Ao mestre, com carinho

 

Santinho, bagunceiro, piadista... Cada adulto guarda uma imagem do tipo de aluno que lembra um dia ter sido. As histórias dos tempos de escola são daquelas que ficam pra sempre na memória. Deve ser por isso que o escritor Luis Fernando Veríssimo escreveu um livro de crônicas só dessa época, intitulado O Santinho. São histórias de desavenças com professores, como a temível Dona Ilka, de invenções malucas da garotada ou até de conflitos existenciais.

Gostamos tanto da ideia que pedimos a escritores, ilustradores, narradores de histórias e pesquisadores que revirassem seus baús de lembranças dos tempos escolares. Em depoimentos afetuosos, surgiram antigos alunos comportados e bagunceiros, injustiçados e apaixonados, todos envolvidos em episódios curiosos.

A ilustradora Silvana Rando, por exemplo, relembra de sua antiga escola um canto especial dos alunos na hora do recreio. O espaço, conhecido como “a casa da bruxa”, tinha fama de mal-assombrado – algum engraçadinho sempre voltava de lá correndo, dizendo que tinha sido visitado por um fantasma. Trinta anos depois, a “casa da bruxa” virou uma biblioteca. Até hoje ninguém tem coragem de fechar o lugar sozinho, com receio de que algum fantasma venha dar um alô.

Já o escritor Daniel Munduruku guarda memórias diferentes de seus tempos de escola, que começaram quando ele tinha oito anos de idade. Apaixonou-se por sua professora de português, pessoa que mais o incentivava a aprender o idioma. Fátima era tão linda que Daniel resolveu convidá-la para ser seu par na festa junina da escola. O que não esperava é que Fátima tivesse namorado – e que ele estivesse presente bem quando ele decidiu fazer o pedido.

Inusitada também é a história da educadora Ana Carolina Carvalho, que descobriu que seu professor dava aula na mesma escola em que uma amiga sua estudava. A partir de então foi só festa. Transformaram o pobre coitado em um mensageiro de primeira. Era carta que ia e que vinha toda semana, com as novidades da vida de cada uma. Até compartilhavam informações úteis, como o humor do dia daquele professor. Para assuntos desse tipo, é claro, a carta viajava protegida num envelope!

Nesta época de volta às aulas, veja abaixo alguns depoimentos afetuosos de tempos de escola.

 

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Professores marcantes

 

 

KIARA TERRA, narradora de histórias, colaboradora da seção Dois dedinhos de prosa do Blog da Letrinhas e coautora de Hocus Pocus

 
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A casa da bruxa

“Estudei oitos anos no mesmo colégio. Sabia o nome e o sobrenome de cada aluno. Conhecia até os lagartos, que nos acompanhavam pelo longo corredor que levava até o pátio. Quando a inspetora Inês tocava o sino, era hora de entrar. A diretora, com sua voz de trovão, botava ordem nos corredores que rapidamente ficavam vazios. Todas as classes lotadas, em média quarenta alunos por turma. Professores excêntricos. Calor… No recreio, tínhamos uma grande atração: a casa da bruxa. Era um barracão, onde depositavam os entulhos da escola, do qual ninguém podia chegar perto. Diziam ser mal-assombrado. Sempre tinha algum engraçadinho que ia escondido e voltava com uma história de fantasma. Eu morria de medo. Estes dias, depois de 30 anos, voltei para visitar a minha escola. Os netos dos lagartos estavam me esperando. Chorei ao ver o pátio onde cresci. E para minha surpresa, a casa da bruxa virou uma biblioteca. Fiquei um tempo vendo os livros, conversando com as crianças. No fim da tarde, fui me despedir da bibliotecária e ela muito aflita me pediu para esperar, pois ninguém tem coragem de fechar a biblioteca sozinho, por causa dos fantasmas que ainda pintam por lá. Um frio percorreu a minha espinha. Tem coisa mais literária do que casa de bruxa virar biblioteca? Saudades do meu tempo de escola…”

SILVANA RANDO, ilustradora de Meu vizinho é chato pra cachorro!

