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Como falar sobre morte com as crianças - Blog da Letrinhas

Como falar sobre morte com as crianças

Se até para os adultos, que sabem que a morte - a sua própria e dos seus - é certa, não há espaço para elaborar o luto, imagine para as crianças. Entender o que é a morte não é fácil. Lidar com ela, menos ainda. Mas na hora do adeus, a literatura pode mostrar formas mais poéticas de enxergar o luto e dar um novo significado à partida. "Pode chorar, coração, mas fique inteiro" é uma dessas histórias sensíveis sobre essa dor tão grande que é lidar com a perda de alguém querido.

(Ilustração do livro "Pode chorar coração, mas fique inteiro")

No livro, quatro crianças que experienciam a despedida iminente da avó conversam com a própria morte, que veio buscá-la. Dona morte é uma figura encapuzada, sim. Mas nada má. E a conversa com ela traz à tona os ciclos da vida, os opostos que se complementam e a certeza de que a tristeza pode doer fundo, mas não despedaça. 

 

Como lidar com as perguntas  

Para as crianças, além de ser difícil compreender conceitualmente o que é a morte em si (e o indimensionável “nunca mais” que a acompanha), a experiência do luto muitas vezes se junta à tristeza dos próprios pais, o que pode aumentar a carga de sofrimento para ambos os lados. “Até os 5 ou 6 anos, a dor da criança precisa ser verbalizada. Ela pergunta para onde a pessoa foi, se vai voltar…E o adulto tem que ficar reforçando a todo momento as coisas que ele próprio quer esquecer”, explica a psicóloga Nanda Pontual Perim.

Para ela, é importante ter um olhar sensível para as circunstâncias próprias de cada luto: se  a pessoa que morreu já estava doente (e tanto a criança quanto a família tiveram mais tempo para se preparar) ou se foi uma morte súbita, quanto a criança efetivamente convivia com aquela pessoa e como era a relação entre elas. Se era alguém com quem a criança convivia pouco, um avô ou um tio que mora longe, pode ser mais difícil de entender que a pessoa realmente não vai mais voltar, porque a ausência dela não será percebida no dia a dia. Se for alguém mais próximo e de convívio intenso, a ausência tende a ser bem mais sentida.

 

Criança precisa se despedir?

(Ilustração do livro "Pode chorar coração, mas fique inteiro")

Isso quer dizer que o melhor é levar a criança ao velório? Não. Apenas significa que é preciso permitir que o pequeno entenda que a pessoa não vai voltar e se despeça à sua maneira. Desocupar o armário da avó que faleceu, envolvendo a criança na arrumação das roupas e objetos pessoais, pode ser um processo muito mais significativo do que ver o caixão, por exemplo.

“Eu acredito que a gente às vezes tenta proteger demais as crianças. Minha família teve muitas mortes precoces - meus avós paternos morreram quando meus pais eram crianças e eles não participaram dos velórios. Tenho muita preocupação de deixar a criança alheia à morte”, explica Nanda.

O mais importante é abrir espaço para falar sobre a morte e tudo o que ela desperta: tristeza, saudade, arrependimento. Não dá para evitar que as crianças também sintam tudo isso, portanto, não precisa se preocupar em segurar o choro ou fazer parecer que está tudo bem. Mostre ao seu filho que você está triste, explique que é porque uma pessoa querida morreu.

“O limite é tênue: não dá para despejar um balde de dor na criança, mas também não dá para poupá-la de tudo. Protegê-la demais da dor pode tirar dela a possibilidade de elaboração do luto”. E aí é que está o problema. O luto tem cinco fases, que precisam ser vividas plenamente, senão o risco (inclusive para as crianças) é ficar estacionado em uma delas.

 

As cinco fases do luto

(Ilustração do livro "Pode chorar coração, mas fique inteiro")

  • Negação - não querer acreditar que é verdade, esperar que seja só um engano ou um sonho ruim…
  • Raiva - se revoltar com o acontecido, achar que foi uma injustiça, se revoltar com Deus.
  • Barganha - tentar permutar com a vida, para não aceitar que aquilo aconteceu, por exemplo: “Se isso foi só um sonho, eu nunca mais como chocolate para ter meu cachorrinho de volta”. Nesse estágio, ainda acreditamos que a pessoa pode voltar.
  • Depressão - é necessário ter um tempo de tristeza e reclusão para a elaboração da aceitação. A depressão é como um lugar que cura.
  • Aceitação - quando ficamos em paz. Um sinal de que a criança chegou a esse estágio é quando ela começa a se referir à pessoa que morreu no passado e entender que ela não vai mais voltar.

 

Como contar para os pequenos

Não há um jeito “certo” de explicar a morte para as crianças nem de conduzir o luto: é preciso que cada pai procure aquilo que vai deixá-lo de coração leve. Não há nada de errado em usar metáforas, por exemplo dizer que a pessoa “foi para o céu” ou “virou um anjo”, se isso fizer sentido dentro da sua cultura familiar. “Se a família usa a fantasia para lidar com o Natal, a Páscoa.. por que não recorrer a ela para falar também sobre a morte?”, argumenta a psicóloga. 

Cada morte é uma, cada relação é única e cada família tem suas próprias tradições. O importante é seguir o que diz o coração e deixá-lo chorar. Inclusive na frente da criança. Uma hora ele há de ficar inteiro outra vez.

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