Cardápios para despertar o desejo de ler

 

Por Silvia Oberg

Livros grandes ou pequenos, grossos ou finos? Livro brinquedo, livro jogo, livro com texto ou livro de imagens? Com pistas para serem encontradas, com cartas enigmáticas para serem decifradas? Livros convencionais ou com figuras que saltam para fora das páginas e abas para movimentar personagens? Histórias em quadrinhos, prosa, poesia? Autores nacionais ou estrangeiros, famosos ou pouco conhecidos, contemporâneos ou que viveram há séculos? Livros que falam de bichos, de seres fantásticos ou de gente como a gente? Contos de fadas, de assombração, de aventuras, de magia, de realidade crua? Adaptações ou textos integrais? Em papel ou eletrônico? Quem escolhe: a criança ou o adulto? Se o livro está publicado com imagens coloridas, capa atraente e projeto gráfico cuidadoso, ele necessariamente tem qualidade?

 

Ilustração: Marcelo Tolentino

 

São muitas as perguntas que podemos fazer ao entrarmos em uma livraria ou biblioteca para escolhermos livros de literatura destinados às crianças. As estantes abarrotadas com obras de todo tipo podem provocar dúvidas sem fim. Afinal, como escolher diante de tantas possibilidades, em um universo de publicações heterogêneo quanto à qualidade, às abordagens e às propostas? Evidentemente, não há receitas que garantam escolhas certeiras ou bússolas que indiquem viagem segura pelos mares de livros, mas algumas referências podem nos ajudar nesta empreitada.

É importante lembrar que leitores não nascem prontos. A leitura, especialmente a literária, é ato complexo, nada simples, aprendido por meio de mediações variadas: do ambiente familiar, da escola, da cultura, do meio social, entre outras. Ao tomar contato com o texto literário, nem sempre o leitor encontra o imediatamente compreensível, o previsível, o conhecido. Na leitura, o leitor passa a fazer parte de um jogo no qual as palavras sugerem, revelam e escondem sentidos, como o gato e seu sorriso, em Alice no País das Maravilhas, que aparece e desaparece lentamente, começando pelo rabo e terminando pelo sorriso, que continua flutuando depois que o resto do corpo já foi embora. A literatura, muitas vezes, desestabiliza o leitor – lhe dá o sorriso sem o gato – desacomoda, emociona, faz refletir.

No processo de formação do leitor são necessárias várias ações e a escolha dos livros é parte essencial dessa construção. Qualidade e diversidade podem ser categorias valiosas a orientar a escolha de livros, seja para lermos aos nossos filhos ou para a montagem de acervos em espaços culturais e educativos. Qualidade de textos, ilustrações, projeto editorial, do livro como objeto que será experimentado pela criança. Diversidade de gêneros, temas, abordagens, autores, ilustradores, estilos, propostas editoriais. 

A idade e a maturidade das crianças também são referências importantes ao escolhermos livros, mas é preciso ter em mente que não basta ter a mesma idade para que os interesses sejam os mesmos, pois se há consenso em relação aos períodos do desenvolvimento humano, sabemos também que cada pessoa é singular. Assim, considerar a singularidade das crianças e oferecer opções variadas pode aumentar as chances de que o leitor encontre um livro com o qual se identifique.

Se as escolhas devem ser cuidadosas, avaliando para quem e por que se escolhe, é bom lembrar que, embora o acesso aos livros seja importante, ele não é suficiente para formar o leitor. O modo como estes livros chegam às crianças também é fundamental, ou seja, o mediador – seja ele alguém da família, o professor, o bibliotecário, o animador cultural – e suas ações também podem ser decisivos para que o leitor aceite (ou não) o convite à leitura.  Como o livro de literatura é apresentado ao leitor infantil? Como objeto lúdico, que pode ser manipulado, cheirado, tocado, olhado, lido e experimentado em muitas brincadeiras? Como objeto revelador, que instiga, emociona e cujos sentidos podem se entrelaçar às experiências de quem lê? Como possibilidade de descoberta do mundo e de si mesmo?

Com os adolescentes, a leitura literária também pode manter encanto e frescor se os livros não se limitarem a servir como estratégia para o ensino de história da literatura ou de conteúdos curriculares variados; se a literatura não ficar aprisionada em atividades tediosas de avaliação. Pois, o desafio não é apenas ler, mas gostar de ler, ler para além das obrigações escolares, ler porque se descobriu que a história, o poema, a imagem nos mobiliza, conta coisas sobre nós mesmos, nos vincula com a comunidade humana.

Frente ao desafio de selecionar livros para formar um conjunto variado e instigante de obras, sempre me deparo com a idéia de um cardápio de leituras para despertar (e manter!) o desejo de ler que tenha como carro-chefe a diversidade de sabores, a qualidade dos ingredientes a serem experimentados e combinados e o modo como poderão ser oferecidos para que um paladar literário vá se compondo. Se há diferentes leitores, diferentes interesses e diferentes desejos, vale à pena nos perguntarmos que cardápios de leituras oferecemos com nossas escolhas.

 

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Silvia Oberg é formada em Letras e doutora em Ciência da Informação (ECA/USP). Trabalhou na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato (SP), é especialista em literatura para crianças e jovens, professora e trabalha em projetos de formação de mediadores de leitura.

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