Como trabalhar Monteiro Lobato em sala de aula

 

Qual o melhor livro para introduzir as crianças leitoras nas sagas do Sítio do Picapau Amarelo, criado pelo escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948)? Como desvendar na riqueza da linguagem de suas histórias os hábitos de uma outra época, sem computador nem internet? É mais indicado começar a leitura do universo lobatiano pelas adaptações ou ir direto às versões integrais que vêm ganhando reedições? 

Essas são algumas das questões respondidas pela professora de literatura brasileira e teoria literária da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Cilza Bignotto, responsável pelos paratextos da nova edição de Reinações de Narizinho, e Fernando Luiz, professor de literatura infantil e literatura juvenil da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

[Para saber mais sobre a nova cara da turma do Sítio, clique aqui]

Reinações de Narizinho pode ser uma boa porta de entrada para a obra infantil lobatiana. O livro reúne algumas das primeiras histórias sobre a turma do Sítio escritas por Monteiro Lobato, a partir de 1920”, explica a pesquisadora. É, portanto, o título “em que as personagens principais do Sítio são apresentadas aos leitores”, completa Cilza, no entanto, ressalta que os jovens leitores não encontrarão dificuldades caso adentrem tal universo aventuresco por outra obra da saga, porque “Lobato sempre procura situar o leitor a respeito das histórias precedentes, por meio de pequenos resumos”.

Na escola, é fundamental evitar "transformar um objeto artístico, fonte de emoção e prazer estético, em pura lição escolar, alvo de absoluto utilitarismo", aponta o estudioso, que pesquisa a produção de Lobato relacionada à arte e à formação de professores. Mas vale, sim, levantar pontos sobre como lidar com o vocabulário em desuso presente nas obras e localizar as histórias no contexto político-social do período em que foram escritas, entre outros aspectos cruciais apontados por Cilza e Fernando.

Para saber mais, leia entrevista com os pequisadores, cujas respostas estão reunidas aqui, mas foram escritas por eles separadamente.

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Qual livro escolher para iniciar o jovem leitor na obra lobatiana?

Fernando Luiz – Trata-se de uma questão bastante frequente em congressos e demais encontros científicos. Existe uma preocupação muito grande por parte dos educadores em torno da inserção do aluno no universo lobatiano. Sem dúvida, eu sugeriria a coletânea Reinações de Narizinho, em que as histórias foram escritas ao longo da década de 1920 e, dez anos depois, organizadas, reescritas e reunidas em um único título. Compreende um importante momento na trajetória da literatura infantil brasileira.

A partir de agora, as principais personagens do Sítio são apresentadas para o leitor, bem como o espaço aventuresco, a relação horizontal entre adultos e crianças e as viagens proporcionadas pelos netos de Dona Benta por terras imaginárias e distantes. A rigor, Reinações de Narizinho revela-se como um emblemático marco na produção literária infantil e juvenil. Ali temos todo o percurso de Emília – de boneca sem vida a personagem “tagarela” e apaixonante –, que ingressa como figura secundária na obra e, gradativamente, ganha espaço como imbatível protagonista. Reinações também explora os recursos da intertextualidade, visto que as personagens da literatura tradicional (como Branca de Neve, Cinderela e Aladim) são inseridas no ambiente do Picapau Amarelo e, por meio da paródia, interagem com Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho e Narizinho. Reinações ainda foi precursora em propor ao leitor um modelo de família diferente: não há intervenção de pai e mãe na educação das crianças. O Sítio é regido por uma democrática avó, que concede total liberdade para que os netos façam suas escolhas e vivam uma infância rica em experiências, expedições fantásticas e livros. Muitos livros.  

Cilza Bignotto – Reinações de Narizinho pode ser uma boa porta de entrada para a obra infantil lobatiana. O livro reúne algumas das primeiras histórias sobre a turma do Sítio escritas por Monteiro Lobato, a partir de 1920. A princípio, as histórias eram curtas e publicadas em álbuns finos e coloridos. Em 1931, ele reuniu parte dessas narrativas, que havia reescrito, em um volume grosso, As reinações de Narizinho, seguido, em 1932, de Novas reinações de Narizinho. Em 1934, após mais revisões, juntou as histórias em um único volume, Reinações de Narizinho. Até onde sabemos, a última revisão que Lobato fez foi em 1946, quando organizou suas Obras completas. Reinações, portanto, é o livro em que as personagens principais do Sítio são apresentadas aos leitores. As crianças podem ler narrativas mais curtas, originalmente publicadas em livros independentes e conhecer aos poucos as personagens e suas aventuras. 

