Do que (não) falamos quando (não) falamos do racismo?

 

“Minha infância se deu na década de 1970, e as práticas racistas eram constantes, inclusive no espaço escolar. Conheci Lobato por meio de seus livros indicados como leitura obrigatória nas escolas onde estudei e em todas as séries. A minha consciência racial deu-se aos seis anos: foi quando descobri que ser negra me excluiria da sociedade como um todo. Tal descoberta se deu na escola, onde as obras de Lobato serviram para tensionar as relações entre crianças brancas e negras, uma vez que a forma com a qual ele apresentava seus personagens negros, idiotizados, como Tia Nastácia e Tio Barnabé, e a figura demonizada do Saci, ampliava o repertório de maldades e xingamentos no meu cotidiano escolar.” 

Essa é a lembrança da escritora Kiusam de Oliveira sobre a obra de Monteiro Lobato, autor paulista que não só deixou um legado de ricas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, mas também de fortes questionamentos sobre o teor racista de trechos e passagens de sua obra. “Como gostar dele? Não entendia como ele havia se tornado um escritor famoso pregando o racismo”, diz Kiusam, doutora em Educação pelo Universidade de São Paulo (USP), autora de livros como O mundo no black power de Tayó e O mar que banha a Ilha de Goré (editora Peirópolis).

 

Fotomontagem com Heloisa Pires Lima, Magno Faria e Kiusam de Oliveira

 

Ao lado da também escritora Heloisa Pires Lima e do educador Magno Faria, ela debate questões raciais envolvendo a obra lobatiana, cujo um dos marcos é o ano de 2010, quando o pedagogo Antonio Gomes da Costa Neto questionou a obra Caçadas de Pedrinho (incluída no Programa Nacional Biblioteca nas Escolas, do Ministério da Educação, em 1993 e 2003), acusada de possuir teor racista. O caso foi para o Conselho Nacional de Educação (CNE), que recomendou que cada professor deveria dar explicações sobre o preconceito presente no livro para os alunos. Após o ocorrido, o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), junto de Antonio Neto, entrou com um mandado de segurança contra o livro e o relatório do CNE. O embate acabou quando, em 2014, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), julgou improcedente o pedido.

Na história, Tia Nastácia, ao tomar o comando do carrinho puxado pelo rinoceronte Quindim, conclui para Dona Benta: “Tenha paciência (porque) agora chegou minha vez. Negro também é gente, Sinhá...”. O narrador de Caçadas de Pedrinho, quando se refere a Tia Nastácia, o faz destacando a cor da pele, muitas vezes acompanhados de adjetivos que a pintam enquanto ser simplório, tolo, que se expressa com temores e dificuldades para pronunciar algumas palavras.

“A polêmica brasileira sobre Monteiro Lobato delimitada para com os personagens negros por ele elaborados miraram, por muito tempo, a defesa do autor e houve demora em perceber a nuança da criança afro-brasileira lendo a obra”, escreve, em artigo citado aqui, a antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima, que escreve para crianças desde 1995 e é autora de Histórias da Preta e finalista do Prêmio Jabuti com a obra O marimbondo do quilombo (editora Amarilys).

Já Magno Faria, pedagogo formado pela Faculdade de Educação da USP e educador na biblioteca do Instituto Acaia, onde coordena atividades que permeiam o universo da palavra, do livro e da literatura, não leu nem viu Lobato na infância. Contador de histórias em diversos espaços de cultura, ele ressalta a importância  “de uma mediação e de uma contextualização”. Ao questionar até se é válida hoje a leitura das histórias lobatianas, ele aponta de todo modo é fundamental “dizer mais sobre o autor, tirá-lo da esfera do mito da literatura infantil brasileira’ para colocar em cena as questões raciais, classistas e moralistas”. E completa: “Isso não é subestimar o leitor. Pelo contrário, elucidar e promover debates em torno do texto é uma das ações mais necessárias em torno de um livro ou de um fundamento.”

Na conversa a seguir, os três respondem a quatro questões que, longe de abordar toda a complexidade do tema, buscam refletir o racismo ontem e hoje no país.

 

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Crianças de diferentes gerações e vivências conheceram a obra lobatiana de maneiras distintas – pelos livros, pela TV... Como foi seu contato com Lobato?

