Como introduzir as crianças no universo dos clássicos?

 

Foi na escola que o escritor Fernando Nuno teve o primeiro contato com o universo dos clássicos. Quando estava no fim do segundo ano, a professora o presenteou com uma adaptação de Robinson Crusoé, feita por Monteiro Lobato. "Duplamente clássico", ele analisa hoje. A partir daquele dia, apaixonou-se pela leitura das grandes obras da literatura e, com sua mesada, comprava livros adaptados que surgiam na vitrine da papelaria ao lado do colégio. Seus amigos faziam o mesmo, e as obras eram emprestadas entre a turma.

Mas como é a melhor forma de introduzir uma criança no universo tão amplo das obras clássicas? Na escola ou em casa? Com textos adaptados ou originais? Idealizador da Coleção Germinal, que publica recontos de obras como Os miseráveis, de Victor Hugo, e Guerra e Paz, de Liev Tolstói, o adaptador sugere que tais histórias também podem ser vistas no cinema ou no teatro. Ou então narradas pelo professor ao longo das aulas. Ele lembra que os clássicos não se limitam aos grandes autores do passado, mas também às fábulas e aos mitos, histórias tradicionais que há tempos encantam crianças, jovens e adultos.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

No livro Como e por que ler os clássicos universais desde cedo, a escritora Ana Maria Machado também indica alternativas. Dentre as possibilidades, cita adaptações, resumos, o uso da oralidade. Também sugere relacionar os elementos da cultura grega, por exemplo, com o nosso dia a dia, para que os esses mitos façam mais sentido às crianças de hoje. Podemos explicar a origem dos nomes dos planetas, dos dias da semana em inglês, de palavras como cronômetro ou caos...

Às vezes, apenas ler uma história com as crianças e conversar sobre a narrativa já é o suficiente para uma primeira aproximação com o enredo. “Não é necessário que essa primeira leitura seja um mergulho nos textos originais. Talvez seja até desejável que não o seja, dependendo da idade e da maturidade do leitor. E o que se deve propiciar é a oportunidade de um primeiro encontro. Na esperança de que possa ser sedutor, atraente, tentador. E que possa redundar na construção de uma lembrança (mesmo vaga) que fique por toda a vida”, explica Ana Maria Machado.

Outro exercício sugerido por Nuno é o de pensar a obra junto aos alunos. Afinal, o que o clássico diz que não está escrito nele? Essa é uma pergunta que pode gerar reflexões interessantíssimas, já que "um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer", como escrito em Por que ler os clássicos, livro de ensaios do italiano Ítalo Calvino. Aliás, é isso que distingue um clássico de um livro comum: a permanência, a capacidade de resistir ao tempo.

Talvez por essa sabedoria antiga que carregam tais histórias é que Nuno as classifique como "vitamina para o cérebro". Diz que quem lê os clássicos fica mais inteligente. Com a ressalva, é claro, de que não são apenas os clássicos que são capazes de tamanha façanha, mas também muitas das obras escritas no aqui e no agora. Confira abaixo um bate-papo com Nuno, que trabalha há dois anos no reconto de Fausto, clássico de Goethe.

 

Que cuidados você toma quando vai adaptar um clássico? Que mudanças são permitidas e o que deve permanecer?

Fernando Nuno – Como já li – em muitos casos, mais de uma vez – os clássicos que pretendo recontar, preparo-me para a adaptação relendo-o novamente, sempre na língua original. É uma forma de entrar o melhor possível no espírito (quer dizer a intenção) da obra. Existem dois tipos de adaptação: aquela em que são alterados trechos da história, personagens novos são criados e outros são suprimidos, mantendo no entanto os pontos principais da trama. William Shakespeare era mestre nesse tipo de reconto: Romeu e Julieta e várias outras histórias adotadas por ele nas peças já existiam antes, em outras versões. Shakespeare alterou genialmente as histórias originais, aprofundando as emoções e os sentimentos – em suma, a humanidade – enfocados nas obras. O cinema também faz muito isso de mudar a história: tanto pode dar em filmes ótimos como em trabalhos não tão interessantes. O outro tipo de adaptação é aquele a que tenho me dedicado: buscar captar a essência da obra, o que ela quer dizer, e transmitir na nossa língua, de modo bastante compreensível para leitores de quase todas as idades, o que esses livros essenciais têm a dizer. E eles, como já notam os mestres, estão sempre dizendo coisas novas e diferentes a cada leitura e a cada leitor.

 

Para você, o que uma adaptação pode proporcionar à criança?

