Cinco olhares para a poesia de Manoel de Barros

 

“Ele tinha um sonho de ave extraviada.

Falava em língua de ave e de criança.”

 

Um poeta que devaneia em brincar com as palavras e mostrar para o mundo como pode ser saboroso voar na poesia escrita em “língua de ave”, numa linguagem solta, fluida, livre das tensões gramaticais, a língua da infância. Com os versos acima, Manoel de Barros abre a obra Poeminha em língua de brincar. A nova edição, lançada pela Companhia das Letrinhas, traz as ilustrações do artista Kammal João que versam no mesmo tom inventivo do poeta.

No livro, somos apresentados a um menino curioso, conhecedor da língua das crianças e das aves, e a Lógica da Razão, uma figura mal-humorada e desacreditada desses idiomas – para ela, a Língua de brincar e Língua de Faz-de-Conta não passam de bobagens de criança. Nesse embate, como fica o menino? Como fica a poesia?

O livro abre possibilidades para questões sobre aprendizado e desaprendizado, as coisas do chão, a matéria-prima do quintal transformada em poesia. A partir de Poeminha em língua de brincar, trazemos cinco olhares (dos muitos possíveis) que convidam para uma leitura atenta e mais aprofundada do autor. Confira a seguir.

 

 

A memória e a nostalgia do quintal

Na poesia de Manoel de Barros, o quintal tem muito a dizer: é desse lugar escondido que o poeta colhe sua matéria poética, transformando esse espaço num imenso território de brincar e, com isso, da própria memória da infância. Adris André de Almeida, que pesquisou sobre a memória e a imaginação de Manoel de Barros no seu mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), escreveu para a revista Rascunhos Culturais o artigo "Dos espaços vividos: o quintal reabitado de Manoel de Barros": “(...) ler é viver espaços. Escrever também o é. Para alguns escritores, o espaço vivido (seja pelas mãos ou pela imaginação) é tão importante que é difícil não associar seu nome a determinado lugar. É o caso de Manoel de Barros”.

Para o poeta, esse espaço vivenciado, experimentado é preferível a qualquer outro lugar, justamente por ser um local que habitou e que habita agora na memória: “Não me atrai o chão da lua. Não sou capaz de pensar nele. O que haveria lá? Teria mamoeiro no quintal? Eu gosto de alguma coisa que na infância eu tenha mijado nela. Uma parede de barrotes. Um morrinho de formigas. ‘Chão da lua’! Fica tão longe e tão cerebrino pensar nisso. Bugre não desprega da terra pra isso. Nem sequer fareja esse lugar tão distante. Nossos pés se molhariam no orvalho da lua? Vai ter orvalho lá? Vai se chamar rocio ou orvalho? E como será o falar? Vai ter água na boca? Córregos por perto? Árvores carregadas de passarinhos? Assunto que não me preocupa há de ser esse de chão da lua. Eu perco os meus contornos. Deixo de saber”, diz o poeta no livro Manoel de Barros — Encontros, organizado por Adalberto Müller, professor de Teoria da Literatura na UFF/RJ.

Retomando o que diz o pesquisador André de Almeida, que sugere no artigo que as lembranças de Manoel não são temporalizadas, mas espacializadas, vale pontuar que é nesse terreno ambíguo de realidade e ficção que nos colocamos para ler os espaços vividos na poética de Manoel de Barros, especialmente o quintal. Ainda no livro de Adalberto Müller, entre as entrevistas do poeta, destacamos a reflexão: “Voltar à infância pela memória é imaginar o quintal onde aconteciam as brincadeiras. Lembrar-se quando criança é voltar a habitar nosso quintal.”

 

 

O pequeno e as coisas no chão

“Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade.” Em Achadouros, publicado no livro Memórias inventadas, Manoel engrandece as pedrinhas de seu quintal, justamente, como ele mesmo diz, por esta intimidade e nostalgia com o espaço.

A palavra quintal já sugere um lugar diminuto. Segundo o dicionário Aurélio: do latim vulgar quintanale, “pequena quinta; pequeno terreno, muitas vezes com jardim ou com horta, atrás da casa”. A poesia de Manoel de Barros nunca foi sobre a exuberância e a grandeza do Pantanal, onde viveu a maior parte da vida, mas sobre coisas pequenas, insignificâncias, e como elas podem ser grandes. O rio que passa aos pés da rã, a formiga que ele via se ajoelhar após um dia de trabalho. Também inventava objetos pequenos para coisas grandes, como esticador de horizontes e abridor de amanhecer. “Ele traz a beleza da vida nas coisas menores”, diz a atriz Cássia Kis, que estreou, no início deste ano, o espetáculo Meu quintal é maior do que o mundo, realizado com base em textos de Manoel.

 

Já Maria Tereza Scotton, doutora em Educação pela PUC/RJ, escreve em seu texto A representação da infância na poesia de Manoel De Barros: “Ele elege para matéria de poesia a pobreza, os objetos e as coisas que não têm valor de troca (como latas e parafusos velhos, cisco, lagartixas e formigas), os homens desligados da produção (loucos e andarilhos), os homens humildes que, embora empobrecidos e iletrados, possuem grande sabedoria”.