Os jovens leitores, porém, podem entrar no Sítio por qualquer dos livros infantis da saga, porque Lobato sempre procura situar o leitor a respeito das histórias precedentes, por meio de pequenos resumos ou referências a livros específicos. No início de O Saci, por exemplo, o narrador estabelece um diálogo com os leitores, por meio do qual explica como é o Sítio, quem vive nele, entre outras informações sobre as personagens, antes de iniciar a narrativa principal.

Como contextualizar a obra?

Fernando Luiz – Para ler os textos de Lobato, tanto a literatura que rotulou-se como “infantil” quanto a endereçada ao público “adulto”, convém sempre entender o momento histórico vivenciado pelo artista, suas convicções políticas, sua poética, seu projeto literário e a importância de sua iniciativa para a formação do mercado editorial brasileiro. Seus textos dialogam com o contexto histórico das décadas de 1920, 1930 e 1940. Por ali desfilam a Segunda Guerra Mundial, as intervenções de Getúlio Vargas e ainda a mentalidade escravocrata que permeava as relações sociais. Exemplo máximo disso é o conto "Negrinha, em que o autor edifica, por meio de um narrador sarcástico, a crítica aos costumes de sua época. Aula de literatura é também aula de história, de sociologia, de geografia, de filosofia...É válido também que o professor seja pesquisador, que leia os títulos do ciclo do Picapau Amarelo e, se possível, conheça um pouco da fortuna crítica do autor. Livros e artigos rubricados por Leonardo Arroyo, Cassiano Nunes, Nelly Novaes Coelho, Regina Zilberman, João Luis Ceccantini e Marisa Lajolo, entre outros, podem oferecer ao educador um curioso panorama acerca das diversas facetas de Lobato (o escritor, o polemista, o crítico de arte etc) a ponto de enriquecer a prática educativa. 

Cilza Bignotto – Pais, professores, bibliotecários podem contextualizar a obra de diversas maneiras, dependendo da idade das crianças, dos conhecimentos que elas já têm, das circunstâncias de leitura. Antes da leitura, os adultos podem perguntar para jovens leitores se já conhecem as histórias do Sítio – muitos certamente conhecerão as personagens, embora ainda não tenham lido os livros. Conforme as crianças forem comentando o que sabem das histórias de Lobato, do período histórico em que transcorrem, do espaço onde se movimentam e até das polêmicas que as envolvem, fica mais fácil, para mediadores adultos, fazer a contextualização, de acordo com o repertório de cada criança.

Também é possível explicar como era o Brasil onde se passam as histórias do Sítio durante ou depois da leitura. As crianças podem ficar curiosas, por exemplo, ao perceber que no Sítio não existe televisão, computador, geladeira. Os costumes das personagens podem ser muito diferentes dos de alguns leitores de hoje. Pedrinho, por exemplo, costuma viajar sozinho a cavalo, prática que era comum no início do século XX entre meninos de certos grupos sociais. Conversar sobre costumes de uma outra época pode ser um bom modo de as crianças iniciarem um aprendizado longo e complexo, que fazemos durante toda a nossa vida, sobre os diferentes tempos e temporalidades da experiência humana. Os adultos mediadores de leitura podem agir como Dona Benta que, no livro D. Quixote das crianças, contextualiza a obra de Cervantes a partir de comentários e perguntas dos jovens leitores, além de passagens que ela considera merecedoras de debate.

Alguma indicação para se trabalhar com os desafios da linguagem apresentados na obra lobatiana?

