Cartas para Monteiro Lobato

 

No fim do século XIX, no casarão da fazenda de José Francisco Monteiro, o Visconde de Tremembé, nasceu Monteiro Lobato (1882-1948). Cresceu como todos da sua geração: não como crianças, mas como pequenos adultos, num tempo em que meninos e meninas nem sempre brincavam juntos e vestiam trajes com o mesmo rigor dos pais, com a diferença apenas das dimensões. Tal experiência fez brotar no escritor os desejos de mudar essa concepção de infância no país, descritos nas muitas cartas que trocou com colegas, admiradores e leitores.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Patrícia Raffaini, pesquisadora de história da leitura e da literatura infantil brasileira, buscou entender em seu pós-doutorado qual era esse universo literário que Lobato teve contato quando criança e ao qual sempre se referia quando adulto ‒ um já reconhecido escritor, tradutor e editor. Para tal, a especialista investigou os livros que o pai de Emília leu, como os citadas pelo autor nas cartas que trocou com Godofredo Rangel, publicadas no volume de A barca de Gleyre (Editora Globo). 

Nesse acervo epistolar, Lobato revela que gostaria de escrever livros onde as crianças morassem, como aqueles nos quais se refugiou na infância: clássicos do escritor francês Julio Verne, considerado o inventor do gênero de ficção científica, e livros publicados pela editora carioca Laemmert, expoente brasileira da época, responsável pelas adaptações de obras como Robinson Crusoé, As Viagens de GulliverAs aventuras do Barão de Munchausen

Assim, Lobato revela nas cartas para Rangel: “Ando com ideias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças, um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoé do Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar". Poucos anos após a troca dessas correspondências,o autor começa a publicar a série de histórias da turma do Sítio do Picapau Amarelo, com A menina do narizinho arrebitado (depois, Reinações de Narizinho), na década de 20.

Construção de outra infância

Monteiro Lobato e Anísio Teixeira – jurista, escritor e educador, personagem central da história da educação no Brasil – trocariam cartas ao longo dos anos seguintes, em que discorrem sobre educação, infância e literatura. Em 1931, quando Lobato reúne em Reinações de Narizinho as várias histórias da turma do Sítio, Teixeira comenta: “Leio Reinações de Narizinho com um prazer sem nome. Você é um Kipling feito à medida do Brasil. (...) Mas como você já cresceu de alguns dos seus outros livros de criança. Começa você a sentir-se à vontade, entre as crianças... E isso, você sabe bem como é grande”.

Nessas correspondências, nota-se uma aproximação de Lobato com o escolanovismo, corrente ideológica que contesta o ensino tradicional da época ao tratar da infância não mais como condição transitória e inferior, negativa, de preparo para a vida adulta. Lobato cultivava, assim, um projeto nacional de educação, pensando na criança leitora como um potencial indivíduo crítico, alguém que tinha a possibilidade de pensar o mundo e propor uma mudança num país cheio de disparidades. “Lobato tinha um projeto político mesmo, que passava pela construção de uma literatura infantil", diz a pesquisadora.

Em seu doutorado, Pequenos poemas em prosa, a especialista trabalhou com a recepção da leitura literária na infância, analisando as cartas que as crianças escreveram para Lobato. Nelas, as crianças comentam com o autor o que gostavam das suas obras e dão sugestões. E Lobato, reconhecido editor, fundador da Monteiro Lobato & Cia., depois chamada de Companhia Editora Nacional, também buscou nessa troca epistolar levantar opiniões sobre o formato do livro e das ilustrações, ávido em entender sua própria produção editorial.

Ao encarar as crianças como interlocutores competentes, Lobato não se esquivava de discutir temas como saúde, religião ou política. Questionado mais de uma vez sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), seus leitores falam delase referindo à obra A chave do tamanho (Editora Globo), em que o escritor coloca Emília diminuindo toda a humanidade para darfim ao conflito armado. Um dos desenhos recebidos por Lobato de um leitor versa também sobre o tema: mostra Hitler na cama tentando “derrubar” pequenos aviões ingleses com um inseticida.

Outras crianças dão idéias para novos livros, como Sarah: “Estou estudando a História do Brasil e como acho muito cacete peço por favor que o senhor escreva, um livro, sobre este assunto”. Alguns leitores fazem pedidos ao Monteiro Lobato tradutor: “Estou lendo ‘História do Mundo para as Crianças’. Esse livro está me interessando muito, mas o capitulo que mais gostei foi ‘Marco Pólo’, justamente quando ‘Emilia’ disse que ia pedir ao senhor para traduzir o livro ‘Viajens de Marco Pólo’. Por isso escrevo-lhe renovando o pedido da “Emilia”, isto é, que o sr. traduza o livro em que Marco Pólo conta as suas viajens”. 

