Cultura popular, literatura e escola

 

Por Ricardo Azevedo

Não é fácil definir “cultura popular”. Por “cultura”, em resumo, costuma-se entender um conjunto de significados, valores, crenças, hábitos e estilos compartilhados, assim como suas representações, conjunto este aprendido durante o processo de socialização. Mas e “cultura popular”?

Segundo os especialistas, seria algo como um conjunto de “crenças coletivas sem doutrinas; práticas coletivas sem teoria”. Em outras palavras, tudo aquilo que aprendemos e transmitimos espontaneamente, de forma não oficial, ou seja, fora de programas e concepções pré-determinadas fixadas por textos e escolas, durante a pura e simples convivência social, na família, nas ruas, no trabalho, nas conversas, faz parte da chamada “cultura popular”.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

O assunto, porém, apresenta inúmeras facetas. A “cultura popular brasileira”, simplificando bastante, pode ser descrita como um sistema de várias culturas populares regionais e, por vezes, locais, interconectadas e enraizadas em três fontes ou tradições principais: a portuguesa, a indígena e a africana. Acontece que, como sabemos, não existe apenas uma tradição indígena ou uma tradição africana, mas sim muitas e diferentes entre si. Além disso, italianos, árabes, alemães, poloneses e japoneses, entre outros povos, já fazem parte, com suas culturas e visões de mundo, de nossa paisagem. Como se vê, estamos diante de um universo imenso, fértil e variável.

Em todo o caso, o que interessa aqui é falar sobre as formas literárias típicas das culturas populares: contos, lendas, adivinhas, quadras, a poesia narrativa do cordel, anedotas, ditados, frases feitas, anedotas e trava-línguas, entre outras brincadeiras com palavras. Trata-se de um acervo inacreditavelmente rico.

Quem examinar o discurso utilizado nessas manifestações vai descobrir uma linguagem construída quase sempre na forma coloquial, concisa e direta, com o uso do vocabulário público do dia-a-dia, frases feitas, fórmulas verbais e expressões conhecidas por todos. Nada, portanto, de termos e conceitos abstratos, de vocabulário complicado ou especializado, de imagens indecifráveis, de descrições e períodos longos ou de discursos fragmentados e experimentais.

Abro parênteses: trata-se de um discurso marcado pela oralidade e, em princípio, da mesma linguagem recorrente nas chamadas literaturas infantil e juvenil, ou seja, de uma linguagem popular e acessível, utilizada em toda e qualquer obra ou comunicação que pretenda ser compreendida de forma imediata.

Vale lembrar que o artista popular, como ensinou R.G. Collingwood, tende a expressar não o “eu sinto”, mas o “nós sentimos”, ou seja, prefere trazer algo que emocione e gere identificação em todas as pessoas, em lugar de expressar apenas suas idiossincrasias e questões pessoais (apud Prefácio a Platão, Eric A. Havelock, 1996).

Por essa razão, o uso formular, o lugar-comum e a previsibilidade, como disse Romildo Sant’Anna, em seu estudo sobre a moda caipira, não depreciam o conceito criativo da autoria: “O comum nunca foi feio, sendo certo que por ser bonito é que ficou comum” (A Moda é Viola: Ensaio do Cantar Caipira, 2000).

A frase de Sant’Anna, convenhamos, faz sentido. Além disso, é absolutamente pragmática e capaz de gerar identificação tanto em modernos, letrados, tradicionais e iletrados. Se uma coisa é boa, satisfaz, enriquece e dá prazer, por que não retornar a ela? O ditado popular é claro quanto a isso: “Quem gosta volta”.

Sobre os conteúdos tratados pelas formas populares, pode-se dizer o mesmo. São quase sempre imagens e assuntos complexos, mas tratados de uma forma com que todos podemos nos identificar. Vamos tomar como exemplo os contos populares, também chamados de encantamento, maravilhosos, de fadas, embora muitas vezes sejam realistas como a bela e emocionante narrativa Coco Verde e Melancia, entre muitas outras.

