As histórias que a Fafá conta

 

“Ah! Eu quero compartilhar, mais gente precisa conhecer esta história.” Esse é o sentimento que precisa existir para que uma história seja compartilhada pela Fafá, como é mais conhecida a atriz Flávia Scherner, do Fafá Conta Histórias, um canal do Youtube com cerca de 66 mil inscritos, ávidos pelas narrações, curiosidades e dicas de livros e outras histórias da tradição oral dos mais de 200 vídeos.

 

 

O canal foi finalista do prêmio Retratos da Leitura do Instituto Pró-Livro na categoria mídia. Desde a criação do canal em julho de 2015, Flávia o mantém como um canal independente, sem nenhuma empresa ou mídia com apoio direto. Ao selecionar as histórias que conta ali, busca as que fazer rir e também emocionar. Seleciona ainda aquelas que trazem assuntos difíceis, como perda e morte.

Para saber mais sobre esse canal cheio de histórias, leia a entrevista a seguir!

 

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Como você era na infância? Era uma criança leitora? Tinha algum autor ou obra favorita? A contação de histórias fazia parte da sua infância?

Flávia Scherner – Eu gostava muito de ler, tenho lembranças de leituras feitas junto da minha mãe ou do meu pai. Aquela coleção Cão e gato tem alguns livros que me foram muito marcantes na primeira infância, como O pote de melado, do Eliardo e Mary França. Tinha O vento. Eu e minha irmã sabíamos de cor várias passagens e alguns livros inteiros dessa coleção, e até hoje a gente faz alguma referência a esses livros. A gente tinha o costume de ler em família, meus pais liam pra gente. Depois, quando eu já era uma leitora autônoma, gostava muito de ler os livros que eu mesma escolhia. Os da escola nem sempre eu curtia, mas alguns foram marcantes, como A alegre vovó Guida que é um bocado distraída, da Tatiana Belinky. Foi uma das primeiras histórias que eu contei no canal. Na adolescência também gostava de ler, lembro que, na praia, ficava dentro de casa querendo ler. E meu pai sempre foi um exemplo de leitor, eu me lembro que a gente em casa solicitava a atenção dele por algum motivo e, se ele estava lendo, falava: “Ah, espere aí, deixe só eu terminar essa página”. É uma coisa comum até hoje. Meu pai também exemplificava as coisas com histórias. E minha mãe sempre foi criativa, então ela inventava [histórias]. Ela foi responsável por me tornar uma contadora de histórias profissional. E sobre a contação de histórias, quem sempre contou muita história na família foi meu avô paterno. Antes de dormir, ele colocava os netos na cama e sempre contava histórias de Pedro Malasartes ou outras da tradição oral. Ele sempre tinha algum causo pra contar... São minhas lembranças mais fortes, não estão ligadas a leitura de um livro, mas a história narrada. 

 

 

Como você escolhe as histórias que traz no Fafá Conta?

Flávia Scherner – A curadoria é feita por mim. Primeiro, tento ler a história, ouvir. A maioria vem dos livros, ainda que tenha diversificado mais ao trazer histórias da tradição oral. Mas primeiramente elas têm que me divertir, me tocar de alguma forma, eu tenho que gostar da história. Não vou dizer que amei todas as duzentas histórias que contei no canal, mas são histórias que, quando eu conheci, falei: “Ah! Eu quero compartilhar, mais gente precisa conhecer essa história”. Então esse é o principal sentimento. E histórias, também, que ajudem a trazer diversidade e ampliar o debate. Estamos falando de crianças, mas já dá pra colocar uma sementinha ali no coração e na cabeça delas, contribuir para formar pessoas mais críticas. Também têm histórias que vão apenas divertir e fazer rir, outras que podem emocionar. Lidar com assuntos difíceis, como morte e perda.

Tem escritores, principalmente independentes, que me mandam seus livros e pedem pra que eu conte suas histórias. Algumas editoras me enviam livros num esquema de parceria. Eu tenho buscado menos esse tipo de parceria, não quero me comprometer a falar de livros que eu não necessariamente gosto ou de livros em troca do próprio livro. Nem todo livro que achei incrível e gostaria de contar consigo transpor para a linguagem do canal: alguns são muito longos e muitos deles são livros-álbum, em que as ilustrações contam muito e contam coisas que não estão no texto, então quando transporto isso perde muito da força da história.

Já tive vontade, quando acabei de contar a história, de falar em vídeo: “Agora sai dessa internet e vai brincar!”. Mas não sei se é uma criança que tá em tratamento, como eu sabia que tinha uma em tratamento contra uma leucemia e assistia a minhas histórias num hospital. Essa criança vai me ouvir e o que ela mais quer é sair dali e ir brincar. Não quero ser a que estimula a criança a ficar horas internada vendo coisas na internet, mas também não posso ser aquela que pauta todas pela mesma régua, como se fossem todas em condições iguais. Então tenho que me cuidar da forma como me relaciono com elas e na própria seleção das histórias.

 

E quanto a contação de histórias ao vivo, fora das telas do computador e do smartphone? Quais são as diferenças que você nota nos dois formatos?

