Árvores que habitam muitas infâncias

Ipê, macieira, mangueira, jabuticabeira, goiabeira, abacateiro... Quando revisitamos nossos primeiros anos de vida, existe sempre alguma árvore por detrás das histórias de desafiadoras escaladas, deliciosas frutas arrancadas direto dos galhos e das brincadeiras com amigos. Elas dão as raízes de boas lembranças e, às vezes, ficam eternizadas nos livros.

É o caso do clássico A árvore generosa, em que o norte-americano Shel Silverstein abordou a relação entre um menino e uma árvore. Publicado pela primeira vez em 1964, foi traduzido no Brasil pelo escritor mineiro Fernando Sabino, autor do também clássico O menino no espelho. O livro acaba de ser integrado ao catálogo da Companhia das Letrinhas.

Com texto curto e certeiro e ilustrações em preto e branco, marcadas pela simplicidade das linhas, o livro convida o leitor a refletir sobre as ações muitas vezes impensadas do homem diante da generosidade da natureza. É difícil não sentir um certo amarguinho no final da leitura. 

Assim como na provocadora história de Shel Silverstein, as árvores sempre forneceram à infância seus frutos, suas folhas, sua sombra. São balanço, alimento, brinquedo e “aeroporto de passarinhos”, como define a escritora Heloisa Pires Lima. Em cada galho, diz a escritora-ilustradora Patricia Auerbach, há um mundo inteiro para se conquistar.

Para ampliar a reflexão sobre a importância da natureza na infância, hoje um desafio para as crianças que vivem nas cidades, convidamos oito autores a revisitar na memória as árvores que habitaram suas meninices.

Elas são protagonistas nas lembranças de Flavio de Souza, que, sempre que vê um chapéu-de-sol, retorna à sua infância no litoral de São Paulo. Já Ilan Brenman lembra das guerras de jabuticabas, frutos que adoçaram também os tempos de menina de Marilda Castanha, que conta aqui em primeira mão que a sua jabuticabeira é personagem (e cenário) do próximo livro a ser lançado pela Companhia das Letrinhas.

Também brotaram relatos afetuosos (e cheios de saudade) das memórias de Silvana Rando e sua ameixeira e de Estéfi Machado e sua goiabeira. São os versos de Fernando Nuno que finalizam essa prosa. E com uma dica certeira: “Se arvore”. Conhecer e conviver podem ser um caminho para aproximar e fazer respeitar. Leia mais a seguir.

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Guerra de jabuticabas

“Eu tenho uma forte lembrança de duas árvores que marcaram a minha infância: uma jabuticabeira e uma caramboleira, ambas ficavam no parquinho do prédio em que morava na Vila Mariana, um bairro da cidade de São Paulo. Elas eram imponentes, bom, acho que eram, talvez a minha altura reduzida, as transformaram em imponentes. O que importa era que elas davam frutas deliciosas, sempre na mesma época. E o mais emocionante não era só saboreá-las e sim armazená-las em sacos plásticos, principalmente as jabuticabas gordas, quase estourando! Era a preparação para a guerra de jabuticabas! Lembro as trincheiras que fazíamos, estratégias de fuga e ataque. Suprimentos nunca faltavam, a metade do saco ia bucho abaixo, porque ninguém é de ferro! A turma tinha algumas regras, como a Convenção de Genebra, que definia normas e leis durante uma guerra. Era terminantemente proibido atingir partes vitais do corpo, existia uma distância mínima para perpetrar o tiro jabuticabal e, em  caso de ferimento grave, a batalha era suspensa para o atendimento crucial de algum adulto responsável, que depois de ajudar, com certeza infligiria uma bela prisão domiciliar. Eram momentos emocionantes, divertidos. De vez em quando choros apareciam, mas dávamos apoio moral ao soldado machucado ou que havia perdido a batalha. Todos sabiam que aqueles momentos sempre acabariam juntamente com as jabuticabas, mas também todos sabiam que aquela árvore não nos deixaria na mão e que dali alguns meses a floração voltaria e com ela a nossa alegria de ser criança.”

ILAN BRENMAN, autor de A cicatriz e Histórias do pai da história, entre outros.

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Cenário de toda a vida

“Passei toda a minha infância na casa em que nasci, no bairro de Santa Efigênia, em Belo Horizonte. O que não faltava na nossa casa e na vizinhança era uma árvore frondosa. No nosso quarteirão lembro de um pé de eugênia, um pé de romã, um ipê rosa, uma jaqueira e muitas mangueiras. Só no quintal da nossa casa havia um pé de café, um cajueiro, uma figueira, uma parreira de uva e a minha árvore preferida: uma jabuticabeira! Um dia alguém aconselhou papai a, além de regá-la  todos os dias, colocar pedras em volta para conservar mais a umidade. Ele construiu então uma espécie de ‘muro de pedras’ ao redor dela. Em pouco tempo ela agradecia o carinho florescendo até três vezes ao ano! Uma  jabuticabeira florida, além de perfumar a casa toda, se transforma numa árvore linda, salpicada de flores que parecem mais flocos de neve. E sem contar que jabuticaba, colhida no pé, é uma das frutas mais deliciosas que existe. Outra alegria que tenho é que ela fez parte não só da minha infância, mas também da infância dos meus filhos. E não posso deixar de contar que ela, a minha jabuticabeira, vai se tornar ‘cenário e personagem’. Isso, no meu novo livro, o A quatro mãos, que será editado ainda neste ano pela Companhia das Letrinhas. Por isso não tenho dúvidas de que essa “jabuticabeira não só é a árvore da minha infância, mas da minha vida toda!”

MARILDA CASTANHA, ilustradora de O gato e o escuro e O diabo na noite de Natal, entre outros.

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Férias com chapéu-de-sol

“Quando eu vejo um chapéu-de-sol, me vem uma sensação muito, muito boa, de férias. Esta árvore chamada chapéu-de-sol tem de montão em Itanhaém, praia do litoral sul de São Paulo, onde passei todas as férias de verão, me traz lembranças muito boas. Tanto que eu me deparei com um em alguma cidade do interior e me pareceu algo deslocado e até errado. Chapéu-de-sol = praia = férias compridas de verão = mar, ondas, conchinhas, caramujos, passeio de barco no rio de água marrom amarelada que passava atrás da casa, dar tchau para os passageiros dos trens que passavam na frente da casa, passeio no centro, sorvete, sorvete, cinema, cinema, cinema. Se pudesse, teria um chapéu-de-sol no meu jardim, mas onde moro é frio demais. E, pensando bem, não ia combinar. Aqui onde moro não tem praia.”

FLAVIO DE SOUZA, autor de Antes e depois e Nove Chapeuzinhos, entre outros.

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Um estrondoso pé de ameixa

“A foto tirada em agosto de 1976 nem precisou de filtro para parecer “vintage”. Meio sumindo, você vê meu irmão segurando nosso gato amarelo e, ao fundo, lá está ele, o pé de ameixa. Pé de ameixa-amarela, nespereira, Eriobotrya japonica. Passei minha infância embaixo ou mesmo em cima dessa árvore. Começou pelo balanço, que eu ficava tentando com todas as minhas forças, dar uma volta completa. Depois, fui a mulher biônica, que enfrentava as mamangabas que passavam por ali. Deixo claro que tratava-se de um ato de muita coragem, pois diziam que se você fosse picado por uma dessas vespas, desmaiaria e sentiria dor por vinte e quatro horas. Em outra época, eu e mais outro membro da SWAT subíamos para espionar com nossos binóculos os bandidos que fugiam pela estrada. E no fim da tarde, eu cuidava dos meus tatuzinhos, que habitavam a cidade próxima às raízes. Graças ao meu pé de ameixa, pude conhecer morcego de perto e comer a fruta mais gostosa do mundo. A deliciosa sombra proporcionou inúmeros aniversários. Era a árvore mais conhecida da família. Mas infelizmente meu pé de ameixa não existe mais. Em 1984, foi derrubado e cedeu seu espaço a uma inútil churrasqueira de alvenaria.”

SILVANA RANDO, ilustradora de Meu vizinho é chato pra cachorro, entre outros.

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Menina passarinha

“Eu adorava janelas. Não! Adorava olhar o mundo. E as janelas foram feitas para isso. De lá dava pra ver que árvores são aeroportos de passarinhos. Melhor, palcos para o canto das aves que, desde então, tento diferenciar um do outro. Quem prestar atenção em cada uma irá perceber um parque animado por muitos seres interligados na sobrevivência ao ar livre. Aliás, um dia eu quis saber: ‘Para onde vão os passarinhos no meio da chuva?’ De reparo em reparo, a folha podia ser guarda-chuva e a sombra, um refrescante guarda-sol. Ah! As descobertas ingênuas são verdadeiras epifanias de felicidade. Por isso, nessa curta memória das árvores de minha infância, o coração avista uma floresta aqui e outra ali de bem querência. Lá tem a algazarra sob a maior delas: o abacateiro que cobria os churrascos de domingo. A grandiosidade poderia ser medida pelo número de cadeiras e bancos que cabiam debaixo dele. Imagine a roda com todos os tios, tias, primos, primas e quem mais aparecesse. De domingo em domingo, aprendi engenhocas para laçar os frutos que abasteciam o cozinhar comidinhas, de verdade, nas panelas em cima do fogãozinho de mentira. Uma corda amarrada no galho me deu asas e um tio me ensinou a assobiar. Pronto! Com o canto e o jeito humano de sair voando, virei uma passarinha. Pois é, as árvores me ensinaram a olhar e o pé de abacate, a sonhar.”