Fernando Luiz – Voltamos às questões anteriores. Aula de literatura é também aula de história. Sugiro aqui a mediação do professor a todo momento. É válido levar os textos protagonizados por Emília, Pedrinho e Narizinho para o espaço escolar e sublinhar a riqueza da língua inscrita nesses textos e a variação linguística aqui instaurada. Iniciar crianças e jovens em tal universo mágico é também propiciar uma experiência com um repertório lexical diferente, de outro tempo, de outra época. Revela como a linguagem é viva, dinâmica, dialética e se transforma ao longo das décadas, dos séculos. Quando falo em mediação, refiro-me ao trabalho do professor em conhecer a obra, recorrer ao dicionário, discorrer sobre as formas lexicais instauradas, chegando, enfim, ao tipo de narrador livre e democrático edificado nas malhas do texto. Narrador este que não se ocupa em fechar-se em lições de ordem moral, mas apresentar ao leitor um grupo de personagens crianças altamente emancipadas, parceiras dos adultos em missões homéricas, ávidas por novos conhecimentos, novas aventuras, novas reinações.  

Cilza Bignotto – De fato, algumas palavras e expressões que encontramos nos textos de Lobato já não são comuns no dia a dia. No entanto, a presença delas não prejudica a leitura dos livros: a linguagem usada por Lobato continua acessível, divertida, clara. É uma linguagem extremamente inventiva, cheia de neologismos e metáforas deliciosos. Um exemplo é este trecho sobre os bichinhos presentes no baile oferecido pelo Príncipe Escamado, no Reino das Águas Claras:  “E canários cantando, e beija-flores beijando flores, e camarões camaronando, e caranguejos caranguejando, tudo que é pequenino e não morde, pequeninando e não mordendo”.

As diferentes personagens se expressam de diferentes maneiras – algo tecnicamente difícil de fazer, mas que, quando bem-feito, como é o caso, provoca efeitos encantadores. As personagens parecem, de fato, criaturas únicas, com vozes particularíssimas, todas distintas da voz do narrador.  

Várias novas edições apresentam glossários com explicações sobre palavras, expressões e referências que podem ser desconhecidas das crianças de hoje. Nas edições da Companhia das Letrinhas, as própria personagens explicam aos leitores o significado de trechos mais complicados. 

Qual a dica para trabalhar Lobato em diversas disciplinas?

Fernando Luiz – O Sítio de Dona Benta apresenta um caráter interdisciplinar e transdisciplinar. Fala-se de mitologia, de gramática, de matemática, de folclore e de outras questões pertinentes. É claro que Lobato foi um legítimo adepto do movimento escolanovista brasileiro. Tanto é que, durante a década de 1930, ele publicou inúmeros livros com forte apelo pedagógico, mas mantendo a ludicidade e o dinamismo. Há na literatura de Lobato, como em muitos textos da produção infantojuvenil contemporânea, forte abertura para o currículo escolar e múltiplas possibilidades pedagógicas para o educador. Contudo, no processo de escolarização da obra, é importante tomar certo cuidado para não transformar um objeto artístico, fonte de emoção e prazer estético, em pura lição escolar, alvo de absoluto utilitarismo. O bom senso será sempre crucial nos modos de abordagem textual. 

Como tratar as questões polêmicas?

Fernando Luiz – A proposta do Sítio do Picapau Amarelo é de não poupar o leitor de questões entendidas pelos adultos como avessas ou impróprias para o desenvolvimento infantil. E Lobato, nesse sentido, é implacável: fala de guerras, de morte, do tempo e de outras questões de natureza existencial. É oportuno que o educador esteja aberto para o debate que surgirá perante o tempero apimentado que comporta a escritura lobatiana. É igualmente relevante que o educador perceba como esse tópico constitui um artifício presente também na literatura contemporânea, com Lygia Bojunga, Ana Maria Machado e Ziraldo. Os impasses vivenciados na época de Lobato aproximam-se dos impasses vivenciados em nossa época. Por isso enfatizo a atualidade instaurada na literatura em questão. É, sem dúvida, um clássico porque atravessa o tempo e ainda tem o que dizer às gerações posteriores.  

Cilza Bignotto – Como todos os clássicos infantis, os livros de Monteiro Lobato carregam marcas do tempo em que foram escritos, do ambiente cultural e intelectual no qual o autor se movia. E como todos os livros para crianças que sobrevivem aos anos, os livros do autor são subversivos. Vamos tratar, primeiro, de como há sempre algum grau de subversão nas histórias de personagens que continuam circulando, de alguma forma, em livros, filmes e outros produtos para crianças. 

