Contemplar um livro, contemplar o mundo

 

O ritmo é marcado pela tensão do virar a página: há uma vontade do leitor entre querer avançar na história e também se prender à reflexão. É assim que a escritora e ilustradora chilena Paloma Valdivia explica o que chama de "livro contemplativo", nessa definição que pegou emprestada da editora Verónica Uribe. Essa tensão é o que busca gerar em seus livros e da qual tratará na oficina Livros para leitores contemplativos, realizada durante o Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância, a partir de amanhã (13/3), no Sesc Pinheiros, em São Paulo.

Como uma das fundadoras do Coletivo Siete Rayas, criado após o fim da ditadura militar no país, a autora buscou promover a ilustração no Chile. Com a visibilidade do grupo, seu trabalho ganhou dimensões internacionais, alcançando países como México, França, Cingapura e Espanha, o que fez despertar nela o desejo de também escrever suas próprias histórias. Foi quando começou a estudar a arte da escrita e a criar obras como Os de cima e os de baixo (Kalandraka) e É assim (Edições SM).

 

 

A artista compreende o momento de leitura como atitude íntima e afetuosa. "Há possibilidades de falar sobre o que acontece com as crianças enquanto leem, o que pensam, o que duvidam, o que não entendem, as lacunas que elas querem completar e as relações que estão fazendo com suas próprias vidas e experiências", explica a autora. "É muito interessante observar como as crianças desfrutam e se maravilham com livros, para que, então, elas queiram continuar a ler outros livros. Abre-se um espaço de confiança e de se sentir desafiado a pensar, sentir, explorar, e isso é fantástico."

Ainda mais fantástica mostra-se essa ação quando nos vemos cercados do mundo da aceleração e do imediatismo, em que palavras como "contemplação" e "meditação" se fazem cada vez mais urgentes. "Acho que a leitura e os livros na infância podem provocar na criança esses espaços de tranquilidade e interiorização. É necessária uma experiência de profundidade, é o que nos permite refletir, analisar a realidade e descobrir como pensamos para saber quem somos." É que esse desejo de explorar o mundo, tão presente na infância, não deve se limitar ao mundo de fora, mas também ao universo que habita o nosso interior. Para isso são necessárias as histórias, para criar esse "teatro interno", repertório de personagens que nos lembramos e imitamos quando enfrentamos as dificuldades do mundo externo.

Daí a necessidade de uma certa tranquilidade, um espaço silencioso para a leitura compenetrada, longe das luzes, do ruído excessivo, das telas e mais telas que nos cercam. "Essa aparente calma do corpo não implica que não haja conflitos internos em relação ao que está sendo lido. Tranquilidade externa e movimento interno. Uma criança que lê nunca está sozinha, cria um mundo imaginativo que está em movimento constante."

Confira abaixo a prosa completa com Paloma Valdivia.

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Como você define um livro contemplativo?

Paloma Valdivia – Um livro contemplativo é aquele que faz o leitor observar cuidadosamente um tema ou uma proposta literária. Ele pode causar reflexões e sentimentos profundos sobre a realidade. O leitor pode se aproximar da visão intelectual e/ou espiritual através de sua leitura, imaginação e/ou pensamento. Não precisa necessariamente ter palavras, mas se as ilustrações, suas cores, traços e a sequência de imagens articuladas devem transmitir algo e convidar o leitor a parar.

Verónica Uribe, editora e fundadora da Ediciones Ekaré, a quem admiro muito, traz a ideia de que, nos livros álbum, há uma tensão para o leitor entre querer avançar na história lendo o texto, mas também querer parar e observar as ilustrações e seus detalhes. Essa tensão é aguçada nos livros contemplativos. É como se fosse proposto um ritmo no qual queremos avançar, mas ao mesmo tempo queremos parar e pensar, olhar para trás, procurar mais pistas ou elementos para construir o significado. Estou falando de livros como O pato, a morte e a tulipa (editora Cosac Naify), de Wolf Erlbruch, Theo y Dios de Kitty Crowther ou Caminho de casa (Edições SM), de Jairo Buitrago e Rafael Yockteng, entre outros.

A pesquisadora Lucia Santaella descreveu três diferentes tipos de leitores ao longo da história. Citou o "contemplativo", cuja leitura "pode ​​retornar as páginas, repetidamente, pode ser suspensa de forma imaginativa para a meditação de um leitor solitário e concentrado". Citou também o leitor "celular" (ligado ao efêmero, ao dinâmico, à velocidade) e o "imersivo" (o leitor da era digital, do universo binário, das telas). Qual é a relação entre um livro contemplativo e uma leitura contemplativa? Qual é o papel da mediação nesse contexto?