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As Marias

“Duas professoras mapearam minha infância, curiosamente as duas se chamavam Maria. A primeira Maria me ensinou as letras para me alfabetizar e comemorou comigo a primeira redação que fiz para a escola no ano seguinte. "Estou orgulhosa de você, parece que gosta de inventar histórias, não é?"; o olhar dela foi tão terno sobre meu texto miúdo e despretensioso que fez crescer em mim o desejo de escrever mais (e melhor). Outras escrivinhações eu mostrei para minha professora naquele ano, recebi o mesmo afago protetor – como se aquilo fosse um ato de coragem, equilíbrio similar a aprender a andar ou pedalar uma bicicleta. No ano seguinte, a segunda Maria tinha cachos bem firmes, pareciam guardar mil ideias. Ela abriu uma livraria, pertinho da escola. A livraria se chamava A Corujinha. As Marias brincaram comigo de descobrir o saber. E eu soube, desde o princípio, que nunca saberia tudo, mas que era essa a diversão: surpreender-se. Coisa curiosa, minha mãe também se chamava Maria…”

PENÉLOPE MARTINS, narradora de histórias e colaboradora da seção Dois dedinhos de prosa do Blog da Letrinhas

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Lembranças de escola

“Quando relembro meus tempos de escola, sempre me vem à mente uma menina bem comportada, vestida com uniforme: blusa branca, saia azul pregueada, meias brancas e sapato preto. Uma menina que gostava de estudar. Sorte dela, porque, quando foi ser matriculada no primeiro ano (há muito tempo era chamado de primeiro ano primário), na mesma escola em que seu irmão estudara, a diretora falou: “Será que você vai ser tão boa quanto seu irmão?”. Lembro que até me encolhi na cadeira, diante daquela senhora séria, com óculos de aros dourados e batom vermelho. E assim recebida pela D. Jandira, entrei para uma escola “de verdade”, porque antes dela eu frequentava a Escolinha de Brinquedo. As professoras que tive ao  longo de toda minha vida escolar são as mais fortes lembranças, carregadas pelo afeto ou pelo medo, nas temíveis chamadas orais. Apesar da rigidez, foi na escola que meu mundo se ampliou. E acho que, pelas coisas boas que a escola me deu, tornei-me professora. Ainda estudante do curso Normal (que formava professores nos três anos do atual ensino médio), trabalhei numa pequena escola montada em uma favela no Jaguaré. Recordo ainda dos momentos em que eu apontava na rua e as crianças vinham correndo ao meu encontro com pequenos presentes: uma caixinha plástica encontrada no chão, uma florzinha seca, um papelzinho de bala. No dia da formatura, as crianças entraram no palco. Até hoje essa lembrança me traz um nó na garganta e uma emoção que é difícil não virar lágrima!”

STELA MARIA FAZIO BATTAGLIA, especialista em literatura infantil e formadora de professores

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Professor-correio

“Quando estava no último ano do colegial, descobri que tinha o mesmo professor de matemática de uma amiga que estudava em outra escola. Descoberta feita, começou a troca de correspondências. Duas vezes por semana ia bilhete meu e voltava bilhete dela, atravessando São Paulo nos bolsos do professor. Num tempo em que nem sonhávamos com Whatsapp, era a comunicação mais rápida depois do telefone. Um dia, ele chegou ressabiado. Ao invés do sorriso que lhe era habitual e da fala brincalhona: o carteiro chegou!, entregou-me o bilhete em silêncio. Abri o papelzinho displicente que a minha amiga havia mandado. Um pedaço de folha pautada rasgada em cima da hora trazia a mensagem telegráfica: Não brinque com o professor hoje. Mau-humor daqueles. Depois te conto. Cuidado! Não deu outra. Na primeira fala fora de lugar de um aluno, deu uma invertida na sala toda: na outra escola, já perceberam que hoje não estou de bom-humor. Não brinquem comigo! Nesse momento, nossos olhares se cruzaram. Fiquei vermelha: será que ele tinha lido o bilhete? Foi só coincidência? E os outros bilhetes? Haveria compartilhado nossos segredos, lendo as mensagens em meio ao já caótico trânsito de São Paulo? Seguimos nos correspondendo e receber as mensagens trazidas por um pombo-correio tão especial era uma das coisas mais gostosas daquele 3º colegial. Mas passamos a ter um pouco mais de cuidado: as mensagens mais ousadas vinham dentro de envelopes!”