Não poucas vezes, os enredos desses contos descrevem um processo de iniciação. Por exemplo, há narrativas que trazem heróis que viajam para conhecer a vida e o mundo, enfrentam e vencem incríveis desafios, por vezes forças do mal, por vezes a própria morte, e acabam libertando e conquistando uma bela moça que antes vivia prisioneira num castelo prateado. Entre outros assuntos, trata-se da busca da identidade e do autoconhecimento. Ou meninas que, quando se tornam moças, veem-se ameaçadas de morte pela própria mãe ou madrasta e lançam mão de toda sua esperteza e tirocínio para poder escapar. Trata-se, no fundo, da luta do velho contra o novo. Ambos os temas são arcaicos e profundamente humanos.

E o que dizer das princesas que nascem mudas e recuperam sua voz quando encontram o homem por quem se apaixonam? E dos gigantes que abusam de moças feitas prisioneiras em castelos? E dos irmãos que competem entre si, mentem e traem? E dos pais que tentam desposar suas próprias filhas? E dos heróis tolos que fazem tudo errado, mas mesmo assim se dão bem? E das moças ou moços que não conseguem rir e se dispõem a se casar com alguém que saiba alegrá-los? E dos pactos com o diabo e seus preços, dos heróis transformados em animais ou monstros em busca de sua identidade perdida e por aí afora?

Esta é uma das lições imprescindíveis da arte popular: abordar os assuntos e as inquietações importantes da vida, os temas que interessam à maioria das pessoas, os fantasmas da alma humana, por meio de uma forma clara e direta (isso não quer dizer fácil ou simples!), que possa ser compreendida por todos, independentemente de posição social, grau de instrução ou faixa de idade. Não é pouco.

Não posso concluir este texto sem fazer um comentário: quando crianças filhas de pais analfabetos matriculam-se na escola, veem-se imediatamente obrigadas a enfrentar o discurso da cultura oficial, que em resumo diz: você não sabe nada pois é filho de gente que não sabe ler, escrever e fazer contas.

Diante disso, essas pessoas são levadas a desprezar tudo que são, seus pais, seus avós, suas tradições, suas crenças, seus costumes e seu estilo de vida; afinal seus parentes de fato muitas vezes não sabem ler nem escrever e desconhecem a gramática, as ciências, a matemática, a história etc. Ora, essas pessoas desconhecem a cultura dominante, mas conhecem outra: a cultura popular!

Se o que se deseja é realmente formar leitores no Brasil, seria o caso de conhecer melhor e explorar sistematicamente o imenso acervo da cultura popular no processo educacional, principalmente no caso de pessoas originárias ou vinculadas de alguma forma à tradição oral. Ao entrar em contato com um conto de encantamento, uma quadra, um trava-língua ou um dito popular, o estudante talvez abra a boca espantado e diga: “Peraí! Mas meus pais conhecem isso! Isso eu já ouvi! Isso faz sentido pra mim!”.

Hoje, essa mesma criança costuma ser levada a sentir-se excluída e a envergonhar-se de si mesma e de seus próprios pais, que desconhecem tudo o que a escola ensina. O desprezo e o desconhecimento com relação a cultura do povo tem sido, creio, um extraordinário obstáculo tanto para a formação de leitores como para a construção de uma sociedade brasileira mais justa, coerente e humana.

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Ricardo Azevedo é escritor, ilustrador, compositor e pesquisador paulista, nascido em 1949. Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, é autor de vários livros para crianças e jovens, como A outra enciclopédia canina e Aviãozinho de papel, ambos pela Companhia das Letrinhas.

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Texto escrito a partir de artigos publicados pela Fundação Cargill 2001; Jornal da USP, nº 749,  2006; e pelo Proler-Joinville 2014.

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