Fernando Nuno – A meu ver, só há ganhos. Mesmo as adaptações mais simples, como as que li bem criança, sem saber que eram histórias clássicas, têm o poder de despertar a imaginação. A primeira adaptação de Viagens de Gulliver que li, por exemplo, tinha umas trinta páginas. Nos anos seguintes fui tomando contato com adaptações cada vez mais elaboradas dessa obra, até chegar à leitura do texto integral – do qual eu não teria entendido quase nada se o tivesse lido tão criança. Quando pós-adolescente, já sabendo bem inglês, a leitura do original inglês foi o que me transportou para mais próximo da intenção do autor de Gulliver, Jonathan Swift. Melhor que isso, só se eu vivesse na época dele, há mais de duzentos anos, e tivesse já então a cultura para conhecer os assuntos e lugares em que ele se baseava para dar asas à imaginação.

 

Você chegou a adaptar diversos clássicos, de Shakespeare a Júlio Verne. Qual retorno que tem das adaptações? Crianças e jovens passaram a ler clássicos depois de ler esses livros?

Fernando Nuno – Até agora só tive retornos positivos, felizmente. Procuro escrever um texto muito autoconsciente, o mais acessível e informal possível sem romper com a gramática. Não quero que ninguém erre uma questão numa prova porque se baseou no que escrevi. E busco ser muito fiel ao sentido do original, fazendo um recorte que, sendo só meu, não deixe de transmitir o que há de melhor na obra. Se você ler, sem se preparar, um clássico como ele foi escrito há séculos, poderá deixar escapar muito do tesouro que ele tem a oferecer. Sou um pequeno elo na grande corrente que ao longo dos séculos vai mantendo vivos os clássicos. Por isso, levo muito tempo (às vezes três anos, ou mais) para fazer um reconto. A resposta tem sido gratificante: todas as minhas adaptações (até agora são treze) receberam o selo Altamente Recomendável da FNLIJ e foram adotadas nos maiores programas de leitura dos governos. Mas o melhor tem sido o contato com os alunos das escolas que adotam esses livros.

 

E como você adentrou nesse universo dos clássicos quando criança?

Fernando Nuno – Não lembro exatamente se foi com aquela miniversão de Gulliver, mas é provável que meu primeiro clássico tenha sido a adaptação que Monteiro Lobato fez de Robinson Crusoé, que a professora do segundo ano me deu no fim do ano – duplamente clássico, por sinal, pois nada mais clássico na literatura para crianças no Brasil (e em muitos países) que Monteiro Lobato. A partir daí não parei. Ao lado da escola havia uma papelaria que punha na vitrine uma coleção de clássicos adaptados. Por minha iniciativa, fui comprando um a um com a mesada. Vários colegas de escola começaram a fazer o mesmo, e emprestávamos os livros uns aos outros.

 

Que dicas daria a quem está lendo um clássico? E quais dicas daria aos professores que trabalham com essas obras em sala de aula?

Fernando Nuno – É importante se informar a respeito. Os alunos interessados podem perguntar aos professores, pesquisar na biblioteca. Há várias edições de clássicos adaptados. Se você achar fácil demais a que está lendo, pergunte se não há outra mais elaborada. Se conseguir ler a versão integral, melhor ainda. Costumo dizer que mesmo a tradução integral de um clássico é uma forma de adaptação, e a prova disso é que não há duas traduções idênticas da mesma obra; cada tradutor escolheu o seu vocabulário, a sua forma de pontuar e de montar as frases. No reconto, ou adaptação, as diferenças são ainda maiores. Cada adaptador faz o seu recorte, tem a sua própria compreensão, as suas preferências e referências, o importante é que se preserve o espírito do original, como disse. Um exercício que pensei e proponho sempre a professores e alunos é: descobrir o que o clássico diz que não está escrito nele. As descobertas são incríveis, a imaginação se desenvolve. Já se disse que o clássico é o livro que não acaba nunca de dizer o que está nele, repito: a cada leitura ele diz coisas novas. Lembremos que quando os clássicos foram escritos também surgiram muitos outros livros, dos quais ninguém mais fala hoje. É isso que distingue esse tipo de obra: a permanência, a capacidade de resistir ao tempo. Por isso também digo que os clássicos são vitamina para o cérebro, para a inteligência (quem lê os clássicos fica mais inteligente). Mas atenção: não só os clássicos fazem isso; existem muitos livros sendo escritos hoje que também vitaminam a inteligência. O clássico também pode ser visto, no cinema ou no teatro, por exemplo. Mas além disso pode ser também ouvido: o professor pode contar um clássico ao longo de várias aulas (ou contar a essência dele em uma só aula quando possível), comentando seus vários aspectos e promovendo debates sobre eles. Lembre-se que clássicos da escrita não são só as grandes obras de grandes autores do passado; as histórias tradicionais também são clássicas. Minha professora do primeiro ano era uma grande contadora de fábulas de todos os tipos. Os mitos, os contos de fadas também têm esse poder de sintetizar grandes sentimentos e atravessar as eras – encantando, seduzindo, horrorizando, ensinando e divertindo gerações. Em resumo: quem lê os clássicos sempre sai beneficiado.