HELOISA PIRES LIMA, autora de HIstórias da Preta, entre outros.

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A árvore de antigamente

“Uma jabuticabeira enorme, no quintal mais lindo,

com uma sombra que sabia dançar.

Eu era ainda só sonho e subia criando historias

sempre a cantarolar.

Sua copa era minha coroa,

e cada novo galho um mundo inteiro pra eu conquistar.

 

Ele vinha de vez em quando, acenava sorrindo

e eu despencava do encanto me preparando pra voltar.

Ele contava histórias de um dia…

e alimentava meu sonho no exercício de lembrar.

 

Daquelas tardes sobrou a saudade

e um punhado de páginas que eu resolvi recontar.

Jabuticaba virou lembrança,

no meu quintal cresceu um prédio

e a sombra parou de bailar.”

PATRICIA AUERBACH, autora de Histórias de antigamente e Pequena grande Tina.

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A goiabeira lá de casa

“Lá em casa somos em muitos: cinco irmãos. Meus pais sempre foram do tipo que topavam, de braços abertos, o que a vida oferecia. Quando pequena, meu pai foi transferido para uma linda missão, construir um Cinturão Verde em Maceió. O plano era ficarmos dois anos, mas a paixão por aquela terra fez dois virarem oito em um piscar de olhos. Errando (com muitos acertos) de casa em casa, fizemos por lá três moradas. A terceira era encantadora por vários motivos, mas ela tinha algo que mais nenhuma tinha: a minha Goiabeira. Vou falar uma coisa pra vocês, eu nunca fui muito de comer fruta, tenho essa falha no meu caráter… Mas a Goiabeira era diferente. Ela me chamava. Linda, com aquela superfície estampada de perfeitas manchas semi-descascadas, ora lisa, ora áspera, uma escadaria pro paraíso das goiabas perfeitas. Brancas. As goiabas eram brancas. Saibam que isso faz muita diferença, geralmente fãs das brancas não nutrem a mesma paixão pelas vermelhas. E fossem como fossem a Goiabeira seduzia todo aquele que cruzasse nossa porta. Cada visita passageira ou com demora chegava e flertava suspirando: Que goiabeira linda! A minha Goiabeira. Sem demora, minha mãe, que, como toda boa funcionária nesse cargo, já gritava: ‘Estefânia, vai catar uma goiaba pro fulano!’ (Estefânia sou eu, Estéfi veio com o tempo.) E lá ia Estefânia, lépida e faceira, com perninhas finas e ligeiras, catar meia dúzia de goiabas pras visitas do dia. Pendurada na goiabeira o dia todo, a maior alegria era ver como gostavam dos seus frutos. Boa parideira, dava o ano inteiro. Em 1993, meus pais decidiram que nosso tempo tinha sido lindamente cumprido em Maceió e deixamos nossa casa. Pouco tempo depois, soubemos que a goiabeira não resistiu à nossa partida. Nunca soubemos se foi morte morrida de saudades ou morte matada de vontade, o fato é que depois disso minha mãe jura que existe o ‘olhar de seca-goiabeira’.”

ESTÉFI MACHADO, autora de O livro da Estéfi.

(“A foto acima foi feita em um dos carnavais da minha infância. Cinco filhos, filme de 24 poses, minha mãe pediu para eu ficar bem linda pra foto definitiva. Adivinha onde eu escolhi posar?”)

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Árvores que sabem

“Árvores que sobem

têm buscas de céu, de sol e de nuvem.

De pé tem o pé do ipê

roxo, rosa, amarelo, branco.

No céu o arco-íris copia as

irmãs do pau-brasil,

árvore que deu em país

e país que deu em árvore,

sibipiruna pura,

sumo de sumaúma,

canto do sapo pra sapopemba.

E que sabe rimar tão fácil

as meninas: laranjeira, bananeira, goiabeira, jabuticabeira

e os meninos: limoeiro, cajueiro, abacateiro, açaizeiro.

 

Tantas eiras e eiros!

Cantei na palmeira sábia que tanto sabia

e que agora sabe demais;

de mais a mais sabe de uma coisa?

Com tantos ramos, em outras buscas

me arvoro. E lanço:

Menino, escreva uma folha e dê uma flor,

Menina, plante uma amora e receba um amor

Você dance no balanço pendurado nos galhos,

se enraíze nas sabenças,

Se arvore.”

FERNANDO NUNO, autor de O livro que não queria saber de rimas.

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