É diferente ser criança na cidade e no sertão?

O que é ser criança na cidade? E numa floresta? Como vivem meninos e meninas às margens de rios ou numa comunidade quilombola? Como é a infância nos sertões do Brasil? Para responder a essas e outras questões, um grupo de jornalistas e fotógrafos se reuniu há cinco anos e desde então vem registrando o cotidiano e o imaginário das infâncias além dos centros urbanos, compondo inventários com histórias, cantigas, rituais, encantarias, tradições, brinquedos e brincadeiras do Brasil.

O projeto, batizado de Infâncias, já circulou pelas cinco regiões do país, visitou quintais em regiões como Vale do Jequitinhonha, Chapada Diamantina e rio Xingu. E agora lança o primeiro inventário: o dos cabinhas do Cariri cearense. O que quer dizer cabinha? É um jeito de chamar criança por lá – tem origem na expressão “cabra da peste”, que no modo de o povo falar vira caba e, então, cabinha.

Agora, é possível conhecer a vida das crianças do Cariri no Inventário dos cabinhas – Instalação de poéticas da infância do sertão, que está aberta ao público até 29 de janeiro no Sesc Santo André, no ABC Paulista. A instalação, que conta com fotografias, objetos, vídeos e áudios, nasce depois do lançamento do livro Terra de cabinha (editora Peirópolis) e do curta-metragem Meninos e reis, premiados por selos e em festivais.

Na instalação, o visitante pode conhecer a infância do sertão – ou melhor, de um reino. É que contam os mais velhos que, em outros tempos, ali reinaram Manacá e Jurema. Mas um dia todo o reino se encantou nos paredões de pedra – quem encontrar um portal pode acessar esse lugar encantado. Nos fundos das águas foi parar a princesa Maara, amaldiçoada pelo rei Manacá e transformada em serpente.

Para experimentar um pouco a infância dos cabinhas, o convite é mergulhar nas sonoridades do Cariri: ouvir Dona Jesus entoando uma cantiga de ninar e Dona Valquíria cantando uma música do coco, uma das muitas manifestações populares desse sertão. É também por meio de sonoridades que também podemos acompanhar meninos numa caçada, conhecer a história da princesa-serpente Maara e ouvir meninos numa batalha de piões, brinquedo que não falta no inventário de um cabinha.

A estética da instalação remete a uma casa sertaneja, onde logo na sala expõem imagens de Padre Cícero, o aclamado Padim Ciço, rodeado de outros tantos santos e diversos retratos de família. Mas aqui os retratos são de muitas crianças: brincando de pião, pulando corda, puxando jumento, vestidas de caretas (uma das tradições da Semana Santa).

“A ideia é que as crianças urbanas possam conhecer um pouco a vida de meninos e meninos desse sertão verde chamado Cariri, promovendo um intercâmbio entre infâncias”, diz a jornalista e documentarista Gabriela Romeu, idealizadora do Infâncias ao lado de Marlene Peret. Elas atuam em parceria com o fotógrafo Samuel Macedo, a produtora Michelle Antunes e as roteiristas Gabriella Mancini e Vanessa Fort.

É por isso que muitos dos minidocumentários da instalação mostram um pouco do cotidiano dos cabinhas. Num deles, o menino Normando, mais conhecido como Dó, conta como é que lá na Serra do Zabelê as crianças caçam jumentos nas matas e depois apostam corridas montadas a pelo nos animais. Quem perde, explica Dó, volta pra casa puxando o jumentinho. Mas o cabinha garante que não perde uma só corrida.

O reisado, uma das manifestações populares que mais fascinam os cabinhas, está presente no documentário Meninos e reis, exibido na instalação. O filme conta a história do último ano de reinado de uma rainha guerreira, a menina Maria, que tem sofre o drama de ter de entregar à irmã mais nova sua coroa e seu trono. Ou seja, há ainda muitos reinados no Cariri!

E quem pode brincar de virar rei no final é o próprio visitante – criança ou adulto. Alguns figurinos dessa brincadeira popular – coletes, capas, coroas, capacetes e cafuringas (como é chamado o chapéu do palhaço do reisado, o Mateus) – ficam à disposição do público, que pode escolher como se trajar e ainda tirar seu retrato, integrando a parede de fotos. As peças foram feitas pela artista Silvana Marcondes.

O projeto integra a programação É tempo de cabinha, que tem oficinas, narrações de histórias, espetáculos teatrais e cortejos relacionados ao tema. Avós, pais e filhos são também convidados a participar de uma oficina que está compondo um inventário intergeracional de infâncias, coordenado por Gabriela Romeu e Penélope Martins. “Que a infância dos cabinhas nos provoque a refletir sobre as nossas, a pensar nos espaços e tempos das crianças urbanas, e também a inventariar nossas histórias, brinquedos e brincadeiras”, conclui Gabriela.

 

Anote na agenda

Inventário dos cabinhas – Instalação de poéticas da infância do sertão

Onde: Sesc Santo André (r. Tamarutaca, 302, Santo André)

Quando: de terça a domingo; até 29/1

Quanto: grátis

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