Com a sutileza do bater de asas

 

Perceber o mundo pela ótica de um pássaro foi o grande objetivo de Kammal João ao ilustrar a nova edição da obra Cantigas por um passarinho à toa, do poeta Manoel de Barros (1916-2014). Do desenrolar das páginas surgiram as asas a alçar voo; as imagens, mais próximas ou mais distantes do que sugere o texto original, ganham ritmo de cantiga. O desafio, conta o ilustrador, foi descobrir “onde falar e onde silenciar”.

 

 

Alguns textos suscitavam memórias. O poema de uma borboleta “sentada nos braços da manhã” fez o ilustrador se lembrar de um dia em que, numa varanda, ouviu estalos que pareciam vir de lugar nenhum. Após o espanto, entendeu as duas borboletas que sobrevoavam e causavam o som ao se encontrarem no ar. Concluiu que as ilustrações deveriam ser tão simples quanto a impressão daquele momento.

Vi uma borboleta

Sentada nos braços da manhã

Ela estava parada

embaixo de outra borboleta

Não faziam barulho

Nem piscavam.

Só o vento arregaçava as saias delas.

Kammal já trabalhava com ilustração antes mesmo de adentrar no universo das artes plásticas – ilustrou seu primeiro livro em 2009, quando cursava design gráfico. Conta com mais de dez obras publicadas. “Trabalhar com o suporte livro, especialmente para criança, me fascina. Uma possibilidade de povoar outras sensibilidades. [O livro] é uma experiência mais universal.”

Para ele, ilustrar é um convite para passear, ler, ver, virar páginas como quem caminha ou sonha. "Desenhar me ensinou a ver o mundo. É uma oportunidade de tentar despertar essa qualidade do olhar cuidadoso para o mundo em outros." Olhar que também colabora para o seu trabalho enquanto professor de Ilustração na Escola Parque, no Rio de Janeiro.

Seu primeiro contato com a poesia de Manoel de Barros data dos tempos da graduação em Design Gráfico, quando iniciou a pesquisa para o livro O tempo sem tempo, cartas de uma viagem, publicado pela A Bolha Editora em 2015. O projeto era uma proposta de viajar pelo interior do Brasil, transformando os caminhos em cartas com texto e ilustração para o seu irmão mais novo, Amir, na época com apenas sete anos de idade. Foi quando deixou-se mergulhar nos versos do poeta que bem conhece o delírio do verbo. Manoel de Barros, segundo Kammal, não deve ser entendido, mas sentido em cada letra.

Processo 

Com muitas referências a J. Borges e à coleção do American Folk Art Museum, em Nova York, Kammal conta que todo o processo levou cerca de seis meses – de maio a novembro do ano passado. Fez todo o trabalho à mão como forma de entender melhor a linguagem e os elementos a serem trabalhados. Depois, lapidou os excessos. "Pensava que talvez um passarinho veja a vida de uma forma simples e musical."

 

 

 

Ele conta que planejou “levar o leitor para passear com o pássaro, vendo coisas, cantando ou imaginando junto”. “Pensei no desenrolar das imagens como uma espécie de voo. Assim as imagens vão se encadeando, às vezes, mais próximas, às vezes, mais longe do que o texto sugere, esse ritmo me interessava, como uma cantiga.”

Técnica

Para trabalhar com essa obra, Kammal optou por utilizar o bico de pena e guache, linhas finas e massas de cor. Não sabe bem a razão de tal escolha. "Na época estava fazendo bastante sentido trabalhar com esses materiais. Havia um prazer simples em lidar com eles, uma espécie de alegria que parecia fazer sentido me manter próximo dela, como se encontrasse a obra por outro lado."

 

 

Cores

As cores chapadas e contrastantes foram escolhidas com a intenção de trazer musicalidade à obra. Já o leve amarelado do papel ajudaria a "trazer ar para o livro". A inspiração veio das imagens de pássaros do artista J. Borges, que, segundo Kammal, representa o movimento de uma maneira bem estática. A busca era por uma atmosfera, uma "terra fértil que parecesse fazer florescer aquele texto", até para a representação de todas as imagens presentes na poesia de Manoel de Barros. "No geral, parti de uma sensação ou de uma memória em relação aos poemas, algo que me pegasse mais, como um vento ou um amanhecer. Além da sensação de ar, luz e sombra que para mim transpassam todo o livro."

 

 

Livro alongado

Kammal conta que o formato alongado do livro foi uma decisão tomada durante o processo de criação, em uma das primeiras reuniões com a editora Mell Brites e com a designer Helen Nakao. A ideia surgiu a partir de um de seus primeiros esboços, a ilustração do louco que pensava passarinhos amanhã, que tem um formato alongado. A partir de então, a verticalidade tomou conta da obra "para pensar o voo e as alturas do passarinho em relação à página."

Neste post