Kiusam – A minha infância se deu na década de 1970, em Santo André (São Paulo) e as práticas racistas eram constantes, inclusive no espaço escolar. Conheci Lobato por meio de seus livros indicados como leitura obrigatória nas escolas onde estudei e em todas as séries. A minha consciência racial deu-se aos seis anos: foi quando descobri que ser negra me excluiria da sociedade como um todo. Tal descoberta se deu na escola, onde as obras de Lobato serviram para tensionar as relações entre crianças brancas e negras, uma vez que a forma com a qual ele apresentava seus personagens negros, idiotizados, como Tia Nastácia e Tio Barnabé, e a figura demonizada do Saci Pererê, ampliava o repertório de maldades infantis e xingamentos no meu cotidiano escolar. Saci, Tio Barnabé e Tia Nastácia eram nomes próprios usados como xingamentos. Como gostar dele? Realmente, eu não gostava dele. Não entendia como ele havia se tornado um escritor famoso pregando o racismo. Adorei assistir à primeira versão de O Sítio do Picapau Amarelo na televisão, pois eu ficava fascinada com o mundo mágico presente no programa que tinha como referência o folclore brasileiro: a Cuca, o Saci, a Iara e o Curupira embalavam a minha imaginação! Mas era só. Os discursos preconceituosos de Emília, o lugar da cozinha e da ignorância de Tia Nastácia e o negro associado ao Saci Pererê como demônio infernizaram a minha infância. Fora as ilustrações desses personagens na época: horrendas e monstruosas. Esse conjunto produziu inferioridade racial, manifestadas sob forma de chacotas. Escrevia minhas historinhas, e a questão racial sempre foi fundamental para mim. Me inspirava em Lobato para produzir escrita completamente diferente da que ele produzia: nos meus escritos, os mais velhos eram negras e negros respeitados, protagonistas eram meninas negras estudiosas e heroínas. Com meus escritos da infância, queria que as crianças negras se sentissem valorizadas e poderosas, bem diferente dos sentimentos inevitáveis despertados em mim ao ler as obras de Lobato.

Heloísa – Como analista do repertório lobatiano, venho destacando a importância de olhar essa produção ao longo das gerações que a ela foram expostas: “A polêmica brasileira sobre Monteiro Lobato delimitada para com os personagens negros por ele elaborados miraram, por muito tempo, a defesa do autor e houve demora em perceber a nuança da criança afro-brasileira lendo a obra. Em outro artigo chamo a atenção para a escala que o repertório alcançou. Quem não leu alguma das edições, acompanhou as HQs, assistiu na TV, no cinema, conheceu os brinquedos, vestiu a fantasia no Carnaval e outras entradas. O material reinou sozinho, bem avaliado por educadores, por décadas. Circulou numa ordem de grandeza considerável para o imaginário de muitas gerações. Quando criança, eu me deparei com as Nastácias, temendo a possibilidade de me chamarem de Nastácia grudando a estereotipia, beiço, burrice na projeção da figura de mulher negra lobatiana. Ao mesmo tempo, lembro da irritação que Emília me causava, por seu jeito autoritário dirigido à simpática senhora parecida com minha avó.” [Para ler artigo completo citado por Heloisa, clique aqui]

Magno – Quando criança, os livros não chegavam com tanta facilidade em Guaianases, bairro na periferia da cidade de São Paulo onde vivi, nem existiam campanhas ou políticas públicas de valorização da leitura e um fácil acesso aos livros. A biblioteca da escola era linda, mas ficava trancada. As histórias vinham através da oralidade, sobretudo por parte da minha avó materna. E sou de uma geração de hiato em relação às séries televisivas do Sítio do Picapau Amarelo. Na primeira adaptação televisiva, eu nem existia, e a segunda foi realizada quando já não me interessava por bonecos gigantes que falavam de maneira excessivamente articulada com atores mirins, apesar da contagiante música de Gilberto Gil – talvez tenha me identificado com ele! O meu contato com Lobato vem, portanto, após me aprofundar nos estudos de literatura para crianças e jovens.

 

Alguns autores e pesquisadores dizem que Lobato reproduzia o pensamento vigente de sua época – um pensamento racista ‒ mas sem deixar de tratar dos personagens negros com o “mesmo carinho” que tratava dos demais. Tia Nastácia e Tio Barnabé, por exemplo, são protagonistas de algumas das histórias do Sítio. O que você acha sobre essa justificativa com base no contexto histórico para o comportamento de Lobato? E como isso reflete nos dias atuais? 

