Divertido e inovador: livro infantil de não ficção

 

Engana-se quem pensa que literatura infantil de não ficção está restrita aos livros didáticos, de história, geografia, biologia. Esse gênero tem ganhado cada vez mais espaço e mais diversidade nas estantes das crianças, com linguagem literária e respeito à imaginação, à fantasia e à curiosidade "inerente à infância": "É importante estimulá-la e mantê-la viva pelo maior tempo possível”, diz a cientista e escritora Ileana Lotersztain, que, junto a Mariela Kogan, é autora de Ecologia até na sopa, lançamento da Companhia das Letrinhas ilustrado por Pablo Picyk.

Para isso, ela ressalta que os livros da série, publicada originalmente na Argentina, seu país de origem, não devem ser mediados como se fossem "livros de estudo", com avaliações posteriores. São obras que pretendem despertar mais perguntas em seus leitores, provocá-los a buscar por mais informações, pesquisar em outros livros, na internet, perguntar a especialistas. "Fazemos uma aposta difícil, quase contraditória: que a leitura desperte mais perguntas do que o leitor teve antes de começar a ler. E isso, para a escola, deve ser muito bom. Ou não?"

Já na faculdade de biologia, Ileana tinha interesse em divulgação científica, inclusive escrevendo para veículos da área. Mas foi em 2000 que decidiu, ao lado da física Carla Baredes, fundar a Iamiqué, editora especializada no assunto. Seu objetivo: fazer livros informativos inovadores, interessantes e atraentes. Assim, duas mulheres da ciência descobriram “um passado e um desejo compartilhado: escrever livros de ciências para crianças, divertidos e modernos, para serem lidos pelo simples prazer de ler”.

Até na sopa nasceu de uma palestra de Silvana Fucito, que falava sobre ciência como se contasse sobre um dia que havia passado com a irmã. O encontro inspirou Química até na sopa, primeiro livro da série. O formato deu tão certo que outras obras foram escritas dessa maneira, sobre física, matemática, e Ecologia até na sopa, primeira edição brasileira da série. Confira a entrevista com Ileana Lotersztain, coautora e editora do livro.

 

 

Qual foi o início da série Até na sopa? E como foi definido este formato?

Ileana Lotersztain - Essa série começou com a Química até na sopa, um livro que veio de uma palestra dada por Silvana Fucito, da Fundação Leloir. Um amigo cientista que trabalhava no instituto ouviu a palestra e ofereceu a Silvana para contatá-la conosco, porque foi muito divertido e despertou muito interesse na plateia (que eram, em maioria, estudantes do Ensino Médio). A conversa foi muito mais curta e mais científica, mas o livro manteve o espírito da coisa: Silvana improvisava e simplesmente lhes disse sobre um dia que ela tinha passado com sua irmã, detalhando o que elas tinham feito... E o fazia muito agradavelmente. Colocar o relógio em cada página dupla para manter a ideia de um único dia que percorre todo o livro foi quase a primeira coisa que decidimos em relação ao formato porque gostamos do apoio para a história.

Como você deve ter notado, cada dupla [de páginas] tem uma grande pergunta que lhe dá um quadro, respondido na mesma página dupla. Nós tentamos estabelecer claramente os níveis de leitura. Por um lado, há uma narrativa literária que estabelece a situação para a questão e dá lugar ao discurso informativo. A explicação entre aspas faz parte do diálogo estabelecido entre os protagonistas (porque faz parte da palestra) e, ao mesmo tempo, é o texto duro e principal da página dupla. Javier Basile, nosso diretor de arte, adicionou as citações como parte do design e achamos que era bom porque dá a impressão de que alguém está dizendo isso, em vez de ser apenas um texto escrito.

Todas as informações extras estão nas seções, geralmente estão na margem direita ou na parte inferior da página ímpar, para simplificar a leitura do texto principal que responde à pergunta do título.

 

 

Como vocês trabalham os temas e autores de cada volume?

Ileana Lotersztain - Nós não temos uma maneira única de trabalhar, especialmente porque lidamos com temas muito diferentes e autores muito diferentes. Não é o mesmo trabalhar em um texto científico e em um texto filosófico; não é igual trabalhar com um livro que é incorporado em uma série que já tem um design e uma impressão, e trabalhar em cima de uma idéia abstrata. Em geral, o que surge primeiro é uma ideia ou uma proposta, que pode ser nossa ou do futuro autor. A partir disto, acontecem várias conversas, idas e voltas, até chegarmos a um desenvolvimento que consideramos atrativo e possível. A partir daí, o autor começa a escrever e estabelece uma troca muito rica em relação aos conteúdos, que geralmente visam enriquecer a informação e, ao mesmo tempo, apresentá-la de maneira atraente e acessível.

 

 

Por que fazer literatura de não ficção para as crianças? E como tornar esse gênero atrativo para esse público em específico?

Ileana Lotersztain - Porque não fazê-lo seria perder uma enorme porta que se abre para as crianças sempre que a sua curiosidade é questionada. Porque a curiosidade é algo inerente à infância e é importante estimulá-la e mantê-la viva pelo maior tempo possível. Para ser atraente, basta fazer algo que esteja em sintonia com eles, que os interpele e que, fundamentalmente, é acessível a eles. É muito importante pensar sobre o que eles querem saber e não o que devem saber, como geralmente acontece.