Pinóquio, na versão original de Carlo Collodi, é um boneco rebelde, desobediente, egoísta, que se envolve nas mais perigosas aventuras porque detesta seguir regras e adora diversão. Tom Sawyer, de Mark Twain, é um menino que rouba, mente, fuma, xinga e também se mete em todo tipo de aventura porque detesta as demandas do mundo adulto, como ir à escola e à igreja, e deseja apenas se divertir. Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol; O Mágico de Oz, de L. Frank Baum; Peter Pan, de J. M. Barrie, são todos livros que, ao longo do tempo, enfrentaram algum tipo de crítica, quando não de censura, por apresentarem passagens consideradas “inadequadas” para crianças. Geralmente, essas passagens são consideradas inadequadas por causa do mau comportamento dos protagonistas, do modo como adultos e instituições sociais são ridicularizados – ou seja, por causa de elementos subversivos das obras – ou porque apresentam ideias que eram comuns na época em que foram escritas, mas que foram condenadas posteriormente. 

Essas passagens costumam ser suprimidas ou amenizadas em adaptações. Assim, na versão de Pinóquio feita pela Disney, cenas tidas como violentas foram omitidas; a desobediência e o egoísmo do protagonista, que o levam a se meter em confusões, foram trocadas por ingenuidade e maus conselhos de falsos amigos; e até o cenário de miséria em que a história transcorre foi suavizado (a pobre aldeia italiana da versão original parece mais uma próspera cidade suíça). De modo semelhante, versões mais recentes de Tom Sawyer, e, principalmente, de Huckleberry Finn, de Mark Twain, sofreram modificações – palavras consideradas racistas, por exemplo, foram trocadas por outras menos ofensivas, o que continua sendo discutido em diferentes meios acadêmicos, editoriais, educacionais nos Estados Unidos. Alice é mais comportada e menos cética, em algumas adaptações; Peter Pan, em versões atuais, perdeu partes consideradas racistas e/ou misóginas. 

Crianças de diferentes épocas parecem preferir livros subversivos a aqueles que retratam seres perfeitamente respeitosos e respeitáveis. Talvez essa preferência se dê porque crianças vivem em um mundo onde as pessoas se ofendem, mentem, agem com violência. Pode ser que elas gostem de histórias protagonizadas por seres imperfeitos como elas, que sentem raiva, xingam, cometem erros. É possível, ainda, que elas se divirtam ao ver instituições levadas a sério pelos adultos, como a escola, a política, o exército, retratadas de modo ridículo. O sistema escolar vitoriano, por exemplo, é demolido em Alice no País das Maravilhas, por meio do humor. 

Adultos também costumam adorar personagens subversivas: Dom Quixote, de Cervantes, Romeu e Julieta, de Shakespeare, Sherlock Holmes, de Conan Doyle, Gabriela, de Jorge Amado, são todos protagonistas que desobedecem regras e desafiam os “bons costumes” das sociedades fictícias nas quais vivem. Faça o teste: pense em uma personagem que escapou das páginas do livro em que nasceu e se tornou uma entidade quase mitológica, conhecida mesmo por quem não leu sua história. Qualquer que seja a personagem lembrada, certamente ela será um modelo de subversão.

Parece que, no campo da literatura infantil, esses aspectos subversivos se tornam mais problemáticos, não?  

Cilza Bignotto – A presença de temas polêmicos na literatura infantil é mais debatida e complicada porque os livros são vistos também, ou principalmente, como instrumentos de educação. Assim, justamente aquilo que dá nervos e personalidade a determinadas personagens, aquilo que as tornam tão vivas a ponto de sobreviverem a seus criadores, aos anos, às mudanças de costumes, será fatalmente mal visto por adultos preocupados com a educação das crianças. Afinal, pais e professores querem que as crianças respeitem regras, obedeçam ordens, sejam boas cidadãs – exatamente o que as grandes personagens da literatura infantil não fazem, pelo menos em boa parte das histórias que protagonizam. 

As obras infantis de Monteiro Lobato já foram objeto de várias polêmicas ao longo de seus quase cem anos de história. Ultimamente, o grande debate sobre a saga do Sítio do Picapau Amarelo tem se concentrado em frases entendidas como racistas, proferidas ora pelo narrador, ora pela boneca Emília. Esse debate é bastante saudável, especialmente porque nos faz discutir o racismo no Brasil hoje e suas consequências terríveis. Caso não houvesse racismo no país, na dimensão em que há, talvez as pessoas estivessem debatendo outras passagens dos livros, como as ofensas dirigidas a Dona Benta, Rabicó ou a um besouro do Instituto Histórico, que apanha de outros insetos por ser um orador chato.