Kiusam – Desde quando Lobato tratou os personagens negros de suas histórias com carinho? Tal afirmação equivale ao “rouba, mas faz” tão presente na sociedade brasileira. O fato de ter negros nas novelas não garante uma aparição qualificada; o fato de ter negros nas empresas não garante que estejam recebendo o mesmo salário que brancos ao desempenharem a mesma função! Pois bem, o fato de Lobato ter colocado negros em suas histórias não garante a humanidade de seus personagens. Sim, Lobato viveu numa época em que se discutia a eugenia no Brasil, Le Bon era referência do pensamento eugenista e ele era grande amigo do Dr. Renato Kehl, fundador da Sociedade Eugênica do país. A história brasileira também traz exemplos de não negros na luta pela liberdade de negras e negros escravizados. Não poderia Monteiro Lobato ter usado a sua escrita para espalhar ideais libertárias e de dignidade para a população negra, naquele momento em que o país era considerado terra de degenerados por ser considerado um país mestiço? Não poderia ele ter usado a sua ferramenta básica, a escrita, para disseminar ideias que nos libertassem de parâmetros excludentes de ser e estar no mundo!?

Heloísa – Nessa reflexão, “a lógica de desculpar a representação racista responsabilizando o contexto é frágil. Para essa desconstrução, costumo chamar Graciliano Ramos, do mesmo contexto de Lobato. O seu A terra dos meninos pelados conduz o jovem leitor a elaborar o bulimento pautado em aparências físicas, a partir das caçoadas sofridas pelo personagem. A publicação é de 1939, mesma década do repertório O Sítio do Picapau Amarelo. Não há um determinismo época-sujeito. As respostas variam frente às mesmas questões.” [Leia artigo completo aqui]

Sobre a afetividade na narrativa de Lobato, costumo deslocar a autoria de Lobato para os ilustradores da obra [saiba mais aqui]. Isso pra dizer que me interessa menos o racismo de Lobato e mais o racismo da sociedade onde o argumento circula, o que inclui a atualidade. O repertório forma um conjunto. Nele, não está em avaliação a qualidade do texto e sim, os argumentos culturais utilizados na construção dos personagens.

Já sobre a escrita original, outro momento sugestivo poderia focalizar a irreverência de Emília. A nuança está no fato da Nastácia ser a mais desprezada pela forma como pensa, fala e, especialmente, pela aparência. No projeto literário, ela e Dona Benta estão ambas representantes de longevidades sabidas. Nunca, porém, a malcriada falta com o respeito para com a Benta. É o local do respeito e o do desrespeito que não se alternam. Nas comemorações dos oitenta anos da personagem Emília, fui convidada a opinar sobre a “preta”, em matéria na Folhinha de São Paulo. Procurei, então, encontrar um ponto que tocasse o público infantil e juvenil do jornal: “A Nastácia é deliciosa, mas percebam o quanto ela é ofendida pela Emília, Pedrinho e Narizinho: (...) mesmo sabendo que Lobato criou essas histórias em outro momento, tanto lá quanto cá, quem gostaria de ser atacado como ela é nos livros? Por isso, a dica é aproveitar a leitura para também discutir o assunto na escola ou em casa”. A saída foi propor ao leitor se colocar no lugar da Nastácia dentro dos momentos difíceis da personagem. Sem tocar na criação e na abordagem do autor, que está fisicamente morto e enterrado, embora vivo e exaltado na memória nacional, valia sensibilizar a percepção daquele que lê as histórias nos nossos dias. Afinal a obra resguarda a mesma lógica e não permanece no passado. Problematizar o xingamento é uma forma de não repassar hierarquias forjadas em outros tempos. Nem espichar estereotipias. O que passava desapercebido lá, não pode ser mantido aqui.

