Biblioteca escolar: berçário de leitores

No Brasil, a maioria da população vê a biblioteca como um local de pesquisa e estudos. Isso é o que diz a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015. A partir dessa percepção majoritária de crianças e adultos, é possível gerar uma indagação a respeito do tema: se a biblioteca fosse entendida como um ambiente convidativo, além de um espaço para pesquisa e estudo, seria possível abarcar mais leitores?

É sobre essa aproximação com a literatura que a pesquisadora Renata Junqueira de Souza tem muito a falar. Ao investigar como a biblioteca escolar pode ser fator essencial na formação de leitores no período da infância, ela aponta vários caminhos para encurtar a distância entre os alunos e os livros: tirar a placa de silêncio, planejar atividades e horários para que haja interação entre os leitores, fundar clubes de leitura, permitir que a criança tenha autonomia na hora da escolha de um livro.

A pesquisadora ainda destaca a importância de se fortalecer a parceria entre o professor da sala e o bibliotecário, que deve sair do lugar comum de ser um “docente encostado na biblioteca”. É fundamental capacitar esse profissional.  “Quem atende na biblioteca escolar tem que ser leitor, gostar de ler e compreender a importância da leitura e da formação do leitor”, diz a pesquisadora, que é livre docente em metodologia da língua portuguesa, foi coordenadora do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE).

Na conversa a seguir, ela compartilha suas experiências na área da educação, com ênfase em ensino-aprendizagem, sempre trabalhando com temas como formação de leitores e estratégias de leitura.

 

Como e quando deve ser feita a inserção da literatura na vida da criança?

Antes de falar do contato com a literatura, independente do livro ser literário ou não, a relação deve começar desde o útero. Em minha última atividade de pesquisa, que durou oito anos pela Fapesp, me assustei nos quatro primeiros anos, em que os meninos do quarto ano de escolas de Presidente Prudente, Marília e Assis (um grande corpus de crianças) achavam que cada página do livro era um capítulo. O livro que estava trabalhando era A roupa nova do imperador, de Hans Christian Andersen. Os atos e gestos embrionários acostumam o bebê a esses protocolos de leitura. Quando o livro já está junto com o brinquedo o bebê vai descobrindo o protocolo de leitura. Hoje, frequento uma creche em que montamos uma bebeteca no ano passado. Um espaço modesto, baixinho, com tapete e alguns títulos. Eu me surpreendo muito com os bebês. Tem sido muito bom o trabalho com as crianças. A partir de então eu passei a praticar a teoria que estou tentando desenvolver: vou trabalhar o modal, como que vou fazer a interação, temporal, quanto tempo vou fazer essa interação. Tem o mito que criança não consegue se concentrar por muito tempo. Comecei com 5 minutos e hoje já são 12 minutos de concentração na literatura. Como tem muito poucas pessoas falando sobre isso, ainda não tem a teoria sobre isso.

 

Há gêneros ou uma classificação por temas específicos de livros que crianças e jovens podem ler em seu período de formação como leitores?

Sobre os gêneros, eu particularmente utilizo os discutidos por Charlotte Huck em seu livro: Children’s literature in Elementary School (McGraw-Hill), em que ela faz uma linha de sequência dos gêneros, como uma linha do tempo. Os gêneros vão sendo introduzidos na vida da criança como uma evolução que acompanha o seu amadurecimento. Por exemplo: livros ilustrados, leituras tradicionais (folclore, fábula, mitos), fantasia, ficção científica, poesia, realismo. Os gêneros podem ser ordenados para fazerem parte de cada fase da criança. Essa diversidade ajuda a formar tanto o leitor como o escritor.

 

Qual a importância da criança e do jovem associarem a leitura a um hábito de prazer? 

São vários modos de ler que tem que estar na sala de aula e não só a leitura a fim de cumprir meta, responder questionários. O professor passa batido no prazer porque ele não está no currículo. É o prazer que vai levar o leitor a desenvolver essa criticidade. A importância do preenchimento interior, me transportar para a vivência do personagem. Compreender a mim mesma. Muito da literatura infantil vai ajudar na vida da criança.

 

Como a biblioteca escolar é fator fundamental na influência e formação do leitor infantojuvenil?

A biblioteca escolar deve estimular o gosto. O responsável pelo espaço deveria trabalhar diretamente ligado com os professores em sala de aula. Em dois aspectos: fornecendo livros para os conteúdos de sala de aula e planejando um trabalho na própria biblioteca para que tais conteúdos sejam incorporados e compreendidos. Exemplo: se o professor está trabalhando poesia, o responsável pela biblioteca deve selecionar os títulos de poesia para o docente e, nos momentos de leitura coletiva no espaço, trabalhar o texto com leitura em voz alta ou com contação de história.

 

Como dever ser o acervo e sua disposição na biblioteca escolar para contribuir com a formação do leitor? 

