com seus métodos e recursos, pode evidenciar os componentes e a forma como se articulam dentro da construção narrativa? Das imagens aos textos e suportes tudo é projeto, projeto poético — como evidenciam, por exemplo, os livros ilustrados. É nessa dimensão literária e artística que o design opera, permitindo trazer à luz aspectos relativos à criatividade e à originalidade das obras. É nessa dimensão que os designers encontram seus maiores desafios. O encanto da literatura infantil está em tornar tangível pela forma do livro as possibilidades estéticas de se trabalhar o imaginário, provocando interesses de leitura em níveis diversos. É com essa potência criativa que o designer se confronta e traz sua contribuição crítica e projetual.”

Michaella Pivetti, além de designer, é pesquisadora sobre criatividade em design e literatura e autora do livro A fantasia, o design e a literatura para a infância

 

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“Vou com o Peter Hunt quando fala sobre a crítica da literatura infantil. Ao considerar a produção para a infância (no caso de Hunt, a literatura para a infância, e, no nosso, o design para a infância), admitimos trabalhar com possibilidades, probabilidades e dados empíricos, reconhecendo a grande dificuldade em lidar com eles. A assimetria entre adultos e crianças diz respeito à diferença de estágios cognitivos de ambos, que impede que o adulto saiba com precisão o que se passa nas percepções e competências das crianças. Por isso, cabe a nós o desafio de assumir o hiato e tentar entender o que acontece com o maior respeito, sem cair na armadilha de tomar como base nossas próprias formulações. E que público exigente e sensível esse nosso!”

Ana Paula Campos, é designer e estuda processos de design e livros informativos para crianças. Integra o Estúdio Voador, onde desenvolve projetos dedicados à infância

 

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“No contexto da criação de livros para a infância, uma importante transformação é o entendimento de que o design não se resume em um suporte para o texto e a imagem, ele possui voz narrativa (e potente) ao interagir com ambos. O design também conta história. Dentre os aspectos do design, como a escolha consciente da tipografia, da paleta de cor, do ritmo, entre outros, destaco a materialidade do livro, terreno fértil para uma construção visual poética e sensorial. Pensar na estrutura do livro - lombada, orelhas, formato, papel, acabamento etc. - como objeto potencializador da narrativa é um conceito abordado há anos na literatura, mas, hoje, sinto que esse pensamento está mais acessível tanto para quem lê e quem promove quanto para quem faz o livro. Partilho uma frase de Fernando Lemos, com a qual traço o meu caminho: ‘Design é, antes de tudo, pensamento’. E acrescento: pensamento é, acima de tudo, resistência.”

Raquel Matsushita é designer, autora e ilustradora de livros para crianças, como Vovó veio do Japão, e adultos, como Fundamentos gráficos para um designer consciente (Editora Musa)

 

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“A principal transformação vem da potência da relação entre texto, imagem e suporte que ocorre nos livros ilustrados. O design interage com o texto e com a imagem em um diálogo contínuo de três vozes. A narrativa vai surgir, assim, de infinitas possibilidades e articulações, de acordo com a intenção do que se quer expressar. Sendo assim, me parece estranho pensar em caminhos e transformações apenas no campo do design, pois, se observamos o percurso do livro ilustrado no Brasil, notamos que as mudanças ocorrem também nesses outros dois aspectos da obra. Dos anos 1970 em diante, especialmente até a década de 1990, as transformações dos três pilares do livro ilustrado foram intensas e são elas que dão o tom da produção e da potência narrativa que temos hoje no Brasil. Acontecimentos históricos, avanços tecnológicos e econômicos desse período foram decisivos para impactar não só os modos de trabalho do ilustrador, do autor e do designer, como a maneira desses profissionais e artistas pensarem o livro ilustrado. Acompanhar, estudar e compreender esse percurso foi, para mim, um privilégio.”

Rita da Costa Aguiar é designer e especialista em Literatura para Crianças e Jovens pelo Instituto Vera Cruz e já teve mais de 120 capas publicadas, entre elas As aventuras de Glauber e Hilda

 

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“Ler livros para as crianças é um jeito de incentivar o interesse e a formação dos futuros leitores. As crianças adoram as letras, mas curtem também cores e ilustrações, por isso um layout bem pensado complementa e faz parte fundamental desse processo de fruição e de aprendizado da leitura.

São inúmeros os elementos que precisam ser considerados na produção de um livro, a começar pelo tipo e pelo tamanho da letra ou dos recursos gráficos que dialogam com a narrativa. Por exemplo, um layout muito arejado pode ser uma boa opção para indicar um tema delicado; textos com frases destacadas podem sinalizar partes críticas da narrativa; aberturas de capítulo em página dupla podem trazer uma grande ilustração, o que marca a lateral do livro indicando tais aberturas; um livro com cantos arredondados pode dar um ar de relato de memórias, como um moleskine…

Mas, em linhas gerais, o papel do design é trazer legibilidade e leiturabilidade, incorporar e traduzir a narrativa de uma forma clara, bem dividida, com aspecto agradável e confortável, trazer elementos que possam estimular ainda mais a leitura, estabelecendo e organizando a hierarquia desses elementos. Tem o poder de apresentar recursos gráficos que enriqueçam a leitura, dividam, enfatizem e deixem a narrativa mais agradável e fluida.

E o ilustrador é a peça mais significativa desse quebra-cabeça, e o design tem que considerá-lo, e muito, nessa conta, pois é parte do estabelecimento de hierarquias na narrativa e, por que não dizer, no ‘andamento’ do livro. No processo, há situações em que pautamos esse profissional em quantidade, tamanho e tipo de ilustrações, em que ele segue um "mapa" mais solto. Isso vai ser determinado levando em consideração o público-alvo, o preço de capa e o potencial de vendas.

Assim, é importante que editores, ilustradores e designers estejam afinados para obter o melhor do potencial da ilustração e do layout, já que o projeto gráfico-editorial de um livro infantojuvenil precisa ser definido com foco no leitor, buscando inovação e viabilidade financeira.

Enfim, o trabalho é detalhado e em equipe, necessitando do conhecimento não só do tema, mas das particularidades do livro como produto. Ao contrário de uma peça publicitária, estamos falando de um layout que tem, no mínimo, cinco anos de contrato que são renováveis. É bem comum o layout ficar datado e precisar de reformulações, mas, esse “olhar para trás” e perceber o crescimento, a mudança e a necessidade de se reinventar é muito estimulante!”

Helen Nakao, formada em editoração e design gráfico, supervisiona a produção de livros infantis, juvenis e quadrinhos da Companhia das Letras desde 1998

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