Magno – Acredito que seja uma fraca justificativa, e por isso torna-se perigosa o seu aceite. Lobato era efusivo e entusiasta dos ideais eugenistas no Brasil: lamentou não ter publicado o seu livro nos EUA (que ele também idolatrava) na época em que os negros eram linchados. Exaltou Renato Kehl, maior nome do eugenismo no Brasil como uma mente à frente de seu tempo. É evidente que na mesma época existiam pensadores contrários a esse ideal. Isso é importante ressaltar porque parece que não existiam outras possibilidades de se posicionar: a consagração de um pensamento hegemônico ainda nos dias de hoje acaba por ignorar, por vezes, o fato de que ao longo do período de produção lobatiana já existiam outras vozes de não naturalização e coisificação em torno do negro. Isentar Monteiro Lobato em relação às suas decisões é pensar que ele, de alguma maneira, foi isento ao seu contexto, quando de fato ele tinha um projeto de modernização ao país, que foi venerado e reverenciado em diversas biografias por isso, por um projeto em que os negros não eram bem quistos.

Para além de trechos explícitos, isso é verificado em muitas passagens banais da obra do Sítio, onde o alegado “mesmo carinho” aos personagens brancos e negros que muitos defensores da obra lobatiana se dá sobre a ótica de sempre: o carinho do branco com o negro que flerta deveras vezes com o racismo sutil. É o carinho que permite que a negra fale, mas que não tome decisões antes de Dona Benta dar o veredito; é o mesmo carinho que até permite que as crianças do Sítio tenham contato com as histórias negras, mas não possibilita, em a Reforma da natureza, por exemplo, que depois da volta de uma conferência de paz na Europa, evite que a “negra de estimação” vá direto pra cozinha, ao passo que a “sinhá” descanse em sua cadeira de balanço. É o mesmo carinho que diz “que pelo menos tinha personagens negros”, ou que “pelo menos falamos do cabelo crespo”, e é o mesmo carinho que diz que, quando questionamos isso, estamos “cometendo censura” ou, veja só, somos defensores do “politicamente correto”, ou pior somos colocados na pecha de “cultura dos ofendidos”, como no caso do livro Peppa, de Silvana Rando. E esse mesmo carinho é sempre reivindicado, curiosamente ou não, por críticos brancos. Importante pensar que a criança que Lobato tinha como leitora não é a criança dos dias de hoje. Hoje temos uma legislação que assegura direitos a todas as crianças. Se alguns desses direitos são violados por conta de uma escrita, por mais genial que seja, por mais literacidade por linha que ele contenha, essa escrita é menor do que a legislação vigente. São direitos fundamentais conquistados.

 

Já o livro O presidente negro, ficção científica para adultos de Lobato, conta sobre um presidente negro eleito nos Estados Unidos a partir de um crescimento da população negra americana e, para combater esse caso, um cientista cria um sistema para impedir a “reprodução de negros”, buscando a esterilização de toda a população. É possível afirmar que Lobato, com este livro, se expressava de modo eufórico a favor da eugenia? Quais são suas considerações sobre a obra e o debate que ela gera em 2019?

Kiusam – É preciso lembrar que Lobato tentou alçar vôos internacionais com essa obra; nenhuma das editoras internacionais aceitou editar tal história, pela ideia central do tema abordado. Restou publicá-la no Brasil. Quando o mundo combatia as ideias eugenistas, no Brasil elas se proliferavam. Tenho dito nas formações que precisamos reler O presidente negro, pois o livro oferece um mapa de práticas que estamos acompanhando desde o golpe em 2016. Talvez se perceba que a ficção imita a vida cotidiana e o quanto estamos atolados, até o pescoço, na barbárie. No momento em que vemos a ascensão de discursos violentos, racistas, sexistas, xenófobos, é preciso revisitar a história para que consigamos nos defender, uma vez que acredito que nada é novo nessa seara, isto é, aqueles que detém posturas violentas são pouco criativos e vivem saudosos, revisitando a história com saudosismo e desenterrando mortos. Houve um retrocesso no país que cada vez mais nos coloca num “Brasil-Colônia”. Vivi isso em São Paulo e nos últimos dois anos tenho vivido isto aqui, em Vitória, Vila Velha e Serra, municípios do Espírito Santo. A história desse livro é bem conhecida de negras e negros no Brasil uma vez que, na década de 1980, a esterilização de mulheres pobres e negras, à revelia de suas vontades, foi fato. Assim sendo, o conteúdo desse livro não é nenhuma novidade para nós, negras e negros brasileiros. Só defendo que devemos revisitar tal leitura como forma de nos preparar, antecipadamente, para o que está vindo por aí.

