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Casa de escritor é uma verdadeira biblioteca - Blog da Letrinhas

Casa de escritor é uma verdadeira biblioteca

 

Os escritores não moram em casas, habitam verdadeiras bibliotecas, com livros espalhados em estantes (ou mesas, escrivaninhas e outros móveis) pela sala, pelos quartos, na cozinha e até no banheiro. “Na minha casa os livros estão em todos os espaços, menos na geladeira e no fogão. Eles brotam”, conta Socorro Acioli, autora de obras como A bailarina fantasma e A cabeça do santo. Os livros, muitos, até parecem ganhar vida, “andam sozinhos, mudam de lugar, visitam os amigos”.

Para a escritora Maria Amalia Camargo, sua biblioteca é morada de dragões, piratas, astronautas, reis e rainhas. “Na minha estante moram livros que me viram crescer. Moram livros que eu li na idade adulta, mas que me fazem voltar a ser criança. Moram dragões, piratas, sereias, astronautas, reis e rainhas. Moram histórias escritas por pessoas fantásticas que tenho a sorte de conhecer. Moram histórias sobre pessoas inspiradoras que jamais terei a chance de encontrar. Moram lugares que me fazem viajar sem sair do lugar. Moram muitos bichos que falam e alguns bichos que se acham livros.”

Já as estantes de alguns autores são a própria mala, uma espécie de “biblioteca-tenda”. É o caso do escritor e ilustrador Roger Mello, que há tempos virou um nômade que carrega suas obras preferidas pelos quatro cantos do mundo, de aeroporto em aeroporto. “O livro é um objeto de deslocamento. O livro é um outro que se carrega no bolso, na bolsa, debaixo do braço, na mão”, diz Roger, que ainda reflete sobre as bibliotecas invisíveis como as de Jorge Luis Borges e de Lygia Bojunga.

Pedimos a alguns escritores que nos contassem sobre a relação com suas estantes de livros. Confira mais abaixo.

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Uma estante no plural

 

“Minha estante não existe. Não assim no singular. São inúmeras. Em minha casa há estantes no meu escritório, na sala, no corredor, no meu quarto, nos dos meus filhos e em todos os outros cômodos da casa. Incluindo o banheiro. E mais na casa de praia, igualmente com prateleiras cheias de livro na sala  e nos quartos. Periodicamente, eu me disciplino a ser desapegada e dou para bibliotecas enormes quantidades de livros, que continuo adquirindo ou recebendo sem parar. Nos que guardo, procuro arrumar por assunto. Por exemplo, algumas são só de poesia, outras de ficção brasileira, ficção em espanhol, ficção em inglês etc. Outras são só de críticas, ensaios, reportagens. Outras de literatura infantil. Outras só de clássicos – de Homero a Eça de Queirós e Machado de Assis. Outras duas são de dicionários. Mas muitas vezes acaba sobrando para as prateleiras vizinhas. Dentro do assunto, tento arrumar por ordem alfabética de autor. Pelo meio dos livros, tenho porta-retratos com fotos da família. E canecos com canetas, lápis, pincéis e tesoura. E num cantinho, pelo meio dos livros, bonecos de personagens que fui ganhando ou juntando em viagens. Como esse é um ângulo bastante fotogênico, foi o que escolhi para mostrar.”

ANA MARIA MACHADO, autora de Histórias à brasileira e A princesa que escolhia

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Identidade dupla

“Costumo brincar que sou duas pessoas ao longo da semana. De segunda de manhã até quarta na hora do almoço, sou o Leo professor, no curso de jornalismo do UniBH. Desde 1997, já lecionei disciplinas tão variadas como Jornalismo Cultural, Teoria da Comunicação, Técnicas de Reportagem e Fundamentos de Cinema... Mas aí, quando dá meio-dia da quarta, eu troco de fantasia e viro o Leo escritor! É hora de inventar contos e poemas, fazer traduções, visitar escolas e, claro, ler muita literatura. O engraçado é que a minha estante é um espelho perfeito dessa dualidade. São duas portas de correr, em vidro fosco: quando abro a porta da esquerda, aparece a biblioteca do jornalista e a literatura se embaça; quando abro a da direita, acontece o oposto, e eu mergulho no universo literário. Só de olhar para as duas imagens, é fácil pra perceber que o Leo escritor é bem mais caótico que sua metade professor!”

