Contos de fadas para mães feministas

Por Janaina Tokitaka

Ultimamente, os contos de fada andam recebendo críticas duras de famílias e educadores. Com razão, pais e professores reclamam que as princesas reforçam estereótipos de gênero e que essas histórias elogiam a subserviência e a beleza da mulher como valores indispensáveis para a felicidade feminina.

Como autora e ilustradora feminista, mãe de uma menina de seis meses e fã declarada de contos de fada, ando refletindo bastante sobre o assunto. Posso dizer que o que me atrai no gênero, mais do que a complexidade de seus personagens, é a pura esquisitice que está sempre presente no coração dos contos de fada.

A carruagem de abóbora, uma casa feita de doces, a transformação de 11 irmãos em gansos selvagens, o amor entre uma bailarina de papel e um soldadinho de chumbo, uma menina nascida de dentro de uma tulipa. Muito mais do que a princesa dos cabelos de ouro e sapatinhos de cristal, eram essas as imagens que permaneciam comigo depois de passar a noite folheando um livro enorme, cheio de ilustrações e muito pesado para minhas mãos.

Mas até a pessoa mais apaixonada pela estranheza da floresta dos irmãos Grimm pode acabar se incomodando com a docilidade servil da Branca de Neve, mesmo que esse leitor, assim como eu, não procure exemplos morais na ficção. Nesse caso, o que fazer?

É sempre bom lembrar que contos de fada são mutantes. Como em uma receita clássica, a base e os ingredientes continuam os mesmos, mas os temperos vão mudando com o tempo. Nada impede os pais de modificarem trechos de contos de fada com os quais não concordem, já que o formato aceita mudanças com muita naturalidade.

Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, tem dois finais diferentes. Segundo Charles Perrault, a personagem é engolida pelo lobo. Segundo os irmãos Grimm, é salva pelo caçador. Tenho certeza que a Chapeuzinho contemporânea certamente salvaria a si mesma, já que até mesmo as princesas mais sem graça criadas pelos estúdios Disney acompanham a mudança dos tempos e não precisam mais de príncipes para alcançar seus finais felizes.

Mas há muitas joias escondidas longe do cânone estabelecido pela Disney. Um bom exemplo é Mutsmag, um conto de fada apalache. Nele, a heroína é uma espécie de pequeno polegar mais selvagem e corajosa, uma criança que, abandonada por suas irmãs, sobrevive a ataques de ogros e gigantes usando sua esperteza e uma pequena faca de cozinha. Mutsmag, por seus feitos, sempre recebe uma recompensa em dinheiro, que ela usa ao final da história para se tornar independente e livre.

Já em A anciã da floresta, dos irmãos Grimm, uma pobre camponesa é assaltada por uma trupe de ladrões e deixada sem nada, na floresta. Ela se infiltra na cabana de uma bruxa má, batalha para que a malvada lhe ajude a recuperar seus bens, e, de quebra, ainda desfaz uma maldição. Tudo isso sozinha, sem a ajuda de ninguém.

Também gosto muito da protagonista do conto  Os cisnes selvagens, de Hans Christian Andersen, que salva seus irmãos, transformados em aves. Da mesma forma, Greta, em A rainha da neve, do mesmo autor, resgata seu irmão da rainha do título, enfrentando perigos e desafios pelo caminho.

Para as leitoras mais velhas, recomendo os contos de fada recontados pela quadrinista Emily Carroll e pela escritora Angela Carter, duas autoras feministas que também adoram o gênero. Nesses contos, nenhuma heroína é doce ou indefesa. São apenas alguns entre outros muitos exemplos de boas histórias para meninas brincarem com suas coroas, sujando-as de terra no quintal, em batalhas contra ogros e dragões.

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Janaina Tokitaka escreve e ilustra livros infantis. Seu primeiro livro como autora, Tem um monstro no meu jardim, foi publicado em 2010 pela Escrita Fina. Desde então, publicou mais de trintas outras obras para o público infantil e juvenil. Pela Companhia das Letrinhas, já ilustrou Nove Chapeuzinhos, Caldeirão de poemas e O mercado dos Goblins. Ministra cursos livres sobre literatura e ilustração em instituições como MIS e Escola do MAM. Foi a ilustradora selecionada do Brasil para o workshop BIB - Unesco 2016, da Bienal internacional de Bratslava.