Na obra lobatiana, como surge a figura do Saci?

Cilza Bignotto – Penso que o Saci é o primeiro herói negro da literatura infantil brasileira. No livro O Saci, publicado pela primeira vez em 1921, e posteriormente revisado e aumentado, a narrativa parece ser sobre uma aventura de Pedrinho; no entanto, o grande herói é o negro Saci. Ele ensina Pedrinho não apenas a conhecer a mata e a realizar grandes feitos físicos, mas a filosofar: a pensar sobre sua condição humana, sobre males como a escravidão e a guerra, sobre bens como o estudo e o conhecimento. Algumas das mais bonitas lições dos livros de Lobato não são dadas por Dona Benta, mas pelo Saci. Há, ainda, nesse livro, a figura de Tio Barnabé, um ex-escravizado a quem Pedrinho recorre para obter conhecimento. 

Reitero que Lobato escolheu fazer um livro em que o Saci e a cultura popular são as grandes estrelas. O Saci de Lobato é uma figura tão elevada que, talvez, tenha substituído, aos poucos, a figura original das lendas populares. Nas tradições orais mais antigas, o saci é um ser maligno (a pele escura estaria associada à maldade), filho do diabo, que em alguns relatos até rouba crianças. O saci de Lobato é bondoso, íntegro, inteligente, engraçado… Acima de tudo, é um filósofo, qualidade que, até onde sei, nunca havia sido associada a uma figura negra em livros infantis. 

O mais adequado é propor que as leituras sejam feitas em grupo com mediação ou individualmente? Em sala de aula ou em casa?

Fernando Luiz – Vamos explorar todos os recursos presentes e possíveis. Variadas experiências com o texto de Lobato. É claro que, para os primeiros contatos, o professor pode propor atividades de leitura em sala de aula, atendo-se ao plano lexical, ao vocabulário presente. Mas sabemos que seria apenas o primeiro passo para preparar os alunos para o confronto direto com as histórias do sítio. Metodologias de leitura são bastante fartas hoje no mercado editorial brasileiro. As propostas de estratégias de leitura sugeridas por Ingedore Koch, Cyntia Girotto e Renata Junqueira de Souza, as etapas do letramento literário assinaladas por Rildo Cosson e os métodos de abordagem textual elencados por Maria da Glória Bordini e Vera Teixeira de Aguiar podem constituir alternativas metodológicas para um trabalho bastante profícuo em sala de aula (e também talvez fora dela). 

Vale tirar proveito das outras adaptações de Lobato, séries de TV, filmes, desenhos animados? Como?

Fernando Luiz – São releituras. Vejo como grandes “convites” para que o leitor conheça, aprecie e percorra os livros. O ano de 1977 trouxe um Sítio que povoou o imaginário popular durante décadas (principalmente para os maiores de quarenta anos!). O mês de outubro de 2001 presenteou as novas gerações retomando o encanto das terras de Dona Benta e recuperando bons momentos do texto literário. O desenho animado, lançado recentemente, pode ser definido como pequenas “crônicas” protagonizadas pela garotada do Picapau Amarelo (embora eu, particularmente, não aprecie muito tal adaptação). No geral, são entendidos como iniciativas ou meios para que o jovem leitor, mais tarde,  transite pelas páginas rubricadas por Lobato. No entanto, reitero: são releituras. Nada dispensa a leitura do próprio livro, a experiência estética vivenciada diante do estilo – rico em humor, metalinguagem e intertextualidade – edificado pelo autor paulista.   

Quais outras obras dialogam com Lobato e podem ser lidas em conjunto?

Fernando Luiz – A literatura contemporânea é opulenta em referências intertextuais às criações de Lobato. Se pensarmos, por exemplo, em A fada que tinha ideias, de Fernanda Lopes de Almeida, encontramos uma personagem projetada com traços ousados e imponentes que remetem à própria Emília. O mesmo acontece com Bia, de Mais-que-perfeita adolescente, em que o texto de Sylvia Orthoff parece valer-se de uma protagonista que igualmente atende ao perfil da astuciosa boneca de pano. Minhas memórias de Lobato, de Luciana Sandroni, ocupa-se em apresentar, em pleno diálogo com Memórias de Emília, a biografia de Monteiro Lobato construída por sua implacável protagonista (Emília), em uma prosa que instaura um jogo de verdades e mentiras. São textos envolventes que estabelecem lastros com a prosa lobatiana e que merecem o encontro com jovens leitores.