LEO CUNHA, coautor de As fantásticas aventuras da vovó moderna

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Em busca da palavra certa

“Dicionários, dicionários, muitos dicionários. Esses são os livros mais à mão no entorno da minha desorganizada mesa de trabalho. Por que tantos dicionários, vocês podem me perguntar? Porque o dicionário é a ferramenta do escritor. Muitas e muitas vezes sinto falta da palavra certa, do adjetivo correto, do verbo preciso. Além do pesadíssimo Houaiss, há os dicionários de sinônimos, os analógicos, os de dialetos regionais e de jargões. Mais acima, já um tanto distante da mesa, estão os livros que publiquei, e que preciso consultar de tempos em tempos seja para corrigir para uma segunda edição ou por outro motivo. E mais acima ainda, estão os livros que comprei para ler, mas até hoje não li. Em sua maioria são autores brasileiros, portugueses, angolanos e moçambicanos. Num certo sentido, também são ferramentas de trabalho, pois os leio para enriquecer meu vocabulário e aprimorar meu estilo. Além, é claro, do prazer em si da leitura. Falei de minha mesa de trabalho. Em outros cantos da casa, em outras prateleiras, há os livros de poesia, os de história, os políticos. Há até um cantinho com os livros que a cada semana doo a uma biblioteca, pois já não tenho espaço para tantos livros e os mais que continuo comprando, por vício e por prazer.”

BERNARDO KUCINSKI, autor de Imigrantes e mascates

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Uma biblioteca-tenda

“A minha estante é nômade. Já viajou de país em país por causa da literatura, por cidades, feiras, convenções, escolas. A maior parte na vida da espécie humana na terra fomos nômades. Caminhamos desde a África ao encontro do mundo, e de nós mesmos, através da descoberta do ‘outro’. O livro é um objeto de deslocamento. O livro é um outro que se carrega no bolso, na bolsa, debaixo do braço, na mão. O seu formato de códice, de feixe de páginas, foi criado para facilitar até mesmo fugir da destruição do livro. Placas de argila são quase eternas, rolos de pergaminhos trazem uma leitura que envolve o corpo todo, mas são pesados e não têm uma forma que ajude a carregá-los. O códice trouxe a possibilidade portátil de deslocar a ficção de palavras e imagens no espaço. Sempre carrego livros quando viajo. Eles sairão da mochila e da mala e irão para mesas em escolas, em feiras do livro. Mesas que também mudam sempre de lugar. Uma mesa num café cheio de bossa, onde passar o tempo é muito mais que passar o tempo. É a construção de uma biblioteca invisível como as de Borges e de Lygia Bojunga. Recebo sempre outros livros de outros autores, de crianças, prospectos de museus, e meus cadernos, fazendo parte dessa biblioteca móvel, que tem contexto e cheiro e tem movimento. Uma biblioteca-tenda?

Muitas vezes, no meio do caminho, faço uma "boneca" de livro, uma maquete, um rascunho, colando e costurando pedaços de papel que encho de "pedaços de ideias", onde um novo livro vai se desenhando. Como faziam os calígrafos numa caravana. É assim que crio. É ai que  gosto de escrever as palavras, à mão, pra entender a forma do texto e das imagens. Dois potes de tinta, cores escolhidas com muito "pensa e repensa", a cor é uma espécie de "dor". O livro é um objeto que vem com a ideia de que haverá a viagem, e a lombada do livro se relaciona com as várias bibliotecas por onde caminha. Sabe o que é a lombada do livro? Nem toda estante é um móvel, mas penso que poderia ser, e o livro, como um módulo dessa estante que compõe uma biblioteca maior, é também um módulo, uma espécie de átomo, a menor partícula indivisível, que ainda quer e precisa se dividir. Nossa cabeça, nossos olhos conversam com o livro como se estivéssemos diante de um espelho, daí o nome das partes do livro terem os mesmos nomes das partes do corpo humano. O olho, a folha de rosto, a orelha do livro, o pé de página, a respiração entre as linhas e as folhas. E, finalmente, as páginas das guardas que ligam a capa ao miolo do livro. O miolo do livro remexe os miolos da nossa cabeça em movimento. Minha estante é a estante do nômade.”