Heloísa – Com todas as letras. Ana Maria Gonçalves gritou o rei está nu na perspectiva que abriu, em 2010, olhando o autor para além de suas obras neste texto.

Magno – A questão aqui é que ele próprio, de maneira eufórica, considerava o livro como uma obra pró-eugenismo. O presidente negro, anteriormente intitulado de O choque das raças, foi assim descrito por Monteiro Lobato em carta destinada à Renato Kehl: “Renato, tu és o pai da eugenia do Brasil e a tu devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. Precisamos lançar, vulgarizar estas ideias. A humanidade precisa de uma coisa só: poda. É como vinha”.

O que seria um ponto interessante de análise é a condução exercida pela narrativa a fim de induzir o leitor a concordar com a tese de interrupção forçada da reprodução. Dessa “poda”. Sobre essa alcunha de “grito de guerra pró-eugenia” e somando com obras literárias que são contemporâneas a Lobato e que escancaram a exclusão do negro – visto como demônio, cancro do país, impeditivo de constituição de um projeto de nação da sociedade brasileira, visto como uma figura malandra, destituída de capacidades intelectuais, apenas com o corpo sensualizante – é fundamental analisar e verificar o quanto de resquício dessa ideologia está entremeada em atitudes, políticas e discursos oficiais e oficiosos das atuais lideranças políticas do país de maneira quase que arqueológica para que o racismo deixe de existir.

Ordens e bravejos como castração química e movimentos separatistas do Sul ou de São Paulo que, em algum cenário, já foram motivo de chacota hoje são cada vez mais corriqueiros. A ausência de políticas públicas para acabar com o genocídio da população negra e a normalidade da trágica situação de que a maioria das pessoas encarceradas e em situação de rua são negras podem também se constituir como herança desse pensamento vigente, fundante nas relações escravocratas e a sua perpetuação com novas roupagens.

 

Diante do debate sobre questões raciais na obra infantil de Lobato, qual seria o modo de abordagem ideal e cuidadoso para os leitores de hoje?

Kiusam – Se você nunca percebeu nada de racista nos textos de Lobato, cuidado: você deve pensar exatamente como ele. Imagino as suas práticas cotidianas. O que as pessoas precisam entender é que as manifestações racistas de Lobato em sua obra em nada diminuirão a importância desse autor no Brasil. Contudo, as pessoas precisam aprender a olhar com parcimônia e reconhecer o óbvio: Lobato viveu seu tempo dando pitacos na política, na economia, na saúde e na educação brasileira, sendo apoiador da eugenia e inúmeros documentos comprovam tal posicionamento. Nesse sentido, à luz desses documentos e das histórias contadas por pessoas comuns e negras sobre o impacto da obra de Lobato em suas infâncias, as homenagens e os nomes de bibliotecas, por exemplo, devem ser criticamente repensados. Para mim, a mediação qualificada é uma saída para que as crianças entrem em contato com a obra de Lobato. Tendo em vista o conjunto da obra, alguns cuidados pedagógicos se fazem necessários:

1) Farsa jamais: o que Lobato escreveu está escrito; retirar aspectos racistas de sua obra é como jogar a sujeira de um homem branco para baixo do tapete, quando ninguém faz isso com um homem negro;

2) O educador deve descobrir quais os espaços potentes para sua intervenção mediante a obra, entendendo que racismo e sexismo são questões fundamentais;

3) Leitura mediada e processual com dicionário do lado e, conforme as palavras estranhas e expressões discriminatórias forem aparecendo, importante que, ao mesmo tempo, sejam discutidas;

4) Acompanhar nos espaços educativos as leituras e o que elas suscitam em termos de emoções nas crianças e nos jovens: uma palavra discriminatória, um xingamento... se faz necessário parar e discutir o que aquilo implica;

5) Analisar as ilustrações e discutir os estereótipos presentes nelas também fazem parte da aprendizagem;

6) Acompanhar se os textos e as imagens estão fortalecendo as identidades das crianças negras;

7) Averiguar se os textos e as imagens estão sendo capazes de ressignificar os padrões eurocêntricos, destacando a branquitude como privilégio central, inclusive nos textos e nas ilustrações.