Na produção de um livro de literatura infantil de não ficção, quais são os cuidados e pontos específicos a serem pensados, que diferencie da produção ficcional? E quais os desafios específicos do gênero?

Ileana Lotersztain - Nós nunca editamos ficção, então não sabemos quais são os pontos específicos e as diferenças com os nossos. Temos um cuidado especial para não banalizar as informações, nas quais os conteúdos são apresentados de forma atraente... Em fazer livros interessantes e bonitos. O desafio é conseguir um livro que faça você querer lê-lo, nem mais nem menos.

Como e quais os motivos de adotar esses livros nas escolas, não com intuito didatizante, mas sim artístico?

Ileana Lotersztain - Os motivos, em princípio, são os mesmos que apoiam a decisão de adotar livros (bons livros) na escola. Há leitores para livros de ficção e não ficção, como acontece com jovens e adultos. Acreditamos e apostamos nas leituras desordenadas, que o leitor pode percorrer o livro de forma autônoma, embora consideremos fundamental que exista um fio condutor em cada livro. Não fazemos livros de perguntas e respostas tiradas ao acaso, mas nos propomos a nos aprofundar em algum tema, a partir de diferentes perspectivas (é por isso que geralmente dialogamos com a história, a mitologia, a linguagem, a cultura). Fazemos uma aposta difícil, quase contraditória: que a leitura desperte mais perguntas do que o leitor teve antes de começar a ler. E isso, para a escola, deve ser muito bom. Ou não?

Por outro lado, por serem livros construídos a partir da própria curiosidade dos autores e editoras, são geralmente livros também atrativos para adultos. Nossos livros são lidos como uma família, eles são compartilhados com os irmãos, o que os torna muito interessantes para qualquer plano de leitura.

 

 

Para esse tipo de leitura, faz-se necessário uma mediação de leitura (dos pais ou educadores) diferente de uma literatura de ficção? Por quê? No que ela difere?

Ileana Lotersztain - Como disse antes, apostamos que a leitura pode ser feita de forma autônoma, que cada leitor decide como passar por cada livro e que a mediação não é necessária. Ao ouvir os muitos mediadores que trabalham com nossos livros, sabemos que normalmente é suficiente motivar lendo em voz alta algum texto curto, mostrando o índice temático ou simplesmente deixando o livro em algum lugar acessível. O que você não deve fazer com nossos livros é mediá-los como se fossem livros de estudo, perguntar o que eles aprenderam ou "avaliar" o que entenderam. Isso posicionaria nossos livros no lugar errado.

Outra coisa importante a ter em mente é que, se atingirmos o objetivo, o leitor terá muitas perguntas, por isso é útil ajudar mais tarde na busca de informações, seja através de outros livros, internet, consultas com um especialista etc.

A partir da narrativa criada com ajuda dos questionamentos das crianças, podemos dizer que um das pretensões do gênero é colocar a criança como protagonista do seu conhecimento?

Ileana Lotersztain - Absolutamente, mas, ao mesmo tempo, mostrar que nem tudo é confiável ou acessível... E fornecer as ferramentas necessárias para avaliar se a informação é confiável ou não, e saber como encontrá-la e obtê-la.

Considerando as diferentes infâncias e repertórios que os potenciais leitores mirins trazem, é possível dizer que esta literatura é acessível à todas as crianças?

Ileana Lotersztain - A acessibilidade é uma questão fundamental do nosso trabalho editorial, mas também a confiança nos leitores e leitoras. Não supomos que o leitor tenha conhecimento prévio, mas confiamos em sua capacidade de entender, raciocinar, questionar, perguntar.

Podemos dizer que pelo seu conteúdo, trata-se de uma leitura não apenas mais desafiadora, mas também de compreensão mais restrita? Como inserir uma criança fora do ambiente escolar, sem hábitos de leitura, ou que não tenha acesso a uma TV (como, por exemplo, é citado no volume de Ecologia) para esse tipo de leitura?

Ileana Lotersztain - É desafiador no sentido de que é estimulante, que põe em dúvida seu conhecimento prévio (mesmo para muitos adultos), que o interpela, que o questiona. Não são livros que não podem ser compreendidos e apreciados por meninos e meninas que não tenham hábitos de leitura, justamente pelo modo como estão concebidos. Os leitores entendem perfeitamente o que o texto aponta quando perguntados sobre quanta natureza há na TV, ainda que não tenham TV em casa.

Quais são os passos futuros da literatura infantil de não ficção?

Ileana Lotersztain - Na medida em que a não ficção está ganhando um lugar próprio e de destaque na literatura infantil, separada do livro educacional, e de acordo com o lugar cada vez mais preponderante que a informação tem na sociedade atual, é um desafio criar conteúdo atraente, original e convidativos. Nesse sentido, o design e a confiabilidade dos conteúdos desempenham um papel cada vez mais importante.

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais