As muitas Emílias criadas pelos ilustradores

 

Emília, a personagem do Sítio do Picapau Amarelo que mais conquistou o carinho dos leitores, sequer tem coração. Tamanha controvérsia, diria a boneca de pano. Talvez por causa de seu jeito contestador, de sua personalidade forte e por deixar às vistas as próprias imperfeições, ela tenha se tornado a preferida de muitos leitores do universo lobatiano. Mas como é que a boneca de pano, “feiosa”, “com seus olhos de retrós preto e as sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma cara de bruxa”, foi retratada ao longo dos tempos e se firmou no imaginário nacional?  

Até ganhar a paleta de vermelho, laranja e amarelo, como ficou conhecida por muitas gerações, principalmente aquelas que conheceram as aventuras do Sítio pelas adaptações para a TV, Emília foi criada em preto e branco, com jeito de bruxinha de pano carregada por sua dona, Narizinho. Em muitas criações, ela surge com trajes nada alinhados, cabelo despenteado. Ao longo dos anos, as características físicas da personagem tagarela vão ganhando mais elementos, assim como ela vai também conquistando mais protagonismo nas narrativas. É retratada nas imagens como bruxinha de pano, boneca de porcelana, menina em miniatura. 

 

Crédito: Biblioteca Monteiro Lobato e Magno Silveira

 

Mudança é inclusive um tema abordado pela criaturinha inventada pelo escritor paulista, que valorizava as ilustrações das histórias e escolhia os ilustradores dos livros. Em Emília no país da gramática, ela comenta: "Se tudo na vida muda, por que as palavras não haveriam de mudar? Até eu mudo. Quantas vezes não mudei esta carinha que a senhora está vendo? (...) ou antes, eles mudam a minha cara. (...) Estes diabos que desenham a minha figura nos livros. Cada qual me faz de um jeito, e houve um tal que me fez tão feia que piquei o livro em mil pedacinhos". 

A partir da pesquisa de Magno Silveira, colecionador e artista gráfico que se debruçou sobre a obra de Lobato para investigar a iconografia dos livros – confira aqui o vídeo sobre a exposição Ilustradores de Lobato que organizou em 2015 no Sesc São José dos Campos –, foram selecionados dez ilustradores do século XX, aqueles escolhidos pelo próprio escritor, além de dois contemporâneos.

Saiba mais na linha do tempo a seguir.

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1920 – Voltolino

Voltolino (1884-1926) foi o primeiro a ilustrar os livros de Lobato, inspirado no art nouveau, imprimia estilização elegante nos desenhos. A capa de A menina do narizinho arrebitado, por exemplo, recebeu o adorno de uma moldura com os peixes do Reino da Águas Claras. À época, Narizinho tinha cabelos claros e Emília era uma boneca com pouco cabelo e braços e pernas arredondados, dando a impressão de estarem com bastante enchimento. O traje também não era muito elaborado, apenas composto por um pedaço de tecido reto. Não se sabia ainda que a personagem ganharia tanto protagonismo nas aventuras lobatianas.

Crédito: Biblioteca Monteiro Lobato e Magno Silveira

 

1924 – Kurt Wiese

O alemão Kurt Wiese (1887-1974), que viveu durante três anos no Brasil, ilustrou cinco livros de Lobato, inclundo duas obras externas ao universo do Sítio do Picapau Amarelo, como O Garimpeiro do Rio das Garças e Jeca Tatuzinho. Levou a arte sequencial, a dos quadrinhos, para a obra lobatiana, captando o movimento em alta velocidade. Para Wiese, Pedrinho tinha cabelos claros. Emília foi criada como uma pequena boneca, bem estofada, com poucos fios de cabelo e apenas um saiote.

