Como criar uma criança leitora?

 

A leitura é uma experiência enriquecedora. As tais “viagens literárias” nos levam a lugares que nunca sonharíamos ir, pegando muitos atalhos imaginários, reais e até em nós mesmos. Mas nem sempre é fácil explicar isso para as crianças e mostrá-las a beleza do ato de ler. Como, então, formar meninas e meninos leitores, que se tornarão adultos com senso crítico apurado e imaginação fértil?

Para entender melhor como introduzir as crianças no mundo dos livros, levamos algumas questões a duas especialistas, Susana Ventura e Stela Maris Fazio Battaglia, ambas com anos de dedicação à literatura infantil. Elas apontaram aspectos importantes sobre hábitos de leitura.

 

 

Um dos pontos abordados foi o local mais apropriado para a leitura. As duas pesquisadoras concordam que o ambiente deve ser confortável, mas não necessariamente fixo. “A grande viagem da leitura é realmente poder ser feita em quase qualquer circunstância. Quem, dentre nós, já não se isolou completamente num grande saguão de rodoviária, num ônibus em movimento, num parque, simplesmente por estar mergulhado num bom livro?”, indaga Susana, pesquisadora da literatura em língua portuguesa.

Mesmo assim, algumas dicas podem ser valiosas para estimular a leitura em casa ou na escola. É importante escolher “um local iluminado, ventilado, com livros variados em tamanhos, histórias, escolhidos a dedo para a criança aproveitar a leitura”, sugere Stela. “Um tapete gostoso e bonito pode chamar para um momento em que se deita de costas no chão e se lê ou olha o livro como se observa um céu estrelado”, completa a especialista, há tempos resenhista de livros infantis.

Sobre horários específicos de leitura, vale a mesma lógica. Não há uma regra e depende do cotidiano para cada família. Antes de dormir é um bom horário, mas o ideal é que a leitura aconteça quando a família está reunida, o que varia de acordo com os hábitos de cada casa.

“Mais importante do que definir horários é criar a constância do ato da leitura, a partir da importância que ela assume para toda a família. Em uma casa em que a leitura é prática cotidiana, haverá situações de leitura individual e partilhada, em vários momentos, dentro das possibilidades que se apresentarem”, explica Stela. O momento tem de ser prazeroso. “O melhor, mesmo, é ler com garantia da liberdade do momento de ler, sem imposição de muitas regras”, completa.

Mais uma vez, a participação dos adultos é fundamental. “Não há como fazer propaganda interna de algo que não faz parte realmente da vida dos adultos, porque criança não é nada boba. Se você realmente deseja uma família leitora, cuide de você como leitora primeiro. Investigue você, vincule os demais adultos e aí encontrar modos de construir uma família leitora fica mais fácil”, opina Susana, que já foi consultora do Programa Mais Cultura do MinC, trabalhando com a formação de bibliotecas.

Se já falamos do onde e do quando, podemos partir para o como. A principal orientação é de que os primeiros contatos com as histórias sejam pela oralidade (as histórias de boca!), antes mesmo da alfabetização da criança. Daí surge o triângulo amoroso entre a criança, o adulto e o livro, de forma natural. “Nas memórias de infância de adultos, encontramos como marcas indeléveis os momentos de afeto vividos em torno da leitura. Às vezes, a história não é lembrada, mas o momento fica inesquecível!”, lembra Stela.

E o ideal é que esse hábito prossiga, mesmo depois que a criança já seja capaz de ler sozinha, mesmo depois da vida adulta. “Essa prática precisa ser retomada, não como método para a criança aprender uma forma correta de ler, mas como dedicação de um tempo exclusivo do adulto para a criança, compartilhamento do momento de leitura e possibilidade de posterior trocas de opiniões e de interpretações do que foi lido”, defende Stela. Susana complementa: “Quase todos os adultos muito leitores que conheço relatam como foi importante ter adultos lendo para eles”.

No caso da criança já leitora, uma experiência interessante pode surgir desse hábito: “Ela também poderá exercer o papel de ler em voz alta para outros leitores, vencendo situações de timidez e sentindo-se importante por oferecer sua leitura, como um presente, da mesma forma como o recebeu de alguém”, sugere Stela. Nesse sentido, é indiferente se a história é lida a partir de um livro, tablet ou e-reader. “Você gostou muito de um livro de poemas que foi feito como livro aplicativo? Ótimo. Só tenha cuidado com o tempo de exposição de crianças pequenas a dispositivos eletrônicos”, diz Susana.

