Como falar de política em sala de aula?

 

Será mesmo que jovem não quer saber de política? Segundo a pesquisa Sonho Brasileiro da Política, de 2014, 65% dos jovens gostariam de falar do tema em sala de aula. O resultado foi suficiente para que o laboratório de cultura digital LabHacker, em parceria com a escola de jornalismo independente Énois, criasse um jogo para as escolas.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Assim surgiu o Jogo da Política, iniciativa aberta e disponível de forma integral e gratuita na internet. Ele é dividido em três metodologias, cada uma para ser jogada no período de uma tarde, remetendo a uma esfera de poder (Legislativo, Executivo e Judiciário). “A ideia não é esgotar o tema política, até porque isso é impossível. É só começar a entender como o nosso sistema está organizado, algo que deixou de fazer parte do currículo escolar com o fim da ditadura”, explica educadora Denise Curi, que foi convidada para realizar a revisão pedagógica do jogo e, desde então, não parou de trabalhar com o projeto. Hoje, coordena as parcerias com escolas públicas e privadas e promove diversas ações para que professores apliquem essa iniciativa em sala de aula.

Para facilitar o seu uso nas escolas, o jogo foi desenvolvido para que esteja de acordo com eixos cognitivos requisitados pelo Enem e dialoga com os Quatro Pilares da Educação para o Século XXI propostos pela Unesco. Uma sugestão da educadora é de que o Jogo da Política, mais longo e aprofundado, seja trabalhado com atividades mais curtas, uma espécie de “aquecimento” aos estudantes, como as do Fast Food da Política, idealizado na época das manifestações pró e contra o Impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Foi nesse período que Julia Fernandes de Carvalho se perguntou se as pessoas realmente sabiam as consequências de um possível Impeachment. Resolveu criar jogos rápidos inspirados em propostas já conhecidas largamente, abordando um conteúdo político. “São adaptações de jogos comuns que já existem. É quase intuitivo, a ideia é que possamos focar no conteúdo, sem muita dor de cabeça para entender um jogo”, explica Julia, que adaptou jogos como Cara a Cara, forca e Jenga e oferece em fevereiro, junto à sua organização, o Curso de criação de jogos políticos. Os temas de seus jogos abordam temas como o funcionamento institucional do sistema político brasileiro e questões de representatividade e feminismo, todos disponíveis para download gratuito.

Outro jogo totalmente gratuito para qualquer internauta é o Cidade em Jogo, criado no ano passado pela Fundação Brava. Para jogar, é necessário apenas um computador e uma rede de internet. Feito o login, o professor recebe uma cartilha com dicas de como aproveitar ao máximo a aplicação do jogo em sala de aula, trabalhando os temas que aparecerão no decorrer da partida para provocar debates entre os alunos.

Quando foi aplicado em sala de aula, alunos de escolas públicas e privadas puderam ser prefeitos por um dia. Tiveram de escolher suas prioridades entre pastas como educação, saúde e meio ambiente, realizar decisões e entender o que faz um político de forma pragmática, um dos valores defendidos pela Fundação Brava.

Os três jogos citados não tiveram dificuldades em entrar nas escolas. “Os professores abraçaram a ideia, eles têm esse desejo de inovar a forma como abordam alguns conteúdos na sala de aula. Eles querem ser cada vez mais criativos e os alunos adoram, o jogo é interativo, eles aprendem muito”, conta Henrique Krigner, coordenador do Cidade em Jogo. “É óbvio que, quando falamos de política pública, sempre haverá um aspecto minimamente ideológico, mas o aluno, quando está sentado na cadeira do prefeito, tem que escolher entre construir uma escola ou pavimentar as ruas, por exemplo. O lado ideológico fica muito enfraquecido, dando vazão a uma perspectiva muito mais técnica.”

Ele ainda dá a dica: os jogos fazem tanto sucesso porque são práticos e garantem interatividade e protagonismo dos alunos. A partir daí, é interessante que o educador “puxe a faísca do debate”, aproveitando os temas que surgirão ao longo do jogo. Denise Curi, do Jogo da Política, acrescenta que o professor não precisa ser especialista, já que a política diz respeito a todos nós. O professor pode aprender junto com o estudante, e ela recomenda sites como o Politize para que possa preparar melhor a sua aula.

Julia de Carvalho, do Fast Food da Política, ainda sugere que o tema seja trabalhado junto ao dia a dia das pessoas, com analogias de situações da casa, da escola... “Parece que a política está sendo sempre feita por especialistas, que ela não está na gente. Isso não é verdade. Quando a gente se conecta ao tema, descobre que todo mundo tem poder.”

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