ROGER MELLO, autor de Inês e João por um fio

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Uma estante, uma rede e muita inspiração

 

"Tenho tatataravós índios, africanos e portugueses, não poderia ser mais brasileiro. Consegui instalar uma rede no meu escritório, onde gosto de ficar escarrapachado lendo, escrevendo, pensando, nadando (no sentido de fazer nada). Atrás da rede está uma grande estante que durante décadas quis, e hoje tenho. Bem grande, com pedaços separados, onde os livros estão separados por tipos: escrita, roteiros, literatura; livros grandes de arte e referências; poesia; teatro; e assim por diante. A parte com dicionários fica bem atrás da mesa, onde está também uma parte com uma boa papelada com ‘escritas em andamento’. Andei me desapegando e doei algumas pilhas dos livros para a biblioteca de uma escola. Doei e doeu: fui pegando um por um, alguns reli uns trechos, outros li, outros dei uma olhada e coloquei de volta na estante. Tem outra bem menor no meu quarto, com os cento e trinta e sete livros que eu vou ler assim que terminar o que leio agora...”

FLAVIO DE SOUZA, autor de Sabadão joia e O livro do ator

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Um cantinho só da poesia

"Em todos os lugares onde vivi sempre criei para os livros de poesia um espaço à parte. Em geral são três estantes um pouco menores do que as demais, e mais bagunçadas também. Um pouco porque pego esses livros com muita frequência e de maneira caótica – de repente a vontade de voltar a um verso me faz mexer ali e um livro puxa outro. Como conheço perfeitamente essa coleção pela lombada, não me importo muito em ordená-la alfabeticamente. E há sempre uns ‘infiltrados’ morando nessa estante, são livros de ensaio ou pequenas edições inclassificáveis que leio no mesmo espírito com que leio os poemas. O Cultura e opulência no Brasil, do Antonil, mora aí. No alto fica pousada uma parte da minha pequena coleção de vasos, como vigias silenciosos, sempre a postos..."

LAURA ERBER, autora de Nadinha de nada

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Livros em todo lugar!

“Na minha casa os livros estão em todos os espaços, menos na geladeira e no fogão. Eles brotam. Minha biblioteca oficial são duas estantes fechadas, cada uma com cinco prateleiras fartas. É nela que organizo meus livros mais importantes e tento separá-los por assuntos. O problema é que nunca, nunca mesmo eu consigo organizar tudo lá dentro. Ganho livros dos alunos, das editoras, de amigos escritores e, pelas minhas contas, chegam no mínimo uns dez livros por semana aqui. O critério de organização é por temas. Tenho uma prateleira só para livros teóricos, outra só para os autores latino-americanos, outra para os portugueses e africanos. Mais uma para livros de culinária, em outros idiomas, mas raramente isso está assim tão certinho. Tenho a impressão de que eles andam sozinhos, mudam de lugar, visitam os amigos. Esse é um critério importante: deixo os amigos bem perto. Um dia eu decidi que não era saudável acumular tantos livros em casa sabendo que eu não terei tempo suficiente para ler tudo. A verdade é essa. Então comecei a criar o hábito de fazer doações para bibliotecas públicas e comprar o livro em e-book. Também sou fã dos livros digitais. Os grandes textos, a literatura de verdade existe nas palavras. Os leitores digitais são práticos e me permitem levar uma biblioteca imensa em uma viagem, gastando um espaço pequeno. Assim, posso dizer que tenho duas bibliotecas, a física e a digital. Quando olho para elas, eu me lembro da frase do escritor francês Jules Renard: ‘Quando penso nos livros que ainda vou ler, tenho a certeza de que serei feliz’. Essa é a felicidade de uma leitora como eu: saber que há tanta coisa boa para ler na vida.”