 

Alguns professores têm receio de trabalhar com adaptações. Preferem trabalhar diretamente com o texto original, mesmo que ele seja menos acessível à criança. Poderia falar um pouco sobre essa situação?

Fernando Nuno – Respeito muito esse receio, e para tratar dessa questão me baseio em minha própria história pessoal. Como editor, coordenei várias coleções de clássicos. Também fui alguém que rejeitava inteiramente as adaptações, me recusava a publicar clássicos adaptados. Torcia o nariz até para as traduções, porque, como disse, se não há duas traduções idênticas, cada uma delas já é, em si, uma forma de adaptação. Só lia clássicos nas línguas originais. Comprei até um livro de russo para tentar aprender sozinho, já que não tinha tempo de fazer o curso. Não aprendi russo, tive de me contentar com as traduções – e muitas delas são excelentes! Pelo menos, quando fui à Rússia, pude passear sozinho porque lia os letreiros em alfabeto cirílico e me localizava, rs. Bom, como disse, eu rejeitava as adaptações. Até que nasceram meus filhos. Aí me lembrei de como havia conhecido e passado a admirar os clássicos. Na infância, os resuminhos, depois as adaptações de complexidade mais crescente até chegar às versões completas, ou indo direto para elas com o tempo. Foi uma escada esplêndida para mim: aquele primeiro degrau, o das adaptações, na infância, foi a ignição desse fogo-amor pelas principais obras da literatura. Tudo somado, acho muito bom quando professores conseguem trabalhar com versões integrais (desde que a tradução seja confiável, claro, mas esse critério também se aplica às adaptações). Nesse caso, sugiro que se comece por um clássico de leitura menos difícil, para a criança, o jovem, não achar o livro chato e fugir dele. Por outro lado, para quem deseja conhecer em pouco tempo o maior número de clássicos possível, vale a pena ler primeiro vários deles adaptados, para depois escolher aqueles com que você se identifica mais ou que têm mais a lhe dizer e lê-los na íntegra. É como faz quem conhece o básico de várias cidades numa viagem e depois escolhe as que pretende conhecer mais a fundo para viagens posteriores mais específicas. Mas mesmo quando se pretende conhecer o básico, é preciso que esse básico seja o essencial. Então, seguindo na analogia, a viagem rápida ao Rio de Janeiro, por exemplo, deve contemplar o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Pedra da Gávea, a Lagoa. Depois, se gostou da cidade e quer conhecê-la mais a fundo, irá a Paquetá, a Guaratiba, à ilha Fiscal, ao Museu Histórico Nacional etc. O mesmo para as adaptações: a boa adaptação deve conter o equivalente ao Pão de Açúcar, ao Corcovado etc., para despertar o interesse pela obra completa. Paralelamente, as adaptações são úteis para quem tem pouco tempo e deseja conhecer pelo menos o essencial dos clássicos. A cada ano juntamos na estante mais livros que queremos ler, porque muitos livros novos são publicados. Como muitos dos clássicos têm mais de quinhentas páginas, pessoas com pouco tempo desistem. Uma boa tática é ler a adaptação, desde que bem-feita, consciente, e depois, se surgir a paixão pela obra, reservar tempo para usufruí-la na íntegra. Nos casos mais dramáticos de escassez de tempo, vale ver a adaptação cinematográfica, que, embora quase nunca seja fiel ao livro, serve muitas vezes de introdução a ele.

 

Você também é responsável pela coleção Germinal. Poderia falar um pouco sobre como está sendo esse trabalho?

Fernando Nuno – Para a Cia. Das Letras, idealizei no ano de 2000, a pedido da Lilia Schwarcz, a Coleção Germinal, que publica recontos de clássicos de conteúdo histórico e social mais forte e denso. Nessa coleção, Silvana Salerno, Diego Rodrigues e eu recontamos obras fortes como Guerra e paz, de Liev Tolstói, O adolescente, de Fiódor Dostoiévski, Os miseráveis, de Victor Hugo, A rainha Margot, de Alexandre Dumas, e a obra que dá título à série, Germinal, de Émile Zola. Também fazemos grandes contextualizações que ajudam a entender melhor o clássico lido. É um trabalho muito consciente e que toma muito tempo. Em geral levamos três anos (ou até mais) para chegar à forma de recontar cada clássico. Para você ter ideia, no momento estou trabalhando em Fausto (a história do homem que vendeu a alma ao diabo), de Wolfgang von Goethe; comecei a lidar com esse incrível texto há mais de dois anos e ainda tenho certamente um ano pela frente. Recentemente, a Coleção Germinal passou do selo Cia Das Letras para a Seguinte, também da Companhia.