Entre gestos, olhares e minúcias

Por Ana Miranda

 

Tomie: cerejeiras na noite foi o livro que mais me deu sensação de leveza ao escrever, pois eu estava olhando e convivendo com a alma de uma pessoa tão delicada, tão suave, que era a Tomie Ohtake. Observava seus gestos, sua casa, seus arranjos de flores vermelhas, seus jarros, suas tintas, suas cadeiras, seu jardim. Tudo era lindo, simples, tudo tinha arte.

A Tomie achava que não sabia muito bem falar português, mas eu achava o modo de ela falar um dos mais bonitos. Ela usava a economia de palavras de tal modo que cada palavra sua adquiria mais e mais significados e força. Cada palavra que ela dizia era pensada e dita num pequeno sopro, com um gesto da cabeça afirmando e um gesto de reverência com as mãos, um leve recurvar do corpo, como respeitando cada letra. Ela preferia as palavras monossilábicas. Ela dizia: “Português difícil. Não é fácil como japonês”. Eu ria muito feliz.

Ela não se perdia na narrativa, seguia um fio direitinho, não embaralhava lembranças, tempos. Contou primeiro da infância, depois da juventude, da vinda para o Brasil, tudo quase em perfeita ordem. Eu ia anotando com lápis num caderninho que ficava no meu colo ou na mesa. Às vezes, eu me encantava tanto que me esquecia de anotar, e ela observava. Ela observava tudo, tinha mesmo o olhar de um artista, capaz de ver o que outras pessoas não conseguem ver. Ela lembrava de cor algumas frases que lhe disseram quando era criança. Ela narrava quase sempre com os diálogos. Ela gostava de lembrar.

Eu não perguntava nada para escrever o livro. Deixava que a Tomie falasse à vontade, ela era quem escolhia os assuntos, ficava pensando, pensando... E sussurrava alguma coisa. Às vezes, ria. Riu quando falou nos chifres da noiva. Mas também sentia uma dorzinha quando se lembrava de algumas coisas, mas era uma dorzinha delicada e cerimoniosa. Tinha muita naturalidade para falar nos sofrimentos. Para dar ênfase, ela repetia a palavra. Por exemplo: “Chorou, chorou, chorou”. Não havia uma mudança no tom de voz quando ela se lembrava de algo triste, como a morte do pai ou a doença que quase a matou. Nem quando falava em seus prazeres, como passear de barco ou desenhar. Parecia que tudo fazia parte da lembrança com um mesmo peso, nem ela se fixava no lado bom nem no lado ruim, não havia lados, era um todo.

Foi só depois de ter completo o corpo do livro narrado pela Tomie que fui buscar nos livros algumas explicações dos costumes japoneses, da história, da religião, da geografia, para que as crianças que lessem o livro entendessem melhor a vida da Tomie.

De sua vida, ela teve facilidade para falar. De seu trabalho, disse pouco. Falou das suas primeiras pinturas, da chuva que borrou as tintas, da primeira exposição. O que mais parecia ser importante para a Tomie era a influência do Brasil no seu trabalho, as cores iluminadas do país. Ela disse que o Brasil é alegre. E que aquilo que ela pintava era o que ela um dia tinha vivido.

Eu almoçava em sua casa aos domingos, em família, e, quando terminava o almoço e ficávamos sozinhas à mesa, ela dava sinal se estava pronta para falar. O sinal era um olhar para mim, como se esperado. Tudo em silêncio e minúcias. Foi assim, de domingo em domingo, que o livro se construiu, tão belo.

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Ana Miranda nasceu em Fortaleza, em 1951. Morou em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Hoje vive no Ceará. Estreou como romancista em 1989, com Boca do Inferno (prêmio Jabuti de revelação). De lá para cá, escreveu diversos romances, entre eles Desmundo (1996), Amrik (1997) e Dias & Dias (2002, prêmio Jabuti de romance e prêmio da Academia Brasileira de Letras). Foi escritora visitante em universidades como Stanford e Yale, nos Estados Unidos, e representou o Brasil perante a União Latina, em Roma.