Cinco olhares para a obra de Suzy Lee

 

 

“Eu poderia ficar anos falando sobre ela, mas em nome de uma síntese poética própria à língua coreana, isto é, à língua nativa de Suzy Lee, vou destacar os motivos mais fortes pelos quais sua obra me toca: a simplicidade abissal do narrar (verbal, visual, material); o drama em cada virar de páginas e o próprio ficar diante da página dupla aberta; o cotidiano mais puro de personagens que nos fazem re-acessar a infância; o brincar e o permitir-se da brincadeira, um posicionar-se em defesa da imaginação no lúdico, pela ação ética/estética de propiciar ao leitor uma possibilidade de re-acessar também a página em branco, de ele próprio reviver o processo de inscrição das narrativas. Um devolver para o humano essa possibilidade de ser arrebatado pelo banal, pelo cotidiano, por aquilo que é pequeno, mas tão imenso.”

 

Ilustração do livro Sombra, de Suzy Lee

 

É dessa forma que o pesquisador Luís Girão apresenta a força poética da obra da premiada artista coreana, autora de livros como OndaSombra, entre outras histórias criadas para “mentes curiosas”, de todas as idades.  O teórico A trilogia da margem (Cosac Naify), também de Suzy Lee, é uma importante referência para quem estuda o livro-imagem, tema que será debatido no curso “Suzy Lee e o livro infantil: percursos críticos para a leitura de imagens no literário” ministrado por Girão de 21/3 a 25/4 no Lugar de Ler, na zona oeste de São Paulo. 

O encontro de Luís Girão com a autora e ilustradora de livros infantis Suzy Lee aconteceu de forma inusitada: o gosto por tecnologias atreladas a jogos, música e dança o levou a aprender coreano, que abriu portas para trabalhos em criação de projetos visuais nas áreas de ilustração e design gráfico, suas formações acadêmicas originais, em uma empresa fonográfica da Coreia do Sul. Em um dos projetos, conheceu o trabalho de Suzy Lee, que o impressionou pelas obras literárias com narrativas visuais. “Aquilo causou um impacto profundo em mim, como criador visual e de gráficos para encartes de discos, ou seja, de narrativas visuais desdobradas de narrativas sonoras, sem contar o elemento maior: a utilização da materialidade do objeto livro como elemento constitutivo das narrativas pictóricas”, diz na página do curso.

Essa vivência levou Luís a pesquisar academicamente a autora e o objeto livro. Mestre e, atualmente, doutorando em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, ele realiza seminários como professor convidado nos cursos de extensão da PUC-SP ("O conto de fadas na educação infantil" e "O livro ilustrado infantil") e atua como pesquisador nos Grupos de Pesquisa "A voz escrita infantil e juvenil: práticas discursivas" e "Processos de criação".

Leia abaixo cinco olhares de Girão para a obra de Lee – e não deixe de conferir muito mais em seu curso no Lugar de Ler.

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O narrar abissalmente simples

O ato de narrar histórias, em Suzy Lee, dá uma ideia aparente de conforto diante das páginas duplas em seus livros. Carregadas de significações (em palavras, imagens, na dobra do códex, mesmo no virar de folhas), cada prancha, isto é, cada abrir e desdobrar de páginas justapostas traz em si um espaço de profundo mergulho no imaginário, de acesso às regiões abissais da memória e da imaginação. Essa simplicidade, à priori, vai se descontruindo à medida que a seleção de palavras (no texto verbal), de imagens (no texto visual) e de toda uma sintaxe proposta na materialidade do objeto livro (no texto háptico) vai, pouco a pouco, desvelando as camadas interiores das superfícies impressas (capas, páginas), exatamente por guardar, ali, numa sonoridade oral, numa duração do olhar e num girar do livro, a ambiguidade da arte. Em outros termos, o que se mostra simples esconde, na realidade, toda uma urdidura significante e potencial às inúmeras leituras.