ANA CAROLINA CARVALHO, formadora de professores no Instituto Avisa Lá

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Um tempo demais de bom

“Entre a 3ª e a 8ª séries, fui vizinha do colégio onde estudava. Nem bem saía da cama e já estava sentada em frente à lousa. O “Monte Castelo” era minha escola e meu quintal. Era (na verdade ainda é!) uma escola pequenina. Lembro que os mais velhos sempre estudavam no primeiro andar, na sala entre o laboratório de Ciências e a biblioteca. A sala com o cofre escondido atrás de um pôster da Coca-Cola! Os mais novos morriam de curiosidade para conhecer os segredos guardados lá dentro. Uma informação irrevelável, que só o pessoal prestes a se formar no Ginásio sabia. Estudar na sala do cofre, mais do que tudo, significava um ritual de passagem. Mas na 8ª série de 1991, os treze alunos da classe não pareciam dispostos a crescer. Apesar disso, naquele ano as meninas ocuparam a quadra da escola e toda sexta-feira passou a ser o dia do futebol feminino no recreio; a Simone, nossa professora de Português, introduziu Literatura à disciplina (e eu descobri um assunto encantador); o Samuel entrou no lugar do antigo professor de Educação Física e as alunas (apaixonadas) nunca mais reclamaram de correr, de manhãzinha, no frio; eu briguei feio com a Matemática (com quem me desentendo até hoje) e depois passei a acreditar em milagres (não imaginava passar direto, sem ficar de recuperação!). A 8ª série deixou uma estranha sensação de ter me divertido mais do que estudado. Tanto que, até hoje, sonho receber uma notificação da escola dizendo que precisarei refazer o ano. E no sonho (que de tanto sonhar nem é mais pesadelo), lá estou eu, com meus quarenta anos, de uniforme, sentada na sala do cofre, rodeada pelos mesmos amigos, agora casados e com filhos. O bom é que nem preciso levantar da cama para ir à escola. Chego num fechar de olhos. Ah, o que havia no cofre? As lembranças de um tempo demais de bom.”

MARIA AMÁLIA CAMARGO, autora de Meu vizinho é chato pra cachorro!

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Mudanças e descobertas

“Não há como lembrar a volta às aulas sem recordar do cheirinho de material escolar novo, da borracha ainda não usada, o momento de encapar os cadernos e folhear os livros, a expectativa de um novo ano. Por diversas vezes, essas coisas eram vividas por mim e por meus irmãos de uma forma ainda mais intensa, pois, além da adaptação escolar, comum a todas as crianças, nós mudamos bastante de cidade e, por consequência, de escola. Foi uma experiência boa porque pudemos conhecer muitos lugares, costumes e pessoas diferentes. Era também ruim, porque estávamos sempre recomeçando e saindo de nossas zonas de conforto. Fazer novos amigos, conhecer o ambiente, sentir aquele friozinho na barriga de viver uma situação nova e ter medo e, ao mesmo tempo, uma grande alegria. Sem termos a dimensão do que estudar significa realmente, nossa intuição de criança não falhava, era algo especial. Tínhamos a curiosidade natural que toda criança tem em viver o novo, explorar, a alegria em aprender. Nem sempre as escolas sabem bem o que fazer com isso, mas toda criança é assim. E ter o acolhimento de alguns professores nos fortalecia. Era triste quando algum professor era excessivamente severo, sisudo, pois isso acabava com essa nossa alegria. Estudei em muitas escolas. Grandes, pequenas, públicas, privadas. Colégios tradicionais, religiosos, pobres e ricos. Estudei em São Paulo, no Ceará, no Rio Grande do Norte e no Espírito Santo. Aprendi que mudam os sotaques, alguns costumes, mas criança é sempre igual, e a expectativa pelo ano que se inicia também.”

CHRISTIANE ANGELOTTI, editora de literatura infantojuvenil e do site Para Educar

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Pirâmides tortas

“O meu uniforme de pré-primário era estranho. Era um guarda-pó de brim caqui cheio de bolsos que fazia a gente parecer um monte de miniaturas do Jânio Quadros. O resto da escola era parecido com qualquer escolinha de hoje, com as mesmas cores primárias na gangorra e no balanço. O material pedagógico era um pouco espartano, mas dava pra brincar. Tinha uns conjuntos de cubos de madeira, que, quando a gente tirava um de dentro do outro e os empilhava, formava uma pirâmide. Essa era a atividade de que mais me lembro: montar pirâmides. Os cubos não tinham nenhum desenho, e cada conjunto tinha uma cor de casaco de tia, marrom, verde pálido, rosa desbotado, os melhores eram o verde musgo e o azul-marinho. Uma daquelas crianças de caqui, não lembro o nome, um menino loiro e sério, era meu melhor amigo. Não sei se eu era o melhor amigo dele. Ele construía pirâmides precisas usando os cubos menores como régua para alinhar as camadas, um engenheiro de cinco anos e meio. Já eu ia colocando um cubo marrom em cima do outro cubo marrom e, se tentava arrumar o que estava meio torto, entortava todo o resto, mas dane-se, eu queria brincar no pátio e o sinal do recreio tinha tocado. Chamei meu amigo.

—Vamos brincar!

Ele estava de joelhos montando uma pirâmide de cubos brancos. Nem olhou pra mim. Repeti:

—Vamos brincar!

Ainda sem me olhar, muito sério, ele disse:

—Não. Estou estudando.

Eu me senti um relapso. Nem conhecia essa palavra. Fui para o balanço sozinho e pensando se eu devia estudar com ele. Nunca consegui construir pirâmides certinhas, aliás, eu me aprimorei nas pirâmides tortas e hoje faço pirâmides com qualquer forma geométrica. Queria lembrar o nome do menino loiro, queria falar pra ele que hoje sou muito, muito feliz e que ganho a vida construindo pirâmides tortas.”

JOSÉ CARLOS LOLLO, ilustrador e coautor de Ernesto, O coiso estranho e O pum e o piriri do vizinho

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A professora de português

“Nasci na floresta. Meu primeiro contato com a escola foi aos oito anos de idade. A escola era para mim um grande fantasma que me assombrava. Ali eu me sentia um estranho. Havia, porém, duas coisas de que eu gostava na escola: as aulas de educação física e a professora de português. Era nas aulas de educação física que eu me vingava dos meus colegas. Eles eram todos muito fracos, lentos, preguiçosos, e eu o mais rápido, mais preparado e forte. As corridas pela mata, as subidas constantes nos pés de açaizeiro, as braçadas no igarapé e o café da manhã que minha mãe preparava me davam energia de sobra e me faziam ser mais desenvolvido que os frangotes da cidade. A outra coisa era a professora Fátima. Ela lecionava português. Por causa dela eu até me perfumava com o cheiro de patchulli extraído da mata. Quando tinha aula com ela, eu me produzia todinho. Fazia minha mãe lavar meu uniforme pra ficar bem branquinho; lavava meu tênis conga azul celeste para ficar da mesma cor dos olhos dela; caprichava na lição de casa para que ela se orgulhasse de mim; e levava uma tira de ingá como presente para ela. Professora Fátima era loira, branca, olhos azuis, jovem e tinha os dentes pra frente. Nunca tinha visto ninguém com cabelos daquela cor. Minha cutia de estimação era ruiva; as onças tinham tiras na pele; as araras eram de variadas cores, mas a professora Fátima era uma ave rara que eu gostava de contemplar. Um dia ela olhou para mim com seus olhos cor do céu. Ela disse que eu era bonito, simpático, alegre e que ela gostava muito de mim, especialmente porque eu me esforçava para aprender bem a língua portuguesa. Esse foi o dia mais feliz de minha vida até aquele momento. Meu coração deu pulos de felicidades e meu espírito finalmente faziam as pazes com os homens brancos. Ou melhor, com as mulheres brancas. Daquele dia, em diante meu esforço ficou muito maior para satisfazer minha professora de português. Tempos depois chegou a festa junina. Haveria dança de quadrilha e eu já havia escolhido meu par: professora Fátima. Preparei-me para fazer o convite uns dias antes. Fui à sala dos professores nutrido de coragem e determinação. Bati à porta para ser atendido. Lá de dentro saiu minha professora acompanhada de um homem. Ela olhou para mim, apresentou seu namorado e perguntou o que eu queria ali. Nada, eu disse.”

DANIEL MUNDURUKU, autor de Histórias de índio e Vó coruja

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Saudade, substantivo abstrato

“Eu tinha seis anos quando chegamos ao Brasil. Fui matriculada numa escola judaica ortodoxa que ficava perto de casa e eu podia ir a pé. Segundo meus pais, a escolha havia sido feita para que eu não ‘perdesse’ o hebraico, minha primeira língua. A escola onde estudei até o fim do colegial era bastante religiosa e, consequentemente, um bocado conservadora. Questionamentos não eram exatamente recebidos com muito entusiasmo. Para assuntos religiosos, meus porquês vinham seguidos de variações de ‘porque Deus disse’. Essa resposta me deixava, já naquela época, muito insatisfeita. Alguns professores, no entanto, não partilhavam dessa mesma posição e encorajavam a curiosidade de seus alunos. Se tivesse que escolher os professores que mais marcaram minha trajetória escolar, não poderia deixar de nomear dois deles: Peri, professor de biologia, era um sujeito alto e magrelo, um pouco careca. Tinha um galo bem grande na cabeça e diziam que era resquício de tortura no tempo da ditadura. Naquela época, eu ainda pouco sabia sobre o que fora aquilo tudo, mas tinha por ele uma admiração imensa. No meu olhar de criança, ele era uma mistura de sábio e bruxo, um homem que entendia das plantas, dos bichos e da vida, e que dizia coisas que eu nem sempre entendia. Graciete, professora de português, de quem me lembro toda vez que escrevo. Uma das minhas primeiras ilustrações foi feita para uma revista de poesia que fizemos em classe sob a coordenação dela. Eu ainda desenhava a caneta Bic e não usava cor. Lembro de como ela me estimulava a desenhar e me fazia sentir orgulho dos meus desenhos. Foi quem me ensinou concordâncias, regências, pontuação, interpretação de texto. Me ensinou também que saudade é substantivo abstrato e, portanto, não tem plural. Ela pode ser grande ou pequena, longa ou curta, pode variar em intensidade, mas não em número. Eu cresci, a gramática mudou, e não encontrei mais nenhum deles, mas seus ensinamentos estão presentes na minha vida sempre. Para sempre.”

IONIT ZILBERMAN, autora de Hocus Pocus e ilustradora de A cicatriz

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As Pacheco

“Tenho muitas lembranças da minha primeira escola, um sobrado branco com janelas e portas azuis, que ficava em uma esquina do bairro de Perdizes, em São Paulo. Lembro de tanta coisa boa que é difícil achar a lembrança certa. Será que eu conto sobre a hora da saída quando minha mãe comprava pra mim um doce quebra-queixo, que é um melado vermelho que o vendedor ambulante precisava quebrar com um martelinho de tão duro que era? Era uma iguaria de corante com açúcar que nenhuma mãe normal deixaria uma criança comer hoje em dia. Mas minha mãe deixava, e todos os finais de tarde aquela calçada parecia um formigueiro de crianças carregando torrões vermelhos de açúcar. É uma ótima lembrança! Mas talvez não seja exatamente uma lembrança escolar, parece mais uma memória gastronômica. Talvez seja melhor eu contar sobre o dia que eu subi em uma árvore do pátio na hora do recreio e não tinha quem me fizesse descer quando o recreio acabou. Nem mesmo “As Pacheco” conseguiram! E elas eram temidas por todo mundo na escola! E agora talvez seja melhor eu contar quem são as “Pacheco”, senão ninguém vai entender o espanto da frase anterior. As “Pacheco” eram as diretoras da escola. Elas eram três irmãs, não eram gêmeas nem eram muito parecidas umas com as outras. Cada uma tinha a sua vida e cuidava de um departamento diferente na escola, mas todo mundo só se referia a elas como se fossem uma coisa só: “As Pacheco”. Uma delas tinha o cabelo azul e uma se chamava Mercedes, mas não sei dizer qual era qual. Sempre achei estranha essa coisa que acontece com certas pessoas que parecem que estão ligadas entre si e que são tratadas como plural, mesmo sendo singulares. Que fio invisível é esse que transforma três irmãs em uma pessoa só? E que tipo de sujeito elas são em uma frase? Simples ou composto? E agora sim chegamos a uma memória legitimamente e integralmente escolar. Nessa escola, eu sempre tirei nota baixa em gramática. E acho que isso é culpa das “Pacheco”. Custava alguma coisa cada uma delas ser um sujeito mais simples de entender?”