SOCORRO ACIOLI, autora de A bailarina fantasma

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A casa que virou biblioteca

“O quarto costuma ser o lugar mais querido de uma jovem. Acontece que, na casa de meus pais, havia uma boa biblioteca. Era meu refúgio, meu lugar preferido, que continha, além de livros, fotos e mapas, uma mesa de madeira maciça. Na semana passada, olhando para minha própria casa lotada de livros em todos os cômodos, percebi que praticamente moro dentro de uma biblioteca. Recentemente, herdei a mesa de meu pai e logo a transformei em estante. Ela ficou reservada para os livros de autores de literatura irlandesa, como Bram Stocker, James Joyce e William B. Yates. Sempre os pesquisei, mas agora o fascínio só fez aumentar. Sobre a mesa, o grande prato de cobre que pertencia à minha bisavó baiana. Uma lembrança de minha mãe. Se meu pai, Luiz Prieto, foi o guardião dos livros, minha mãe, Valdeti, foi a grande contadora de histórias, a escrita e a voz emprestando-me ideias para meus próprios livros. Espero sempre que eles encontrem seus lugares em suas respectivas estantes, recebendo acolhida carinhosa.”

HELOISA PRIETO, autora de O estranho caso da massinha fedorenta e Vó coruja

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Três dimensões de um eu

“Há algumas estantes na casa, mas a que fica mais perto de mim, quase em cima da minha cabeça, é esta da foto. Nunca tinha prestado muita atenção nela. Porém agora, olhando com atenção, vejo que minha estante revela três eus. No primeiro andar fica o eu-escritor, com os livros que escrevi e aqueles nos quais tenho algum texto. Também há fotos de família, caveiras (penso um bocado na morte) e uns bonecos engraçados, como uma múmia e um toureiro. No segundo andar fica o eu-leitor. É onde estão os livros que estou lendo ou quero ler. Não faço ideia de como o senhor Spock se teleportou para lá. Por fim, no terceiro andar fica o eu-não-posso-ficar-sentado-o-dia-todo-nesta-cadeira. Ali ficam uns (poucos) troféus de natação, medalhas de pedestrianismo (só de participação) e uns prêmios de cinema. Há também um Jabuti, mas trata-se de um intruso (que eu não tiro porque teria que levantar da cadeira).”

JOSÉ ROBERTO TORERO, coautor de Branco, belo e cinderelo e Abecê da liberdade

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A morada de dragões, piratas, astronautas, reis e rainhas

“Na minha estante moram livros que me viram crescer. Moram livros que eu li na idade adulta, mas que me fazem voltar a ser criança. Moram dragões, piratas, sereias, astronautas, reis e rainhas. Moram histórias escritas por pessoas fantásticas que tenho a sorte de conhecer. Moram histórias sobre pessoas inspiradoras que jamais terei a chance de encontrar. Moram lugares que me fazem viajar sem sair do lugar. Moram muitos bichos que falam e alguns bichos que se acham livros. Minha estante de infantis e livros de arte é uma mini-micro amostra da biblioteca da família. Com pai historiador, mãe jornalista e irmão arqueólogo, as paredes de casa sempre foram cobertas de livros. Até o corredor do apartamento virou lugar deles. Comigo, lá na roça, tenho uma mistura de prateleiras e caixas que fazem do meu escritório um pedaço cheio de imaginação. Para os meus gatos, aqui também é um cantinho inspirador: às vezes, a estante vira uma parede de escalada, outras, um parque de diversões (com direito a muitos livros espalhados pelo chão).”

MARIA AMÁLIA CAMARGO, autora de Meu vizinho é chato pra cachorro!

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Um nicho de aconchegos

“Quando fiz 18 anos comprei uma estante da Lundia Willo com meu primeiro salário. Isso já faz muito tempo e ela continua comigo – sempre no meu quarto – com infinitas camadas de pintura. O lugar dos livros “do agora”, cada prateleira dedicada a um assunto: pesquisa de contos, romances na fila de espera para serem percorridos, estudos de artes narrativas, coletâneas de contos tradicionais, artes da memória, tradições populares brasileiras, mestres do caminho e nas beiradas os livros enormes pra manter todos os outros  em pé. Essa pequena estante não é como as outras que povoam a casa. Aparentemente a mesma monótona ordenação por assunto, como nas outras. Só que aqui, alguns livros guardam coisas  escondidas no meio de suas páginas, há  fotos que separam brochuras, curiosidades incatalogáveis. Nicho de aconchegos. Essa estante é o continente perfeito, em si mesmo uma longa história, que vive a emoldurar as histórias entremeadas nas histórias que cada um e todos esses livros contém. Nunca lidas, jamais contadas, cúmplices por mil e uma noites. Até o além.”

REGINA MACHADO, autora de Nasrudin e A formiga Aurélia e outros jeitos de ver o mundo

 

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