 

Natureza e animais revisitados

Assim como seu pequeno-grande quintal, o Pantanal que aparece nos versos do autor cuiabano é sobretudo aquele de sua infância. Manoel de Barros, no entanto, não gostava de ser chamado de “poeta pantaneiro”, já que a expressão fazia com que o foco principal de seu trabalho, a palavra, se transferisse para a paisagem. O que não significa que a natureza que o cercava não estivesse lá – na verdade, o mundo que lemos nessa poética aparece filtrado pela brincadeira com os termos e as normas da língua, assim como num jogo com espécies, gêneros, famílias e reinos. A natureza era também um alguém para se estabelecer intimidade.

Como diz o trecho A natureza e seus fragmentos, da Ocupação do Itaú Cultural sobre o autor: “Na fonte da poesia de Manoel de Barros existe uma relação de promiscuidade com a natureza – tanto a das palavras quanto a das plantas e dos bichos (inclusive os humanos, sobretudo os rasteiros)”. Maria Clara Navarrete, bióloga e amiga de Manoel de Barros, também aparece no programa, relatando que por meio de sua poesia “o ser humano poderia estar em perfeita interação com a natureza; poderia haver um encontro perfeito da ciência com a arte”. Seguindo a pesquisa, a Ocupação Manoel de Barros também colhe depoimentos de quatro biólogos para entender como um cientista lê os versos do autor e se as diferentes formas de encarar a natureza – e de se encantar com ela – se excluem.

 

 

A infância para poeta

A mais notável e lembrada troca nas obras de Manoel de Barros acontece, no entanto, com a infância: na sua visão sobre a criança, na representação dela em suas obras, no “criancamento” que faz com a linguagem. Para o poeta, é nas nossas raízes crianceiras que está a chave para imaginar, criar e transgredir, é nessa visão que carrega da própria infância que mostra a criança não como um sujeito frágil ou incapaz, mas questionador e criativo, cúmplice em no seu complexo jogo de linguagem. E isso transborda para suas narrativas, como sugere a pesquisa de Scotton: “A criança, que não tem a voz escutada para compor os discursos legitimados sobre ela, permeia grande parte de sua obra. Percebendo o estado de ruína do mundo, a fragmentação do sujeito, Manoel vê na linguagem (e na linguagem infantil) a possibilidade de se fazer outra história”.

Em Poeminha em língua de brincar, o menino não é um ser ingênuo, incompetente, mas inquieto, inventivo e transgressor, capaz de criar um mundo inserido no mundo maior – o seu quintal. A partir do conflito entre ele e a Dona Lógica da Razão, o poeta mostra a incompreensão do adulto que não ouve a criança, sendo o primeiro o ser incompleto, que critica e caçoa do modo diferente e infantil que as crianças enxergam o mundo, justamente por não ver além das normalidades. Manoel de Barros mostra, assim, a visão que tem sobre a infância e a própria visão das crianças, que, como a dos poetas, é libertadora, livre de modelos sociais e expressa numa linguagem que voa como pássaro.

Mas, ao construir a língua de brincar, experimentar os sons das palavras e incitar outros sentidos, era necessário que o poeta conhecesse a fundo suas regras, que dominasse a oralidade da infância e a escrita com perfeição gramatical para mesclar modos de fala, criando esse linguajar da criança. Existiu, na produção do livro, um cuidado do poeta pelo estudo das origens e dos usos das palavras para transformá-las em brinquedo. “Sou muito resistente com uma forma de compreensão da obra do Manoel que tem relação com a fofura, com o lirismo. Eu entendo como se chega a ela, porque é o sentimento que provoca em quem lê. Mas acho perigosíssimo confundir o sentimento de quem lê com o ofício de quem faz”, diz a jornalista, atriz e escritora Bianca Ramoneda, que comenta diversos aspectos da obra na Ocupação Manoel de Barros.

 

 

Érika Bandeira de Albuquerque, mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, complementa esse pensamento ao indicar em sua pesquisa que Manoel de Barros “tem certa obsessão pela origem das palavras, estuda a etimologia de um termo até achar o 'feto' verbal. Pode-se concluir que esse ato seria a redescoberta da infância de determinada palavra, como ela nasceu e se desenvolveu ao longo dos séculos”.

 

Aprender desaprendendo

E mesmo com tal repertório, o poeta não se permite ser uma Dona Lógica da Razão, personagem que surge nos versos de Poeminha em língua de brincar, por entender que a pretensa sabedoria do adulto acaba por desencorajar a imaginação da criança. “Quando ele fala de criançamento da palavra, ele tá falando de você atingir um lugar de liberdade que a criança tem, porque ainda não foi contaminada por valores e por exercícios mentais. É a infância como um território de liberdade”, Ramoeda comenta na mesma série de vídeos realizada pelo Itaú Cultural.

Na escrita de Manoel, a poesia feita nesse brincar com a linguagem se conclui numa etapa seguinte a de aprender e dominar normas gramaticais: a de desaprender e quebrar as regras, trazendo a poesia a partir da desconstrução, da imaginação, com a subversão da ordem de uma criança. Para elas, ter o domínio desses passos gera uma aproximação com o fazer poético, colocando-as não apenas como leitoras, mas como agentes capazes de produzir poesia.

Fotografia: Marcelo Buainain

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