As crianças devem ver no responsável pela biblioteca escolar como aquele que auxilia na escolha sem uma atitude mandatória. Muitos desses professores bibliotecários, selecionam o que eles acham que é para aquela faixa etária – e a criança não têm aceso nem à estante. Se o bibliotecário não deixou a criança pegar um livro, ele não deu autonomia para a criança.  Se você deixa a criança pegar o livro, pode acontecer duas coisas: ela mesma achar que o livro não é para ela e voltar para pegar outro ou pode acontecer de ela querer ler as 300 páginas e, assim, ir se superando. Isso é um processo para  a formação do leitor.

 

De acordo com a Pesquisa do Retrato da Leitura no Brasil de 2015, o estudante é o perfil predominante do frequentador da biblioteca (65%), enquanto que os que não estão mais estudando somam a porcentagem de 22% de frequentadores. Ou seja, após concluir os estudos, a população brasileira reduz sua frequência às bibliotecas. Afinal, ainda segundo os resultados, 65% da população entende que a biblioteca é um lugar para estudo ou pesquisa e apenas 37% acha que é um local para ler livros por prazer. Que premissas devem ser referenciais para trabalhar a mudança desse cenário? 

Tirar a placa de “silêncio” das bibliotecas escolares. Planejar horários e atividades para que haja interação entre os leitores. Fundar clubes de leitura, discussões sobre as obras lidas. Tornar o espaço da biblioteca escolar agradável, gostoso de frequentar. E capacitar a pessoa que vai atender esses alunos. Quem atende na biblioteca escolar tem que ser leitor, gostar de ler e compreender a importância da leitura e da formação do leitor.

 

Qual a importância de trabalhar a convivência com a biblioteca escolar para que seja um espaço de identificação e prazer?

Tenho estudado e escrito sobre o espaço da biblioteca escolar. Falamos em mediadores de leitura (pais, bibliotecários, professores etc.), mas a mediação vai além. Acredito que o espaço pode mediar a leitura. Como exemplo, cito o CELLIJ/BIP (Centro de Estudos em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil/Biblioteca Infantil de Prudente), de Presidente Prudente (SP), que fica dentro da Unesp. Lá recebemos as crianças na parte de fora do prédio e elas já fazem uma atividade de aquecimento, entram na contação de histórias e depois vão para dentro da BIP, que está toda decorada para fazer a interação com o leitor que está fazendo essa visita. Preparar o espaço e acreditar que ele pode fazer também a função da mediação é uma proposta da biblioteca. Por exemplo, decorar a biblioteca com o autor do mês. É um lugar de pesquisa? Sim, também é. Por isso tem que planejar horários para que atividades de interação com o leitor aconteçam.

 

Ainda segundo a pesquisa do Retrato da Leitura no Brasil aponta que 19% dos estudantes dizem que os professores não indicam livros. Vale mencionar que os números da pesquisa são estimados a partir de uma amostragem de 5012 entrevistas feitas a população brasileira de diversas regiões.  A partir de sua experiência com professores, esses números condizem com a realidade que você vivencia? 

Então, eu proponho a reflexão: será que isso não revela algo nas entrelinhas? Não seria esse professor um não leitor? Temos coordenado uma pesquisa grande com quatro universidades e o perfil leitor de alunos de Pedagogia e Letras por serem eles os professores que formarão leitores. Os resultados são alarmantes: lê-se a bíblia, autoajuda e não há repertório de literatura. A pesquisa de pós-doutorado da professora Elianeth Hernandes, da Unesp de Marília, trabalhou com os egressos desses cursos e mostrou que eles não são leitores, portanto como incentivar o gosto e formar leitores?

 

Ainda sobre os 19% de estudantes que dizem que os professores não indicam livros, como você avalia o posicionamento desse grande número de educadores que não estimulam a leitura? 

Em algum lugar, o elo se desmancha, pois as pesquisas, as nossas, as do MEC e o Retrato de Leitura, têm mostrado cada vez mais que, mesmo estando na escola, os alunos leem mais em casa. Eu atualmente tenho trabalhado com bebês (pesquisa de produtividade do CNPQ) e tenho visto que podemos começar nessa fase a criar o gosto, o interesse. Penso que o problema está na transição do ensino fundamental I para o II, onde ainda se cobra resumo de leitura, prova do livro. Livros que muitas vezes o próprio docente não leu. Essas práticas devem mudar e passar a ter clubes do livro, círculos literários e momentos de letramento argumentativo. Essas são ideias que eu penso que muito estimulariam o gosto pela literatura. E, claro, uma parceria entre docentes e bibliotecário (ou responsável pela biblioteca escolar) deve se fazer presente o mais rápido possível. Para isso os gestores têm que iniciar essa aproximação, valorizando principalmente a autoestima desse docente que foi “encostado” na biblioteca escolar. 

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Ilustração Marcelo Tolentino