BLANDINA FRANCO, autora de Eu não acho de jeito nenhum e O peixe e a passarinha

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É hoje? Amanhã? Quando começa?

“Quando eu era pequena, aqui em Portugal, o regresso às aulas estava marcado para a primeira semana de outubro. O chão das calçadas começava então a cobrir-se com a cor alaranjada e crocante das folhas dos plátanos e era ao som desse suave crepitar que caminhávamos para o portão da escola em busca de novidades: É hoje? Amanhã? Quando começa? O regresso estava marcado para a primeira semana de outubro, mas apenas se tudo corresse bem… Havia sempre imprevistos: escolas em obras, professores por colocar, cantinas a meio gás, funcionários em falta. Muitas vezes dizia-se que as aulas começavam a 7, mas, afinal, o início era adiado para o dia 10. Se voltávamos ao portão no dia 9, afinal a data já tinha mudado para 13. E se lá fossemos de véspera, a 12, o mais comum era que o regresso só se fizesse a 15. Toda a gente se fingia muito indignada com a situação, mas a verdade é que todos adoravam este adiar sucessivo do início do ano, que nos dava uma espécie de preparação (mental e física) para o que aí vinha: rotina, trabalhos de casa, dias de chuva, testes. Depois tudo começava e não parecia assim tão mau. Em uníssono e em surdina, iniciávamos uma contagem decrescente para o momento mais ansiado por todos: o primeiro dia das férias seguintes.”

ISABEL MINHÓS, autora de Siga a seta!

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A coisa correta, elegante e competente

“Eu me lembro do cheiro da borracha branquinha, pura e inteira. Um cheiro tão apetitoso que dava vontade de morder. Ainda alheia aos erros ortográficos, ficava acomodada no canto superior direito do estojo. Abaixo dela os lápis elegantes, altos, com aquela atitude muito profissional que apenas um Faber Castell pode ter. À esquerda, as clássicas canetas Bic. Azul, vermelha e verde. A verde era uma extravagância que eu insistia em ter mais por fetiche do que por utilidade real. No subsolo do estojo, o compasso que me assustava um pouco, por sua complexidade, e a tesoura de metal com meu nome gravado. A tesoura me dava esperança de que nesse ano haveria mais atividades artísticas e menos sofrimento acadêmico. Doce ilusão. No piso do subsolo, os encaixes de elástico para os lápis de cor, em dégradé. Tudo organizado e disponível para atender minhas necessidades. Com aquele estojo, eu me sentia equipada. Primeiro Dia de Aula era quando eu reunia o melhor de mim e acreditava, de coração, que dessa vez seria diferente. Nos próximos meses tudo permaneceria limpo, cheiroso e afiado. E eu, por um milagre qualquer, seria a versão estudantil do lápis Faber Castell verde bandeira com friso dourado. Uma coisa correta, elegante e competente.”

ÍNDIGO, autora de As aventuras de Glauber e Hilda

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O queridinho da professora Teresa

“Houve um bruta descompasso – me tornei um bom aluno só depois que saí da escola. Acho que não estava preparado pra ela nem ela pra mim. Só deixamos rolar. Mas é provável que a escola tenha me dado as ferramentas pra me tornar o aluno por conta própria que continuo sendo todo dia. Não me lembro de nenhuma volta às aulas – nem dramas nem felicidades. Penso imediatamente na ânsia de rever alguma colega, mas, é triste, os amores escolares parecem ter sido por ano letivo. Nenhum aguentou as férias de verão. Ainda me lembro da minha primeira professora. A professora Teresa me ensinou a ler, que era quase tudo o que eu precisava. O afeto dela me acompanha até hoje. Mesmo sabendo que ela o dedicava a todos, a sensação de que eu era o queridinho não me larga.”