A infância de seus leitores

Algumas cartas que Lobato recebeu eram de crianças que de fato viviam em sítios – de acordo com dados populacionais de História do Brasil Nação (Objetiva), organizado por Lilia Schwarcz, a virada da população rural para urbana só se dá nas décadas de 50 e 60. Nos anos 30 e 40, existia uma parcela vivendo nos meios urbanos, onde se concentravam as crianças leitoras. Para Patrícia, “ele foi muito feliz em situar a turma em um sítio, porque nesse local é como se ele tivesse uma certa liberdade de criação. Talvez se ele tivesse ambientado sua produção em um meio urbano não tivesse tanta liberdade como  tinha no sítio”.

No caso dos leitores mais novos, existe inclusive a confusão entre realidade e fantasia. Como aconteceu com a leitora Cecília, que chamou Pedrinho e Narizinho para seu aniversário: “Tendo lido todos os livros da sua Biblioteca de Narisinho arrebitado e admirando todos os personagens mas, não tendo o prazer de conhece-los venho por meio desta pedir-lhe a fineza de convidá-los em meu nome para virem lanchar comigo no dia do meu anniversario natalicio que será no dia 22 de Novembro. O lanche terá inicio ás cinco horas”. Ou então fazem pedidos inusitados como o menino João Eduardo, de oito anos: “O que mais me impressionou foi o que o senhor escreveu sobre o pó mágico de pirlimpimpim. Pedia para me mandar um pouco desse pó”.

Independentemente do assunto das correspondências, o tratamento sempre era de crescente carinho. A exemplo da troca de cartas entre Cordélia F. Seta e Lobato: a primeira, escrita em 1944, começa “Ilmo. Sr. Dr. Monteiro Lobato. Respeitosos Cumprimentos”. A segunda “Ilmo. Snr. Monteiro Lobato. Saudações”, que segue com uma brincadeira na terceira: “Snr. Lobato. (O ‘ilustríssimo’ foi dar um passeio) Saudações”. O tratamento na carta seguinte, “Caro Sr. Lobato”, já dá um salto para algo mais íntimo: “Amigo Monteiro Lobato”.

Para essas crianças, Lobato cria um universo fantástico no território do sítio. “Nas cartas, muitas vezes as crianças perguntam onde esse Sítio fica, porque eles querem o local concreto – coisa do universo infantil, de perguntarem ‘onde que fica?’ – e Lobato sempre respondia falando que não podia dar o endereço, porque, caso o fornecesse, todas as crianças iriam querer morar lá e não caberia todo mundo, sendo um “segredo onde o Sítio ficava". As crianças visitavam o Sítio, portanto, de outra maneira: os leitores que se correspondiam com Lobato muitas vezes se tornavam personagens das histórias, como aconteceu com a leitora Maria de Lourdes, que se tornaria a Rãzinha na obra A reforma da natureza (Editora Globo). Na longa sequência de cartas trocadas entre os dois, há uma interessante revelação: as alterações na natureza que a menina faz como personagem na obra (as torneiras da vaca Mocha) foram de fato sugeridas por ela nas correspondências.

Sua influência nas crianças de hoje

E esse mergulho na fantasia ainda vale para os dias atuais, mesmo que sem a interatividade de quando os leitores poderiam se corresponder com o autor. Com a devida mediação de questões trazidas das décadas de 20, 30 e 40, é possível ainda levar uma criança a esse lugar quimérico do Sítio. Não só pelo universo fantástico das obras, como também pelo comportamento das personagens em comparação ao comportamento incentivado para as crianças do século XIX – Pedrinho, Narizinho e Emília têm um papel preponderante nas histórias, são crianças com opinião própria, que pensam por si mesmas, muitas vezes chegando a questionar os adultos.

Patrícia Raffaini compara a obra de Lobato com outros clássicos da literatura infantil, como a série de Tom Sawyer e Alice no País das Maravilhas. Para ela, “são clássicos que não são fáceis de as crianças lerem hoje. Mas na obra dele ainda existe esse universo fantástico, com aventuras mirabolantes nas quais os personagens do Sítio passam. Acho que isso vai interessar as crianças". E completa: “A gente que é adulto nunca vai conseguir ler as obras com o olhar das crianças, então tem que fazer uma edição muito bem cuidada, primorosa, e colocar na mão das crianças, ver o que elas vão falar”.

Acesse a Letrinhas nas redes sociais