Paloma Valdivia – A primeira coisa a dizer é que todos nós podemos ser esses três tipos de leitores de acordo com os livros e as experiências de leitura às quais estamos expostos. E é importante que, desde a infância, ofereçamos todas essas opções. Acho que, como ilustradora, fiz livros para favorecer esses três tipos de leitores, mas ultimamente tenho me dedicado e me interessado em fazer livros mais contemplativos.

Alguns meses atrás, a revista Kirkus Reviews nomeou meu livro Es así como um dos vencedores na categoria Best Picture Books de 2017 para leitores contemplativos. Foi nesse momento que eu comecei a pensar que os livros que eu escrevia e ilustrava, a maioria deles, pertenciam a essa categoria. Provocaram em alguns leitores a atitude de retornar às páginas, questionar o livro e se aproximar sensivelmente do tema levantado. Os conhecimentos que tenho sobre esse tema são baseados na observação de crianças e nos comentários que recebo de pais, mediadores e bibliotecários, não sou pesquisadora sobre o assunto, mas estou muito atenta às reações que os leitores têm.

A mediação nesse tipo de livros é muito importante, e eu diria que dá bastante protagonismo aos leitores menores ou àqueles que estão se expondo a livros mais complexos. Quando os pais, os professores, os bibliotecários que estão acompanhando os leitores têm uma atitude íntima e afetuosa, há a possibilidade de falar sobre o que acontece com as crianças enquanto leem, o que pensam, o que duvidam, o que não entendem, as lacunas que elas querem completar e as relações que estão fazendo com suas próprias vidas e experiências. Quando essa leitura compartilhada acontece, é muito interessante observar como as crianças desfrutam e se maravilham com livros, para que, então, elas queiram continuar a ler outros livros. Abre-se um espaço de confiança e de se sentir desafiado a pensar, sentir, explorar, e isso é fantástico.

No seminário "Arte, palavra e leitura na primeira infância", que acontece agora em março em São Paulo, você propõe uma reflexão sob o título "Livros para leitores contemplativos", que seria "aquele que faz o leitor observar a realidade com atenção e cuidado e ao mesmo tempo isso provoca profundas reflexões e sentimentos". Como você vê essa experiência de profundidade e tranquilidade em um mundo cada vez mais acelerado e mecanizado? É mantido ou é cada vez mais raro? Pode-se dizer, de certa forma, que é uma espécie de resistência?

Paloma Valdivia – Em um mundo tão rápido quanto o nosso, palavras como  contemplação e meditação estão cada vez mais presentes, porque essas experiências são o que nos permite aproximar da serenidade e da felicidade quando o material parece ameaçar dominar tudo. Acho que a leitura e os livros na infância podem provocar na criança esses espaços de tranquilidade e interiorização. É necessária uma experiência de profundidade, é o que nos permite refletir, analisar a realidade e descobrir como pensamos para saber quem somos. Não saberia dizer se é mantido ou é cada vez mais raro; tento fazer com que o meu filho encontre esses espaços através da leitura, jogos solitários e a conversa sobre temas que lhe permitam refletir mais tarde. Mais do que uma resistência, é uma necessidade. É esse espaço que procuro criar com meus livros.

A infância é vista como uma fase de inquietação, descobertas, de elaborar mundos. Qual é o lugar do silêncio e da contemplação nessa inquietação?

Paloma Valdivia – De fato, na infância, mas também ao longo de nossas vidas, está presente o desejo de saber mais, aprender mais sobre o mundo, explorar e descobrir para fora, mas também é importante que isso ocorra para dentro. A infância de hoje é tão dinâmica e provocadora de múltiplos interesses. Às vezes, a curto prazo. É aí que a leitura, o silêncio e a contemplação são fundamentais. Para elaborar mundos é necessário ter histórias, ter personagens que povoam nosso "teatro interno". As histórias, atitudes e características dos personagens nas histórias que lemos ou que nos leem são aquelas que nos ajudarão a refugiar-nos, a nos resguardar, mas também aos que nos lembramos e imitamos quando enfrentamos o mundo.

Na descrição da sua oficina, você também cita a importância de buscar tranquilidade através dos livros. No final, os livros devem proporcionar tranquilidade ou gerar conflitos internos em seus leitores? Como você vê essa relação?

Paloma Valdivia – A tranquilidade que eu penso ser necessária para uma criança é aquela que a afasta do ruído excessivo, das luzes, das telas e consegue conectá-la com pensamentos e emoções. Quando falo de tranquilidade, refiro-me a esse espaço silencioso e quieto que gera o ato de ler, descansar corpo, a disposição de ter todo o corpo centrado no livro, no carinho da pessoa que acompanha a criança na leitura. No entanto, essa aparente calma do corpo não implica que não haja conflitos internos em relação ao que está sendo lido. Tranquilidade externa e movimento interno. Uma criança que lê nunca está sozinha, cria um mundo imaginativo que está em movimento constante.

 

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