O que acham sobre as opções de ler a versão integral e a versão adaptada? Qual o melhor caminho?

Fernando Luiz – Ainda que as adaptações clamem pela atenção do leitor, inscrevendo-se algumas vezes como um material acessível no momento, nada substitui o texto integral, completo, em que as aventuras ganham relevo por meio de construções revestidas de comicidade, intertextualidade e beleza. Se o leitor ainda apresentar dificuldades em transitar pelos caminhos delineados nas narrativas mais longas (como Os Doze Trabalhos de Hércules, por exemplo), ele pode partir de narrativas menores concentradas em Reinações de Narizinho. Importa, na realidade, encorajar o leitor para que ele faça suas escolhas diante das múltiplas possibilidades agregadas à gigantesca série de livros que constitui a saga do Picapau Amarelo.  

Cilza Bignotto – Os professores contam, de saída, com um aspecto muito positivo, que é o fato de as personagens do Sítio serem conhecidas por praticamente todo mundo. As crianças podem conversar com familiares e amigos sobre elas, o que costuma ser muito bacana para todos, que se sentem compartilhando um patrimônio nacional. Poucos livros oferecem essa possibilidade. Por outro lado, nos últimos anos, a obra de Lobato tem sido bastante associada ao racismo, o que pode tornar o início da leitura mais difícil. Alguns adultos opinam sobre os livros sem tê-los lido, outros não querem que seus filhos leiam as obras. Cada professor, que conhece melhor do que ninguém sua turma, precisará decidir que estratégia usar para ler os livros de Lobato com seus alunos.

As edições adaptadas, que suprimiram ou suavizaram partes polêmicas, podem ser um bom começo e gerar menos conflitos. As edições que mantiveram o texto integral, como a da Companhia das Letrinhas, certamente causarão incômodos – alguns que nem conseguimos prever agora, e que dependerão de como diferentes crianças lerão os livros. Houve um grande cuidado, nessas edições, no sentido de oferecer aos jovens leitores contextualização histórica, em linguagem que eles entendam, e notas de rodapé explicativas sobre palavras mais difíceis ou passagens mais perturbadoras. 

O bonito de preservar o texto original, a meu ver, é que não apagamos parte da nossa história. Sim, pessoas foram (e são) escravizadas no Brasil; sim, mulheres sofriam (e sofrem) uma série de cerceamentos; sim, determinados grupos eram (e são) ridicularizados, como os de imigrantes árabes ou de ciganos. Não podemos nos esquecer das conquistas de negros, mulheres, imigrantes. Sugiro aos professores que, caso decidam conversar sobre temas dolorosos, como esses, tenham antes a certeza de que existe um ambiente acolhedor na sala de aula, que permitirá aos alunos expressarem suas dores, seus incômodos, suas leituras únicas como eles. Também é importante que os professores estimulem suas turmas a pensar novas maneiras de expressar ideias do texto original.

Os jovens podem aprender que é possível gostarmos de uma determinada obra de arte, embora não aprovemos alguns de seus aspectos. É o que acontece na vida real. Uma das razões de existirem tantas fan-fictions é justamente o fato de muita gente adorar alguns livros, filmes, seriados, mas não concordar com o desenvolvimento dado a uma personagem, ou as falas de outra, e assim por diante. É divertido reescrever cenas de um livro, criar outras, mudar finais… o próprio Lobato fazia muito isso. As crianças podem se divertir reescrevendo Lobato, e os adultos também.

Vai ser uma alegria enorme quando crianças e adultos negros escreverem a história de Tia Nastácia, por exemplo, desde sua infância, ou inventarem que os pais de Narizinho, sobre os quais nada se sabe, eram negros, ou que Emília é um objeto de Inteligência Artificial, uma espécie de robô que aprende a falar com humanos variados e reproduz seus preconceitos, os quais não entende bem… e aos poucos vai ganhando consciência… as possibilidades são ilimitadas. Muitas aventuras sensacionais com as personagens do Sítio ainda estão por vir.

 

 

 

 

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