As jornadas emocionais de uma garota de 11 anos

 

A peça O dia em que a minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas Ilhas Maldivas, inspirada em livro homônimo lançado pela editora Seguinte, transforma os pensamentos, sentimentos, aflições, dúvidas e hesitações de uma garota de 11 anos, Mia, em verdadeiras jornadas emocionais, bem típicas da fase delimitada pela chegada à adolescência. Em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, o espetáculo marca a estreia da experiente roteirista Keka Reis, autora do texto, no teatro, e da premiada atriz Thais Medeiros na direção. 

 

Bereba (Thomas Huszar), Mia (Tutti Pinheiro) e Jade (Angela Ribeiro) em cena da peça

 

Sobre a idealização desse projeto teatral, as criadoras contam que também existiu um dia especial. "Fui ao lançamento [de O dia em que minha vida mudou...], e ela fez um autógrafo em que indicava que teríamos muitos projetos juntas pela frente. Quando acabei de ler o livro, disse: ‘Este livro dá teatro’. Aí logo abriu um edital, nos inscrevemos e ganhamos". Foi o início do encontro entre duas “artistas inquietas, intensas, falantes”, o que reverberou fortemente na montagem.

[Para saber mais sobre o livro, leia Nem criança nem adulto: no meio do caminho]

Keka Reis já escreveu, produziu e dirigiu programas televisivos, e atua como roteirista desde 2006, escrevendo para a televisão. Em 2017 lançou a obra, que esteve na lista dos mais vendidos da Livraria da Vila e foi finalista em 2018 do Prêmio Jabuti na categoria de Melhor Livro Infantojuvenil. Thaís Medeiros já tem experiência no teatro: é atriz, produtora e trabalhou como assistente de direção e preparadora de elenco. Fundou em 2001 a premiada Companhia Delas de Teatro.

Juntas, uma na dramaturgia, outra na direção, elas contam a saga de Mia, uma garota de 11 anos, aluna do 6º ano do Ensino Fundamental. Certo dia, ela encontra um bilhete anônimo debaixo de sua carteira. Abalada pela possibilidade de o autor ser Bereba, seu melhor amigo, a menina se tranca no banheiro da escola para refletir sobre a situação naquele cubículo, numa espécie de jornada emocional, construindo e reconstruindo seus pensamentos e suas sensações por meio de flashbacks e outras interpolações cronológicas.

"Não adianta a gente ficar falando, a gente tem que mostrar essa intensidade. Então de cara me pareceu que essa encenação teria que ser muito ágil, correspondendo a esses milhões de pensamentos por segundo", conta a diretora. O enredo traz temas como mudanças hormonais, físicas e emocionais, pertencimento, despertar do amor, novas responsabilidades escolares, despedida da infância, busca pela verdadeira identidade, novos paradigmas nas relações familiares e a importância das amizades e do grupo – tudo ao mesmo tempo, como é característico da intensidade da adolescência.

Para acompanhar esse ritmo, as cenas guiam e transportam o público em outros tempos e espaços, com um elenco que se reveza na interpretação dos papéis com todos os seus elementos como voz, movimentação e coreografia, numa encenação ágil e com as estruturas do jogo cênico reveladas. "Eu tinha que fazer uma proposta muito divertida para cativar o público infantojuvenil. Teria que ser algo que só pudesse ser feito no teatro, então muito apoiado nos recursos dos atores, como a voz, o corpo, o jogo entre eles, e confiar que a história era boa o suficiente e por isso atingiria o público", conta a diretora sobre a valorização do trabalho dos atores na peça. “E o público se acostuma com a brincadeira."

Essas ações se tornaram soluções criativas para a dramaturgia de Keka, já que a adaptação, por ser em primeira pessoa com uma protagonista de poucas ações, mesmo com um vai-e-vem de lembranças, pensamentos e suposições característicos da personagem aflita, poderia soar menos intensa no teatro do que na literatura. “Isso poderia ficar muito chato no teatro, além de ficar muito literário, e a ideia não era fazer um monólogo. Então, nesse sentido, dá pra dizer que peça é quase uma nova produção, porque, apesar de ter as histórias dos livros, eu tive que inventar histórias para outros personagens", revela a autora.

A dramaturga exalta a participação da direção e do elenco na peça, que teve cenas criadas pelos atores sozinhos durante os ensaio depois de pesquisas orientadas pela diretora: "Essa adaptação, os atores e o que a gente vê no palco têm a espinha dorsal toda do texto que eu criei, mas eles passaram por um processo com a direção da Thaís, tendo um trabalho de improviso, e colocaram muitas coisas em cima. Eles contribuíram muitíssimo! A história está lá, a história que eu escrevi, mas com muito trabalho em cima a partir dessa direção impecável e maravilhosa da Thaís, que tem uma sensibilidade absurda para trabalhar com os atores, de entender e interpretar o texto e colocar aquilo no palco.”

O dia em que a minha vida mudou por causa de um chocolate comprado nas Ilhas Maldivas

Onde: Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, Pinheiros)
Quando: de 10 de março a 14 de abril, às 15h e às 17h
Quanto: R$ 17,00 (inteira), R$ 8,50 (meia entrada) e R$ 5,00 (credencial plena do Sesc); grátis para crianças até 12 anos
Classificação etária: livre (recomendação: a partir de 6 anos)

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