Brincadeira de bebê é coisa séria

 

Um pouco de fubá, uma peneira, um potinho, uma colher, um borrifador com um chá... Isso basta para se ter um tempo legal de brincadeira com um bebê. No Língua de Leite, o bebê é protagonista dos brincares. Ana Cancello, pedagoga idealizadora do projeto, carrega um longo histórico de oficinas e cursos nos quais orienta pais e educadores sobre a potência da criança em seu brincar.

 

 

As oficinas do Língua de Leite são vivências para bebês de 9 a 36 meses, com duração de uma hora. Mediado por Ana, diversos objetos viram oportunidades para que experimentações sensoriais aconteçam. As coordenações motora e fina estão presentes a todo momento, equilibrando um pote cheio de tinta, transportando algo de uma caixa para outra ou fazendo o movimento de pinça com seus dedos ao pegar um legume cozido, uma verdura ou uma fruta fresquinha.

Os materiais, todos comestíveis, possibilitam o bebê explorar de diferentes formas seus cinco sentidos: ouvindo uma música, cheirando um alecrim, observando as cores das tintas, apertando e sentindo a densidade de uma argila, a temperatura, se está seca ou molhada... E comendo tudo depois! As propostas são sempre recheadas de brincadeiras, descoberta e especialmente lúdicas para pais e filhos.

“Vejo a oficina também como uma forma de mediar os pais e mostrar como os bebês descobrem e trabalham através da imitação, num modelo em que o tempo todo a educação está presente, numa troca. Os pais que olham outros pais, os bebês que se relacionam com outros pais e outros bebês que nunca se viram, com o entorno, com o barulho, com o cheiro, um som de passarinho e o vento”, explica.

 

 

Até atingir esse formato de oficina, a educadora passou por diversas experimentações também. Ela iniciou sua carreira no teatro infantil e também atuou no universo de narração de histórias, participando de projetos em Sescs e outras instituições. Depois, cursou Educação na PUC e, nas escolas em que trabalhou, foi inspirada pela expressão das crianças. Em uma dessas instituições, a Escola Recreio, realizou com a professora Camila Storto um projeto sensorial para bebês, no qual faziam tintas naturais com farinha de trigo, anilina, sagu... “E comecei a me interessar vendo o grupo interessado, pesquisando, concentrados. A partir daí nunca mais larguei projetos sensoriais para bebês.”

Cada vez mais encantada com a ideia da criança livre na natureza, e inspirada na artista plástica Anna Marie Holm, a educadora criou uma instalação para crianças: uma casa com tendas de livros, roupas, discos. “Criamos uma casa até com um banheiro, em que a ideia era que as crianças pintassem com tinta guache tudo que elas quisessem, como numa performance.” Realizou essa instalação no Sesc Osasco e no Sesc Bauru com Larissa Orlow, mas queria aprimorar o material para o brincar seguro do bebê. “Os objetos ainda eram um pouco pesados para as crianças, a tinta guache não é própria para se colocar na boca ou passar no corpo. Passei a fazer pesquisas com tinta natural até chegar à linha em que estou hoje, e estou nessa pesquisa há dez anos.”

 

 

“É o suco da beterraba, do espinafre, do repolho roxo. Massinha integral, polvilho doce, verdura, fruta, macarrão de cenoura. É juntar toda essa exploração sensorial com a brincadeira e o mundo do faz de conta”, explica. Hoje, com o projeto Língua de Leite, Ana trabalha unindo sua pesquisa em tinta natural com as artes plásticas, a música, a dança, o movimento, o corpo e o contato com a natureza. Tudo voltado aos pequeninos do período "língua de leite". “São bebês que mamam, tomam mamadeira, que não têm dente ou têm dente de leite. Todos na fase oral”, conta.

A vivência faz parte do Casinha Dubem, uma reunião de várias ideias da educadora num centro educacional em que ficam também os projetos de narração de história, luz e sombra e arte sensorial para bebês. Lá, também cabem vivências para crianças maiores: “Quando eu tenho crianças um pouco maiores, de dois anos e meio, proporciono também uma brincadeira de faz de conta com caixas, panelinhas, bandejas. Crio cenários para essas brincadeiras acontecerem”, diz a educadora, que deseja levar a experiência para diferentes realidades e infâncias.

Com o projeto, ela ganha novas inspirações a cada nova oficina. “Os bebês são muito puros e verdadeiros, então cada descoberta deles me emociona. E ver os pais realmente entretidos com o bebê, o bebê protagonista da brincadeira... Emociona ver uma mãe vendo uma criança que nunca fica parada ficar um tempo brincando só com o fubá... E me emociona ver os pais descobrindo com a criança um material que se transforma, um bebê brincando e a mãe brincando junto, os dois tendo experiências”. Para Ana, o professor não vai para um lugar e trabalha naquele momento. O professor é professor o tempo todo. Por isso, complementa: “Todos os dias eu me emociono na educação”.

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