Como criar crianças mais felizes?

 

O lugar mais feliz do mundo é também terra natal da psicoterapeuta dinamarquesa Iben Dissing Sandahl. Isso segundo um estudo feito anualmente pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), que, desde 1973, configura o país nórdico no topo do ranking de felicidade. Intrigada, Iben decidiu pesquisar a fundo a sua cultura para entender as razões de tal fenômeno.

Como resultado dessa investigação, nasceu o livro Crianças dinamarquesas – O que as pessoas mais felizes do mundo sabem sobre criar filhos confiantes e capazes (Fontanar), escrito em parceria com a americana Jessica Joelle Alexander. Iben, que desembarca no país no fim do mês, participará de um bate-papo com a educadora parental Janie Paula e a mãe e comunicadora Flávia Rubim sobre a obra na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, no dia 20/11, às 15h.

 

 

O livro é um guia sobre a filosofia de vida do povo dinamarquês, seus valores, costumes e jeitos de ver o mundo. A autora conta que a ideia não é dizer aos pais como educarem seus filhos, mas proporcionar a aproximação com essa cultura que parece ter descoberto o caminho para a felicidade. “Se esse livro ajudar pais e não pais a verem coisas de maneira diferente, ele já é um sucesso”, afirma Iben.

Seis máximas compõem a coluna vertebral da teoria de Iben e Jessica; são as iniciais que formam a palavra "filhos":

F – farra

I – integridade

L – linguagem

H – humanidade

O – opressão zero

S – socialização

Em F (farra), as autoras explicam a importância do livre brincar na infância. O I (integridade) destaca que a honestidade e a franqueza elevam a autoestima dos filhos, levando o elogio a uma mentalidade evolutiva e tornando-os mais resilientes. Já o L (linguagem) aborda a importância da comunicação e do diálogo na formação dos pequenos. H (humanidade) trata do ensino da empatia. O (opressão zero) defende que filhos crescidos em um ambiente democrático e sem disputas de poder são mais confiantes e felizes. Por fim, S (socialização) fala da criação de uma rede relacionamentos mais sólida, o que impactará na vida adulta.

Confira abaixo um bate-papo com a autora.

 

Como foi o processo de pesquisa do livro? Como você chegou nesses seis capítulos?

Iben Dissing Sandahl – Foi empolgante e eu estava ansiosa para mergulhar mais fundo nas raízes da minha herança familiar. Tudo vem da minha experiência individual, e tentei encontrar estatísticas e ciência por trás disso. Foi um processo muito interessante e, aos poucos, o acrônimo (os seis capítulos, a partir da palavra “filhos”) foi sendo materializado. Está aí todo o fenômeno cultural e histórico dinamarquês, a base para uma infância feliz.

Alguns pontos que você aborda são sobre deixar as crianças brincarem livremente e correrem riscos. É uma coisa que se costuma evitar nos dias de hoje no Brasil, sabe?

Iben Dissing Sandahl – Em uma vida moderna e muitas vezes agitada como a que vivemos hoje, muitos percebem o ambiente natural como perigoso para os filhos. Há muito medo na vida das crianças de hoje – todos os dias somos informados sobre terrorismo, refugiados, tiroteios etc., o que faz muitos pais protegerem seus filhos de todas as coisas ruins que acontecem fora de casa. Dos anos 80 até os anos 2000, a quantidade de horas que as crianças passam em brincadeiras livres, desestruturadas e espontâneas caiu a oito horas por semana. Na Dinamarca, recomendamos que elas brinquem e se movimentem pelo menos 60 minutos por dia. Quando são ativas, elas se desenvolvem melhor e aprendem mais facilmente.

Você compara muito as culturas americana e dinamarquesa. E os brasileiros? O que você sabe sobre a educação brasileira e quais são as diferenças em relação à da Dinamarca?

Iben Dissing Sandahl – Não conheço muito, mas recentemente um grupo de oito brasileiras (diretoras de escolas, psicólogas, advogadas, professoras etc.) vieram me ouvir falar sobre como estabelecer limites, ansiedade e a importância da conexão. Elas ficaram todas muito interessadas ao ouvir sobre como poderiam adotar tudo isso com os seus alunos, com a sua escola e com a sua família. Isso me diz sobre uma necessidade de mudança, uma esperança por uma vida melhor para as crianças. Acho que todos esperamos por isso.

O quanto você acha que as pessoas podem mudar o que já aprenderam para adaptar-se aos valores dinamarqueses?

Iben Dissing Sandahl – Vejo o livro mais como uma filosofia. Muitos dos meus leitores, inclusive aqueles de lugares onde não há o sistema dinamarquês, já veem as diferenças em seus filhos [ao aplicarem os ensinamentos da obra]. Então eu acredito que é uma filosofia que faz as crianças felizes. Se esse livro ajudar pais e não pais a ver coisas de maneira diferente, ele já é um sucesso. E acho que nós todos podemos mudar, se realmente desejarmos.

O que é o hygge, abordado no capítulo sobre socialização? Poderia explicar para nós, brasileiros, como funciona e o que podemos aprender com ele?

Iben Dissing Sandahl – Se você realmente hygger, você não finge de nenhuma forma. Você não se mostra como um "outro". O elemento educacional implícito do hygge é "nós encontramos conforto entre si", nós nos sentimos conectados, salvos e seguros. Quando nos sentimos seguros, fica mais fácil de lidar com as demandas externas e expectativas que a vida cotidiana oferece o tempo todo e nós sabemos que não estamos sozinhos nisso. Quando temos momentos hygge com nossos familiares, todos nos sentimos estimulados e reconhecidos, e isso é uma coisa da qual as crianças sempre se beneficiam. [O hygge ] promove a empatia e a paz interior, fornece uma melhor base para a criança se manter quando se tornar um adolescente, porque você não vai precisar da atenção dos outros.

Você nos trouxe diversos aspectos positivos da cultura e da educação dinamarquesa. Mas e os pontos negativos? Tem algo que você observou e de que não gostou?

Iben Dissing Sandahl – Claro, a Dinamarca não é uma utopia, mas teria sido um livro totalmente diferente se eu focasse nos nossos problemas. Mas também temos as nossas questões para lidar – assim como todo país. Acho que as crianças têm opções demais hoje. Estamos estressados tentando fazer com que nossos filhos façam um monte de coisas, e eles ficam irritados se não achamos um equilíbrio.

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