Heloísa – Não toco na criação de ninguém, pois cada qual é livre para fazê-lo a partir de seu ponto de vista. No entanto, não há obra que não possa passar pela crítica quanto ao aspecto do racismo. E no boom Lobato que vem por aí eu torço para o ponto de vista da autoria negra. Serão releituras importantes para uma biblioecologia. No Brasil, há um racismo singular no circuito editorial. A representação negra para os imaginários, sem a representatividade dos ângulos que esse segmento populacional possa sugerir. Por ser uma existência singular a elaborar respostas diversas. Como analista da produção voltada para uma faixa etária em formação, procuro sempre alertar para textos bacanas, que melhorem as relações raciais. Sobretudo pelo momento de retrocesso no país, parte de uma corrente planetária de conservadorismos inimagináveis. É o cotidiano que favorece privilégios de um segmento social sobre outros. E a produção editorial não está apartada disso. E o meu critério é um só: perceber a criança, em especial famílias negras, se relacionando com o material.

Magno – As ações terão que ser feitas para além de uma conversa durante ou após a leitura. O racismo é uma doença que está entranhada nas vísceras da sociedade. Como visto até agora, é um problema que é maior do que a obra do Monteiro Lobato para crianças, muito embora ela seja parte constituinte dele e indutora de questões que já são pautas e debates no combate ao racismo.

O cumprimento da Lei 10.639/03 (atualizada em 11.645/08), que inclui o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à história do Brasil é um caminho pensando no acesso a outros tipos de narrativas e visões da história para a construção de um imaginário de nação mais completo.

Não é possível, nem desejável, que fiquemos lendo todo tipo de livro com interrupções para explicar condições e contextualizações históricas ao que o autor se situa porque isso é algo fruto de seu tempo. Ou que crianças negras tenham que ficar relevando/escutando/digerindo/experienciando um destrato à sua história, à sua identidade porque existem críticos que o consideram um gênio. Muito menos que crianças em suas autônomas leituras disponíveis em bibliotecas/salas de leitura/residências tenham como normal algumas condutas não superadas no começo do século XX:

“– É o que eu digo – ajuntou Emília – O povo, coitado, não tem delicadeza, não tem finuras, não tem arte. É grosseiro, tosco em tudo o que faz.

– Sim – disse dona Benta – Nós não podemos exigir do povo o apuro artístico dos grandes escritores. O povo... O que é o povo? São essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.” (Histórias de Tia Nastácia)

Com o fim dos direitos autorais das obras de Monteiro Lobato e uma nostalgia romântica de uma obra que nem sequer foi lida por muitos de seus defensores que insistem em não aprofundar o debate, cairá como uma avalanche em livrarias, espetáculos, sessões de narrações de história em muitos institutos de cultura, com muito público, muitas tiragens e muito dinheiro circulando. E isso será devidamente exacerbado, pois há uma propaganda que não toca nessas questões problematizadas em torno do Lobato há muitos anos: uma cidade com o seu nome, seu aniversário é o Dia Nacional do Livro Infantil, “um nacionalista!”. O livro de receitas da Dona Benta, muito embora seja a Tia Nastácia que cozinhe. A boneca Emília – dona de muitos disparates que hoje são mais do que equivocados – será vendida mais uma vez com recordes de vendas:

“Sempre achei a Natureza errada – disse ela – e depois de ouvir a história de Américo Pisca-Pisca acho-a mais errada ainda. Pois não é um erro fazer um sujeito pisca-piscar? Para que tanto pisco? Tudo que é demais está errado. E quanto mais eu estudo a Natureza mais vejo erros. Para que tanto beiço em tia Nastácia?” (A reforma da natureza)

Esses trechos, que são explicitamente problemáticos, necessitam de uma mediação, de uma contextualização, de, no mínimo, uma parada na leitura para ser conversada, apresentar outros tipos de narrativas, dizer mais sobre o autor, tirá-lo da esfera do “mito da literatura infantil brasileira” para colocar em cena as questões raciais, classistas e moralistas. Isso não é subestimar o leitor. Pelo contrário, elucidar e promover debates em torno do texto é uma das ações mais necessárias em torno de um livro, de uma ideia ou de um fundamento. Caso não tenha conseguido nesses trechos identificar essas questões, sugiro que não leia Monteiro Lobato para uma criança. Antes faz-se necessário estudar um pouco mais sobre o país em que você nasceu. Porque, se nesses trechos que são visivelmente agressivos, nada foi identificado, imagine o resto da leitura que está nas entrelinhas.

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