 

O drama plástico/gráfico

Mais conhecida por seus consagrados e sensíveis livros-imagem, Suzy Lee sempre ressalta a importância de estruturar histórias acerca da subjetividade humana utilizando a linguagem mais simples (a visual) no formato mais restrito (o códex). Consciente disso, quando ela decide deixar uma página “vazia”, sem qualquer impressão figurativa, apenas uma mancha de cor (em grande parte, o branco do papel), não é gratuita, mas intencional. Esse tornar “visível” a página do livro, além de criar uma tensão no desencadear narrativo, chama a atenção do leitor para o aspecto físico do objeto diante de si: um livro. O estranhamento gerado pela ausência de figuras num objeto tão conhecido pelas impressões sequenciais produz um drama que levanta questões como: “será que a história acabou aqui?”; “tem algo mais depois disso?”; “posso seguir virando as folhas?”; entre outras. Em reação, o leitor se vê voltando às páginas anteriores para ressignificar aquela dupla diante de si. Nas palavras de Suzy Lee: “O espaço em que acontece essa fantasia inacreditável não é nada além do que um pedaço de papel”.

 

Cotidiano e infância

As histórias impressas como livros e criadas por Suzy Lee não enveredam pelos campos do fantástico de uma maneira tradicional, quando o elemento mágico entra em contato com o real e o mundo da imaginação toma conta do espaço-tempo de leitura. Todas as suas personagens enfrentam o conflito do real versus fantasia em situações bem corriqueiras e comuns, do cotidiano: seja indo à praia e brincando com as ondas do mar; seja brincando de projetar sombras no chão com formas criadas no corpo; seja brincando com os animais durante uma visita ao zoológico com a família – e aqui poderíamos seguir apontando. O maravilhoso, em Suzy Lee, parece fincar suas bases num espaço-tempo real, do cotidiano, para ganhar os ares num espaço-tempo imaginário, da infância, dos jogos, das brincadeiras, do faz de conta. As sensações do experimentar de novo cada um desses pequenos momentos, que prolongam durações próprias ao virar de páginas no livro, é semelhante ao reviver cada momento marcante da infância.

 

O livro infantil para todas as idades 

A universalidade e a ambiguidade são características esperadas quando nos referimos às obras de arte criadas pelo ser humano. Não diferente é como Suzy Lee encara seus livros: como forma de arte. Podemos notar essa larga audiência intencionada quando ficamos diante de um livro-imagem, que se utiliza do texto verbal apenas no título, e cuja leitura (diríamos mais, as leituras) até segue um encadeamento prévio, porém, o durante da leitura é reservado às significações e afecções atreladas a cada leitor, seja este uma pessoa de mais ou menos idade.  A universalidade artística ganha corpo e espaço de reflexão pelo uso “simples” de palavras; pela cartela de cores reduzida; pela escolha das técnicas de inscrição de figuras no espaço chapado e bidimensional da folha; além de tantas outras características que chamam a atenção das crianças de todas as idades. Já a ambiguidade, essencial à significação artística, ganha contornos possíveis pela exploração de ações e momentos do cotidiano; das brincadeiras clássicas da infância; dos acontecimentos marcantes de nossa formação enquanto sujeitos. Tudo isso em livros que, segundo a própria Suzy Lee, poderiam ficar nas estantes das pessoas por muitos e muitos anos, evocando as suas memórias de infância num virar de página.

 

A sinestesia

Quando um livro nos faz não apenas ouvir (ritmos e narrações orais), ver (olhadelas desconfiadas e demoradas) e ler (enveredar pelas palavras e imagens), mas também tocar (a superfície lisa ou porosa, a densidade do papel) estamos diante de um objeto distinto do códex tradicional, ainda que estejamos segurando um agrupamento de cadernos em formato quadrado ou retangular (seja horizontal ou vertical) tão tradicional como os livros nos séculos XIX e XX. O diferencial está na relação do sentir o objeto livro em sua totalidade, em sua materialidade física, em suas significações – tanto impressas enquanto textos nas folhas como nas sonoridades geradas pelo virar de páginas. Esse jogo sinestésico é um dos principais elementos característicos na obra de Suzy Lee, em que as percepções do leitor são exploradas durante toda a leitura, nos campos da visão, da audição e/ou do tato. Falamos aqui de uma proposta artística em que o corpo do leitor é convidado a sentir, constantemente, aquele agora de leitura. Nas palavras de Suzy Lee, parece que os seus livros dizem ao leitor: “Eu vou mostrar para você. Apenas sinta”. É a arte do livro em contato ardente com o corpo humano.

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