ERNANI SSÓ, autor de Contos de morte morrida e Amigos da onça

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Lembranças do Jacobina

“Minhas lembranças dessa época são bem gostosas. Eu adorava o colégio! Gostava das aulas, do recreio, dos eventos... Meu colégio não existe mais. Era no Rio de Janeiro, Colégio Jacobina. Tinha um pátio grande com amarelinhas pintadas no chão. Quando batia o sinal para o recreio, era uma correria para ver quem pegava as amarelinhas primeiro. Quem não pegava uma amarelinha pulava elástico, jogava saquinho (cinco-marias), brincava de pique ou jogava ping-pong numa das mesas que ficavam no pátio. Houve uma fase em que um grupo de amigas se reunia sempre na biblioteca. Íamos conversar e pedir conselhos para a bibliotecária que era nossa amiga. Estudei a vida toda nessa escola, com exceção de um ano que fui para o Bennett, mas logo voltei para o Jacobina. Tive professoras incríveis! Mas as preferidas eram as de português: Vera Lúcia, Eliane... Sempre adorei nossa língua e elas me estimulavam a escrever e ler. Foi no colégio que conheci Lygia Bojunga, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Fernanda Lopes de Almeida, entre outros autores que marcaram para sempre minha vida. Mas sofri injustiças também quando, certa vez, fui defender uma amiga por conta de uma nota num trabalho de grupo de biologia. A professora deu uma nota diferente para ela, mais baixa que a do restante do grupo. Fomos buscar uma explicação. Não deram razão para nós e ainda fomos suspensas! Mas tiramos de letra, combinamos de ir passear no dia da suspensão.”

ANA LUÍSA LACOMBE, contadora de histórias

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A inesquecível irmã Lilia

“Eu me imagino uma guriazinha num dia muito frio na casinha que era a escola das freiras. E foi da carteira dupla, na sala de aula, que eu escutei a professora mandar o mais sem noção da classe sentar ao meu lado. E era um castigo o que ele estava recebendo. Oras, não fosse a irmã Lilia, minha primeira mestra, eu não teria entendido ser esta uma boa chance dele vir a ser como eu. Afinal, o verso dos santinhos com mensagens carinhosas escritas por ela me faziam acreditar o quanto eu seria, mesmo, especial. E me passou do prézinho para o 1º ano, no meio do ano me convencendo de que eu era sabida. E o boletim, prova documental que ainda guardo comigo, mostra que entre todos da nova turma eu passei em 2º lugar. Decerto, ela diria ser um estímulo para alcançar o 1º, no ano seguinte. Ah! a inesquecível irmã Lilia ficou como película de minhas vistas, escolas a fora. Mesmo idosa, ainda me mostra um afeto institucional.”

HELOÍSA PIRES LIMA, autora de Histórias da Preta

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O Negrinho do Pastoreio

“Tenho uma lembrança de Dona Helena Rosa, minha professora da terceira série do antigo primário (hoje seria o quarto ano do Ensino Fundamental). Um dia, ela nos pediu para ler em voz alta o conto O Negrinho do Pastoreio. Eu havia me alfabetizado tardiamente, então tinha uma certa dificuldade em ler em voz alta. Meu lugar, naquelas cinco fileiras direcionadas para a lousa que compunham a sala de aula, sempre foi o do fundo. No penúltimo lugar. Na minha frente sentava-se Valquíria, a mulher da minha vida! Eu era apaixonado por ela. Uma menina de lábios grossos, inteligente, sensível e atenta. Além de linda! E quando pensei que teria que ler em voz alta e que Valquíria poderia descobrir-me um falsário do mundo das letras, entrei em desespero. Fiquei muito nervoso. A leitura foi iniciada e a cada ponto final o próximo aluno, seguindo a ordem das carteiras, dava continuidade à leitura. Chegou a minha vez: "Giuliano, pode começar!", disse-me incisivamente Dona Helena Rosa. Justo no meu trecho havia o título do conto, daí li: "O Negrinho do Pastoreiro foi à casa...", sim! Ao invés de ler "pastoreio" eu li "pastoreiro". Dona Helena Rosa, na sua precisão de autoridade disse sem titubeios: "Giuliano, você é burro ou desatento?" E assim, tomei contato com duas primeiras alternativas que impediam alguém de tornar-se um leitor: ou eu era desprovido de interesse cognitivo e inteligência: burro; ou eu era alguém absolutamente sem atenção: distraído. Fiquei com a segunda opção e, mesmo de uma maneira torta (o que hoje seria inimaginável como atitude de uma professora), aprendi que só nos tornamos leitores com o desenvolvimento pleno de nossa atenção. Dessa forma, até mesmo os burros podem ler quando são atentos. E isso eu posso afirmar por experiência.”