A preferência é pelo livro de papel, especialmente para os bebês. “Na sua materialidade, ele atende à necessidade de pegar, sentir e até provar dos pequenos”, explica Stela, que ainda defende outras características proporcionadas pelo material impresso, como uma maior concentração, qualidade a ser desenvolvida principalmente nos leitores mais novos.

E em meio a tantas possibilidades, o que ler? O mundo editorial está cercado de opções: gêneros, temas, abordagens, estilos. Melhor um livro ruim que livro nenhum? A ideia de um livro sem qualidades literárias não deve ser descartada, mas sempre vista como uma ponte. “Um bom mediador pode fazer um trabalho significativo com um livro de má qualidade e um mediador sem preparo pode desperdiçar as possibilidades de leitura de uma obra com boa qualidade”, defende Stela.

Susana segue essa linha e pensamento: “É importante para o leitor adulto, crítico, ter repertório amplo, o que vai possibilitar a ele realizar a ponte entre o interesse demonstrado pelo jovem leitor e livros que considere importantes. A criança gostou de um livro sobre game? Ótimo, leia e descubra o que você também pode mostrar a ela”.

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Todos os cuidados tomados, mas o que fazer se a criança ainda não demonstra interesse pela leitura? “Em primeiro lugar, é importante resgatar as experiências e concepções dessa criança  sobre o ato de ler”, diz Stela. Em que momento podemos dizer que a criança não se interessa por livros? Ela teve oportunidades de experimentar uma diversidade de leituras? Teve mediações favoráveis? É fundamental, segundo Susana, “descobrir com ela o que pode agradar. E entender que ela pode encontrar-se como leitora mais tarde. Estar por perto, isso é preciso”.

Por fim, Stela e Susana indicam cinco dicas finais de como formar um leitor. Não são “fórmulas mágicas”, mas podem orientar pais que estão nessa jornada. Confira!

Stela Maris Fazio Battaglia

>> Entender que formar um leitor faz parte da tarefa educativa, sendo ação contínua, na qual os pais creditam importância;

>> Compartilhar leituras (dos mais variados tipos) com os filhos – lendo em voz alta, trocando impressões sobre os mesmos livros, em atos de afeto (e não de obrigação);

>> Frequentar livrarias, centros culturais, bibliotecas, museus, garimpando novidades, revistas e livros com temáticas diversas – literatura (narrativas, poemas, biografias, mitos, quadrinhos), informativos, arte etc.;

>> Compreender que, se eles (os pais) não são leitores, os filhos podem ser um enorme incentivo para que todos descubram, juntos, o que é “essa viagem maravilhosa” de que tantos falam;

>> Permitir que o livro “viva” dentro de casa. Embora eles devam ser acomodados em locais apropriados, podem circular pelos quartos, beiradas de camas, sala, cozinha, banheiros, por serem “objetos de estimação” da família, sempre abertos e lidos, num convívio salutar.

Susana Ventura

>> Revisite a sua história como leitora. Entenda o seu próprio percurso: do que você gostou mais quando criança, o que aconteceu com você, do que você realmente gosta?;

>> Coloque livros na sua vida. Descubra e visite as bibliotecas que existem no seu bairro, no caminho para o trabalho, na escola das crianças. Há livrarias perto de você? Seus amigos são leitores? O que existe em termos de livros digitais?;

>> Ofereça parlendas, poemas, histórias às crianças à sua volta – e esteja preparado para viver momentos bem desafiadores;

>> Tente ampliar o tempo para leitura de sua família. Sim, dá para desligar equipamentos outros e ficar na companhia de livros;

>> Experimente: frequentar um clube de leitura, ir a uma biblioteca, emprestar e tomar emprestados livros com amigos, bisbilhotar as bancas de jornais em busca de livros, visitar as lojas e bancas de livros usados de sua região, acompanhar exposições de ilustrações de livros para crianças e jovens, ouvir escritores, ilustradores, designers de livros, editores falarem sobre o que fazem.

 

 

 

 

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