Alterar, não alternar: infância e representações na Flip 2019

 

Por Antonio Castro

 

A 17ª edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, começou nesta quarta-feira, dia 10. O homenageado deste ano é Euclides da Cunha, cuja principal obra, Os sertões, marcou a história literária brasileira ao relatar o confronto da Guerra dos Canudos e denunciar os crimes cometidos por uma sociedade eurocêntrica, violenta, autoritária, desigual e excludente.

Durante os próximos dias, um grande número de casas parceiras vai promover encontros e debates que ocorrem em paralelo à programação principal em Paraty. A Flipinha e as outras casas com discussões sobre literatura infantil vão ser o foco do Blog das Letrinhas nos próximos dias – aqui começamos o nosso quarto Diário da Flipinha!

 

 

As conversas que acompanhamos nesta quinta-feira giraram em torno de temas diferentes, mas terminaram deixando impressões parecidas: a de que podemos ficar otimistas quanto aos avanços que temos feito quando se trata de literatura produzida por mulheres e pessoas negras – mesmo que ainda haja um longo caminho pela frente.

No começo da manhã, um debate promovido pelo Clube Quindim ocorreu na Casa Libre: “Quando o racismo de ontem sobrevive nas edições infantis de hoje: como lidar?”, com a presença da escritora Cidinha da Silva, a escritora e professora Catia Luciana e a editora Mell Brites, com mediação de Lu Bento. Entre os pontos levantados durante a conversa esteve a mudança ocorrida, tanto no mercado editorial quanto nas escolas, depois que a lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação no Brasil, foi promulgada. A produção e presença de autores e personagens negros de fato cresceu – não podemos deixar de notar como a falta de tais personagens na literatura infantil é prejudicial para uma criança que nunca se vê representada nos livros que lê – mas ainda há um longo caminho para percorrer de ambos os lados, principalmente por parte das editoras que devem ser não apenas o veículo de publicação desses autores, mas também um lugar aberto a vozes que não estão presentes em seu entorno.

 

 

Também foi discutida a publicação de autores como Monteiro Lobato e outros grandes clássicos da literatura brasileira, mas que possuem traços claramente racistas em sua obra – quem for ler Reinações de Narizinho vai encontrar logo nas primeiras linhas a expressão “negra de estimação” que o narrador usa para se referir à Tia Nastácia, e essa é só a primeira dentre muitas outras existentes ao longo de toda a obra do autor. Lidar com tais contradições é tarefa do editor, e foi unânime entre as mulheres o fato de que ele deve ser publicado de maneira integral, sem corte ou alterações. Mas também é preciso questionar, se colocar no lugar de quem vai ler aquilo e deixar clara a mensagem que está presente naquele texto. Como Cidinha da Silva pontuou, o trabalho de leitura precisa ser feito de maneira alterativa, e não alternativa: o livro deve ser instrumento de mudança para o leitor, dando a ele recursos para se espelhar e mudar a sociedade – e isso ocorre quando ele se vê de fato representado nas páginas que lê.

 

 

Nesse mesmo pensamento, a mesa “#KDMulheres? Uma narrativa de representatividade em construção”, promovida pelo programa educativo da Flip, que ocorreu algumas horas depois da Casa Libre, complementa algumas ideias que surgiram por lá. O #KDmulheres? é um coletivo fundado em 2014 por Laura Folgueira e Martha Lopes, com o objetivo de questionar a invisibilidade das mulheres no campo da literatura, nas esferas da publicação, divulgação, cobertura da imprensa e na lista de premiações e festivais. Elas questionaram inclusive o funcionamento e organização da Flip, que poucas vezes homenageou autoras mulheres e só começou a ser mais inclusiva quando uma mulher assumiu a curadoria do evento em 2017. Também pontuaram a necessidade de narrativas que representem e cubram toda a sociedade, em suas intersecções: mulheres LGBTs, periféricas, negras etc.

 

 

E uma última conversa, na mesa “De crianças para crianças”, fechou o dia de uma forma especial: uma menina de nove anos, Júlia Bretanha, escreveu dois livros: Manual do vovô legal e Planeta feliz. A vontade de escrever surgiu naturalmente para a pequena que, incentivada pelos pais, tem produzido essas narrativas que refletem seu universo e o que considera importante. Júlia ainda tem muita infância para viver e, como toda criança, quer encontrar livros em que se veja espelhada e representada nas livrarias, escolas e lugares por onde passar – que bom saber que há quem esteja lutando por isso, tanto em Paraty quanto no resto do Brasil.

 

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