Flávia Scherner – No canal, as histórias têm um ritmo dado pela edição, às vezes com sonoplastia, que eu não tenho ao vivo. Nem sempre tem o tempo de contemplação de uma história. Eu crio um silêncio maior na história ao vivo do que no canal, porque lá, se eu abrir um buraco de silêncio, e pode ser coisa rápida, de segundos, posso perder a criança para outro vídeo. Ao vivo tem uma troca, faço uma contação de histórias mais interativa. No canal, as histórias são geralmente contadas como estão no livro, no texto, para facilitar a própria produção. Ao vivo eu preciso estudar as histórias, me apoderar delas, existe um tempo maior de preparo para entender em que momentos posso fazer essas interações em que a criança pode contribuir com a história. As apresentações têm perto de meia hora, um tempo bom para prender a atenção da criança, então tenho que pensar em histórias que se conversem e criar um fio condutor entre as histórias que vou contar (geralmente umas três nesse tempo). Então há um processo bem diferente de pensar nas histórias que vou contar ao vivo, sem o livro.

 

Dentre as tantas histórias que você já narrou, qual é a que mais cativante pra você? E qual você viu cativar o público de maneira mais intensa?

Flávia Scherner – Não sei se é a que mais me cativa, mas é uma que eu a-do-ro contar, conto desde que comecei e ela não me enjoa, me divirto cada vez da mesma maneira, como se estivesse contando pela primeira vez: a história é O caso do bolinho, da Tatiana Belinky. Eu adoro contar essa história ao vivo, porque cada vez surgem novas reações das crianças e do público em geral, e é uma história que não tem um final feliz e termina de uma maneira abrupta e "aaaah". Outra da qual não me canso é A casa assombrada, da Kazuno Kohara, sobre uma bruxa que vai morar numa casa que é habitada por fantasmas. Ela caça os fantasmas, lava, põe pra secar e os utiliza porque parecem tecidos ‒ viram cortina, lençol, cobertor. Durante a contação, faço de uma maneira que as crianças vão me dando elementos como "Esse fantasma pode virar o quê?" e isso é muito legal pelo quanto você pode ressignificar as coisas e dar uma outra cara pro medo. Gosto muito dessa história também, é muito criativa.

E a que eu vejo cativar o público de maneira mais intensa, ultimamente com essas contações de histórias da tradição oral, é uma história bonita chamada O pássaro e o rei. Eu já contei essa história no canal também, é curta, fala sobre liberdade. E tem uma outra, que, na verdade, são "outras": Sete histórias para sacudir o esqueleto, da Angela Lago. Nessas histórias de suspense e de morte, sinto as pessoas ficarem muito comigo durante a história, acompanharem e ficarem atentas querendo saber onde aquilo vai dar. São geralmente histórias muito divertidas, gostosas de contar. Veja bem, como boa libriana, tenho uma dificuldade de decidir e dei duas respostas para cada uma dessas perguntas!

 

 

O que a Fafá Conta significa para a Flávia Scherner? O que a Fafá te ensinou e o que ela precisou aprender?

Flávia Scherner – Novos caminhos, novas possibilidades. Muito, muito, muito aprendizado. Aprendi e tenho aprendido cada vez mais sobre literatura infantil, que era algo que desconhecia logo que iniciei este trabalho. Tenho sorte de ter encontrado pessoas muito incríveis logo no começo pra me mostrar um rumo, como a Daisy do blog A cigarra e a formiga. Descobri mais sobre infância, aprendi a acreditar no potencial das crianças. Fui me conhecendo melhor também, me tornei uma pessoa muito mais empática, com a cabeça muito mais aberta para outras causas que desconhecia e me tornei mais engajada em determinados assuntos. Estou gostando muito do que a Fafá tem me ensinado.

 

E quais são os futuros passos da Fafá Conta? O que você ainda quer realizar enquanto contadora de histórias?

Flávia Scherner ‒ Desde a criação do canal, tenho muitas ideias de outros tipos de conteúdo. Gostaria também de ter um aplicativo da Fafá, assim eu não dependo só do Youtube. Então gostaria de ter um aplicativo só com os vídeos da Fafá, sem publicidade. Dentro dele, os adultos poderiam comprar os livros se gostarem da história, teriam os textos que estão no meu blog, onde faço algumas resenhas de livros, dicas e tudo o mais. Conseguir fazer desse trabalho uma espécie de portal com diversos assuntos relacionados à infância, que pais, professores e pessoas interessadas em infância e educação possam encontrar ali diversos materiais de apoio e saibam que ali também tem, para as crianças, um conteúdo legal. Para tudo isso precisa de dinheiro, então gostaria muito que a Fafá conseguisse um apoio financeiro, empregar outras pessoas e me pagar também, porque hoje em dia isso é um investimento meu mesmo, de tempo e conhecimento. Como contadora de histórias, quero poder sair contando histórias em outros cantos deste mundo, não apenas no Brasil. O canal tem um alcance no planeta, tem gente no Japão, Austrália, Nova Zelândia, Hong Kong, Itália, França, Canadá...

 

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