 

Crédito: Magno Silveira

 

1928 – Nino

Sebastião de Camargo Borges (1897 - ?), o Nino, foi bastante influenciado por Walt Disney. Apesar da filiação artística marcante do criador do Mickey, entretanto, o ilustrador paulistano preservou um estilo original nos seus desenhos. Com um traço vivo, ele cria uma Emília com um rosto pouco expressivo, com articulações de braços e pernas aparentes. O cabelo curto com uma franja alongada cobre o que poderiam ser os olhos. A paleta de cores da boneca é marcada por tons terrosos. 

Crédito: Magno Silveira

 

1932 – Jean G. Villin

O artista francês Jean G. Villin (1906-1979) chamou a atenção de Lobato pela forma como retratou aspectos tipicamente brasileiros em seus desenhos. Foi a partir de suas ilustrações que os leitores dos livros do Sítio puderam conhecer o espaço rural onde se passavam aquelas histórias. Pedrinho, ao contrário daquele criado por Wiese com cabelos claros e roupa de marinheiro, representava mais um menino da roça, de calção remendado. A Emília ganhou braços e pernas compridos e finos. Ficou mais ajeitada, trajava um vestidinho arrumado, sapatos e meias. Perdeu um pouco de sua identidade de boneca, concentrada apenas na finura de seus membros, parecia uma menina em miniatura.

Crédito: Biblioteca Monteiro Lobato e Magno Silveira 

 

1934 – Belmonte

Belmonte (1897-1947), artista, jornalista e historiador, levou às ilustrações dos livros de Lobato o estilo art déco. Com um traço preciso e composições ricas em detalhes, visível, por exemplo, nas estampas das roupas, a Emília que cria é fidedigna à informação de Dona Benta sobre sua altura e mede aproximadamente dois palmos. Pequenina, preserva braços e pernas finos, tem sobrancelhas arqueadas e expressivas, cílios destacados e o cabelo com fios desordenados. 

 

Crédito: Magno Silveira

 

1937 – Raphael de Lamo 

O argentino Raphael de Lamo ilustrou apenas um livro de Lobato, Histórias de Tia Nastácia. Mesmo assim, conseguiu registrar bem o seu estilo. Na capa de cores fortes, deixa claro as suas referências do art nouveau. As técnicas usadas para os desenhos foram várias, do pontilhado feito com bico de pena às manchas mais marcadas do pincel. Dona Benta tem inúmeras marcas de expressão no rosto. Já Emília tem traços simples, cabelo arrumado de corte chanel, vestido com laços e meias acima do joelho. A depender de toda essa elegância, bem poderia se passar como uma boneca de porcelana.

Crédito: Magno Silveira

 

1939 – Rodolpho

Rodolpho Marques de Sousa ilustrou O Sítio do Picapau Amarelo, em 1939, e nesse mesmo ano trabalhou com Belmonte para criar as ilustrações de O Minotauro. Seguindo o estilo de seu parceiro de trabalho, também tinha influências do art déco. Prezava pelos detalhes, mas seus desenhos eram menos rígidos, tinham mais movimento, como o da turma na porteira do Sítio. Nas cartas destinadas a Lobato, foi alvo de críticas dos leitores, que definiam seus personagens como “feios”. O acabamento não realista dos pés, por exemplo, pode ter contribuído para tal estranhamento. A Emília lembra a de Belmonte, a roupa tem a mesma estampa e o cabelo arrepiado também continua o mesmo. A diferença é que não tem um rosto com tantos detalhes, como cílios e bochechas em destaque. 

Crédito: Magno Silveira

 

1941 – J. U. Campos

J. U. Campos (1903-1972), pintor e artista gráfico, desenvolveu sua técnica como ilustrador no jornal The New York Times, durante uma temporada de estudos e trabalhos que passou nos Estados Unidos. Essa experiência no país estrangeiro evidenciou o traço publicitário de seus desenhos que, mais tarde, o colocaram em posição destacada na moderna arte da propaganda em São Paulo. Além disso, foi em solo americano que o desenhista conheceu Monteiro Lobato, que trabalhava como adido comercial no Consulado Brasileiro em Nova York. Lá, Campos se casou com a filha de Lobato, Martha. O ilustrador retornou ao Brasil em 1930, quando, enfim, passou a ilustrar os livros de Lobato. Sua Emília tem rosto de boneca, com cílios e bochechas bem marcados.

