Como a infância é reinventada na poesia?

 

“Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar a língua.” O verso de Manoel de Barros trata de um tema caro à poesia: o período inaugural da vida. A infância é assunto recorrente dos poetas, aqueles que exploram os limites da língua, exatamente porque as crianças “ainda não estão submetidas aos códigos linguísticos que nos inserem na sociedade e aprisionam nossa imaginação”.

É o que defende a pesquisadora Márcia Cristina Silva, autora do livro Retratos da infância na poesia brasileira, recentemente lançado pela editora Unicamp. “A infância é um marco na vida de todo ser humano e isso acaba sendo retratado na literatura também. É nesse período que construímos nossas primeiras impressões do mundo, dos outros e de nós mesmos. Por isso, a infância é um tema tão abordado, porque depois de adultos, de um modo, ou de outro, todos carregamos aqueles primeiros traços que nos marcam por toda a vida”, diz.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Como a infância foi tratada por poetas em diferentes épocas? Para responder à questão, a autora mergulhou nos versos de Casimiro de Abreu, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Manoel de Barros. A mineira Adélia Prado, que não é estudada, finaliza o percurso pelas infâncias da poesia.

“A minha escolha foi histórica e, ao mesmo tempo, intuitiva. Queria trabalhar como diferentes épocas retrataram a infância na poesia, mas com o foco na poesia a partir do modernismo, pois, no momento em que os poetas trabalham com mais liberdade criativa, sem a preocupação de passar valores, diferentes infâncias passam a ser construídas, inclusive pelo mesmo poeta. Minha intenção não é fechar uma análise da infância, mas, sim, abrir o álbum, para que cada um possa também participar desse processo criativo.”

Mais do que memória, a infância é analisada como “objeto a ser construído pelo poeta”. No romantismo, por exemplo, a criança era comparada a anjos, tratada de maneira idealizada; ressalta-se a inocência da infância. Já no parnasianismo, com Olavo Bilac, era “um ser carente de aprendizados e lições de moral”; é a infância como “possibilidade de construção do futuro”. A partir do modernismo, quando a infância passa a ser tratada na literatura como “algo em constante transformação”, a pesquisadora explica que “mais importante do que a infância vivida é aquela que passa a ser reinventada na linguagem”.

É no modernismo que a infância é marcada por uma maior liberdade criativa, sem a preocupação de passar valores que acometia Bilac. “Diferentes infâncias passam a ser construídas, inclusive pelo mesmo poeta.” Um exemplo é a imagem de infância de Manuel Bandeira, tratada como idealizada nos seus primeiros livros Cinza das horas e Carnaval (como em Epígrafe: “Sou bem-nascido. Menino, /Fui, como os demais, feliz./ Depois, veio o mau destino /E fez de mim o que quis.”). Já em O ritmo dissoluto, aparece a imagem do “menino doente”, representando uma infância ameaçada.

Para Cecília Meirelles, também presente no estudo, “a infância e a juventude de outrora já não são mais reconhecíveis no retrato”. Há um certo desencanto na poeta que desfaz o “mito da infância feliz” e também revela a passividade do mundo adulto diante do sofrimento infantil. A menina que nunca chegou a conhecer o pai nem os três irmãos e cuja mãe falece quando ela tinha apenas três anos de idade tem seu drama abordado  em Orfandade:

“A menina de preto ficou morando atrás do tempo, sentada no banco, debaixo da árvore,
recebendo todo o céu nos grandes olhos admirados.

Alguém passou de manso, com grandes nuvens no vestido, e parou diante dela, e ela, sem que ninguém falasse, murmurou: “A MAMÃE MORREU”.

Já ninguém passa mais, e ela não fala mais, também.
O olhar caiu dos seus olhos, e está no chão, com as outras pedras, escutando na terra aquele dia que não dorme
com as três palavras que ficaram por ali.”

Já a expressão de Drummond sobre a infância é de multiplicidade, da "incorpórea face" de que fala em seu poema (In) Memória:

"De cacos, de buracos

de hiatos, e de vácuos

de elipses, psius

faz-se, desfaz-se, faz-se uma incorpórea face, resumo de existido."

Sem estrutura física, tal "incorpórea face" ganha a possibilidade de modelar-se a cada instante, enquanto a face corpórea envelhece e, por fim, desfaz-se na morte. Também remonta a uma infância solitária como a história de Robinson Crusoé em seu texto "Infância":

"Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé,

Comprida história que não acaba mais."

Apesar disso, também compreende aquele momento com um certo saudosismo, reconhecimento do passado, quando afirma: "E eu não sabia que minha história/ Era mais bonita que a de Robinson Crusoé".

Perguntada sobre poetas contemporâneos que tratam o assunto, a autora cita Antonio Carlos Secchin, orientador de sua pesquisa. No poema O menino se admira, Secchin aborda a questão da infância relacionada à noção que temos de vida, de morte e de tempo: “O menino se admira no retrato/e vê-se velho ao ver-se novo na moldura:/é que o tempo, com seu fio mais delgado,/no rosto em branco já bordou sua nervura”.

A pesquisadora explica a urgência humana em se falar sobre infância:  “Não há como falar de nascimento sem pensar na morte, ou da infância sem o envelhecimento. Toda obra poética, de um modo, ou de outro, atravessa essas questões que são existenciais”. Ao versar sobre essa fase que traz “nossas primeiras impressões do mundo”, a experiência se intensifica e “nos permite recriar e transformar o passado, viver novas vidas e construir um novo retrato de nós mesmos”.

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