GIULIANO TIERNO, contador de histórias, escritor, pesquisador e professor

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Escrito nas cadeiras

“O local da sala onde se localiza nosso assento é fundamental para determinar quem você será durante um ano. Pelo menos é assim que eu acreditava naquela época. Não achava que escolhíamos o lugar onde deveríamos sentar, mas era ele que nos escolhia. Algo místico. O futuro está escrito tanto nas estrelas quanto nas cadeiras. E naquele ano quem me escolheu foi o assento localizado bem no meio da sala. Eu estava a uma cadeira de distância entre os estudiosos e obedientes da frente e o pessoal da pesada do fundão. Naquele ano eu seria o cara do meio, uma ponte entre esses dois mundos. Senti que cairia sobre mim a função apaziguadora de possíveis conflitos, contendas. Conduzir esses dois diferentes povos para o caminho do diálogo seria meu desafio. Era uma responsabilidade muito grande, mas eu aceitei com alegria o que meu destino tinha reservado pra mim. Meu bom trabalho em minha cadeira me conduziu ao cargo de representante de sala, ampliando o território de minha atuação diplomática, sendo agora responsável por colocar professores e diretoria em diálogo com a sala. Que responsabilidade! Estava me sentindo um grande estadista naquele ano! Graças à minha cadeira, claro. Porém, numa determinada manhã, a professora Zilda me pegou conversando com um colega do lado – nada mais apropriado para um diplomata, cuja função é dialogar. Ela ficou muito brava. Mandou que eu mudasse de lugar. Havia apenas um local vago, no fundo da sala. Sabia que a cadeira do fundão iria despertar em mim desejos rebeldes e anarquistas, desejos indesejáveis para minha função na sala. Dito e feito: trinta minutos sentado ali foram suficientes para fazer com que eu pegasse uma caneta e escrevesse meu nome na parede logo atrás de mim. Lá havia muitos outros nomes, de alunos e alunas rebeldes que eu sempre admirei. Achava linda a estética contestadora que a pichação imprimia na sala de aula, mas nunca tive coragem pra admitir, quanto menos pra grafar meu próprio nome na parede. Mas agora a cadeira do fundão me mudou. Me deu coragem. Quando o sinal tocou, fiquei orgulhoso de ver escrito na parede “Renato, The Best”. Fui pra casa me sentindo um revolucionário. No dia seguinte, de volta à sala, a cadeira do fundão não estava mais vaga. Eu tinha gostado daquele lugar. Voltei então pro meu bom e velho assento, bem no centro da sala. O espírito diplomático cresceu novamente em mim e abafou qualquer traço de rebeldia do dia anterior. Fiquei com medo dos professores e da direção descobrirem o autor da nova pichação da sala. Não tinha como apagar. Era caneta permanente. Precisava esconder meu nome de alguma forma. Então, na hora do recreio, peguei a mesma caneta e fazendo um traço aqui e outro ali, consegui transformar aquela frase, aquele picho, num grafite bem parecido com o desenho do Romero Brito que decora o muro da minha escola. Me sentia meio rebelde e meio fofo. Acho que era isso que a cadeira do meio representava pra mim.”

RENATO MORICONI, coautor de Bárbaro e Telefone sem fio

 

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