Crédito: Magno Silveira

 

1947 – André Le Blanc 

O haitiano André Le Blanc (1921-1998), educado nos Estados Unidos, dominava a linguagem de histórias em quadrinhos e foi professor no Museu de Arte Moderna do Rio. Ilustrou as obras completas de Lobato, com exceção do título Doze Trabalhos de Hércules,e consagrou a fisionomia dos personagens. A Emília novamente parece uma menina e se difere de Narizinho unicamente pelos braços e pernas fininhos. O cabelo ainda é desalinhado, mas não se pode mais chamar a boneca de feia.

Crédito: Magno Silveira

 

1948 – Augustus

Augustus (1917-2008), como assinava Augusto Mendes da Silva, ilustrou apenas capas de Lobato. Materializou um desejo do escritor de unificar a linguagem das capas da coleção. Dentre as novidades que trouxe para as ilustrações, estão: o estilo pop e as cores puras e complementares em uma composição vibrante. A Emília de Augustus mais parece uma menina do que uma boneca. Quando comparada com Narizinho, a única diferença entre as duas é o tamanho, Emília é pequena. Fora isso, não há nada que a identifique como boneca e se vista isoladamente, poderia ser facilmente confundida com Lúcia.

Crédito: Magno Silveira

 

2014 – Wagner Willian 

Wagner Willian, artista visual e escritor, não ilustrou especificamente a obra de Lobato, mas teve a oportunidade de criar a Emília no livro Uma biografia não autorizada da Marquesa de Rabicó, escrito pela cearense Socorro Acioli. Ele explica que a ideia era ilustrar a Emília em suas diferentes versões e, no final, criar a sua própria. Sendo assim, visitou os desenhos mais antigos da personagem e aproveitou as diversas faces da boneca para que ela também tivesse por meio das imagens a sua história contada. Mesmo que não autorizada. 

Crédito: Wagner Willian

 

2019 – Lole 

A carioca Lole foi a ilustradora convidada pela Companhia das Letrinhas para dar uma nova cara à Emília na edição recém-lançada de Reinações de Narizinho. Ela conta que a boneca foi, claro, a personagem mais difícil de idealizar: “Não foi tarefa fácil criar a Emília, fiz vários testes até chegar à versão final” – saiba mais sobre o processo criativo de Lole para o livro aqui. Isso porque já existia uma imagem da boneca muito consolidada na cabeça das pessoas, inclusive na da artista, que, quando tentava criar uma nova versão, não conseguia imaginar caminhos alternativos. Nos primeiros testes, a personagem parecia uma adolescente ou, então, algo próximo de uma história em quadrinhos, em estilo cartoon. 

Crédito: Lole

 

Como referência, recorreu às adaptações mais antigas feitas para televisão e, gradativamente, foi chegando ao resultado esperado. Mas, ao contrário da personagem na série televisiva, que naturalmente aparentava ser uma pessoa, ela queria evidenciar o aspecto de boneca, do pano, do enchimento e dos fios de costura soltos, como era comum nas primeiras ilustrações de Emília.

 

Nas fotos, respectivamente, Dirce Migliaccio, a primeira Emília da rede Globo, em 1977, sua substituta Reny de Oliveira, de 1978 a 1982 e Suzana Abranches de 1983 a 1986

 

Ao mesmo tempo, pretendia que o desenho também trouxesse elementos contemporâneos. No final, os cílios longos, o rosa nas bochechas e o cabelo com franja escolhidos por Lole são os traços que trazem vestígios das atrizes que interpretaram Emília. Apesar disso, ela fugiu da paleta tão conhecida (vermelho, laranja e amarelo) e deu uma renovada na cabeleira da boneca. Seu figurino tem um caimento tradicional, mas a mistura de estampas remete à atualidade.

Crédito: Lole

 

 

 

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