Dois e dois são cinco — a Letrinhas 25 anos depois

 

Por Mell Brites

Lilia Moritz Schwarcz, em seu post de abertura da comemoração dos 25 anos, nos contou como foi a primeira festa da Companhia das Letrinhas, com bolo, pipoca e muitos balões. Naquela época, os livros ainda não disputavam espaço com Ipads, as políticas públicas de incentivo à leitura começavam a dar os primeiros sinais e a esperança de um país em que todos os cidadãos pudessem ter acesso à educação era maior.

 

 

Apesar de o cenário ser bastante diferente agora — o livro digital começa a ganhar maiores proporções, as políticas públicas passam por uma crise grave e o que parece reinar é um sentimento dolorido de desesperança —, muito foi mantido aqui na Letrinhas. Acredito que parte do meu trabalho seja justamente continuar a fazer reverberar o que, lá em 1991, a Lili propôs: “Encontrar livros de reconhecida qualidade editorial, combinados com muito apuro gráfico”, tratando o nosso leitor com o respeito que ele merece.

Ao lado dos autores, ilustradores, tradutores e demais envolvidos, nós fazemos o exercício diário de nos colocar no lugar deste outro, a criança, para entender o mundo através das suas inquietações, sem estereotipá-lo, e assim oferecer uma literatura de qualidade que dialogue com (e vá também ajudando a expandir) o seu universo. Parece fácil, mas não é tanto — como bem sabem os artistas que dão vida a cada uma das nossas publicações.

É assim que a Companhia das Letrinhas trabalha há 25 anos e, arrisco dizer, continuará a trabalhar por muito tempo. Foi esse mesmo combustível que gerou, em 2011, o “Ipum”, nosso primeiro e por enquanto único livro digital; um clube de assinaturas que já completou um ano; e este blog, um espaço que busca gerar conversa e reflexão entre aqueles que se interessam pela infância e a literatura infantil. Nossos títulos nacionais começaram a alcançar outros territórios, estamos trabalhando de forma mais especializada com cada interlocutor, como o livreiro, o professor, os pais e as crianças, e temos um catálogo cada vez mais diversificado — como não podia deixar de ser, diante de tantos paradigmas que vêm se transformando tão rapidamente.

Aliás, a preocupação de trazer publicações que estejam em sintonia com as questões do nosso tempo não é exclusiva do público adulto. Por que não falar sobre gênero, direitos e democracia com as crianças? Há, claro, o grande desafio de encontrar o melhor modo de fazê-lo, mas será que tratando de assuntos como esses desde a infância, as chances de construirmos um lugar melhor para viver — um país mais justo e educado — não aumenta? Continuo acreditando que sim.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas.

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Ilustração Marcelo Tolentino