Alargar o olhar: função poética do livro ilustrado

Por Renata Penzani

Roland Barthes dizia que a literatura é espetáculo de palavras. Quando o assunto é livro ilustrado infantil, o espetáculo ganha mais um protagonista, e só acontece a partir da conjunção entre palavra, imagem e, muitas vezes, também com a materialidade do livro como objeto.

Muitas possibilidades de aproximação são possíveis quando se analisa uma obra desse gênero. Há aqueles autores influenciados por uma mesma geração de antecessores, há aqueles que estudaram os mesmos precursores de tendências e existem também autores que parecem falar a mesma língua sem nunca terem se visto ou ouvido falar do trabalho do outro – muitos, inclusive, habitam tempos e espaços bastante diferentes, como Angela Lago e Suzy Lee, tão distantes em seus mundos de Brasil e Coreia.

 

Ilustração: Marcelo Tolentino

 

Não se pode afirmar com absoluta certeza em qual dessas categorias se enquadram os autores Renato Moriconi e John Burningham. Um brasileiro nascido nos anos 80, e o outro inglês da década de 30. Os dois habitam universos aparentemente desligados, não fosse pelo fato de que suas obras falam a mesma língua particular do livro ilustrado quando elevado à sua máxima potência: livros que consideram tanto a criança quanto o adulto esses seres capazes de enxergar nas coisas outras coisas.

Quando pensamos nas obras Fique longe da água, Shirley (Cosac Naify, 1977) e Bárbaro (Companhia das Letras, 2013), a forte presença dos mesmos recursos narrativos torna esses dois livros irmãos. Em ambos, os autores utilizam o contraponto como ponto de cadência da história.

No exemplo inglês, a menina Shirley é impedida de brincar na água pelo excesso de zelo do pai que a acompanha na praia. Enquanto o texto exprime a prudência e a contenção do adulto, que enche a criança de regras e imposições, a imagem (e)leva a história para outro nível semântico: o universo de Shirley, que se diverte imaginando aventuras de todo tipo sem sair fisicamente do lugar.

No livro, texto e imagem dançam em ritmos opostos, cada um propondo uma leitura completamente diferente, sendo que a terceira depende exclusivamente da perspicácia e entrega do leitor, que vai perceber o jogo proposto e interpretar o livro a partir do encontro entre a palavra escrita e a ilustração. Como diz a Angela Lago, entre uma coisa e outra, há um espaço que quem cria é o leitor: uma obra depende da posição do leitor para acontecer.

Já em Bárbaro, Moriconi propõe o mesmo contraponto, mas desta vez somente com a imagem, o que não é usual, já que, quando se fala em contraponto, automaticamente se prevê a relação entre texto e imagem, afinal, também estamos escrevendo quando desenhamos. Assim, em Bárbaro, o contraponto acontece com a mesma potência, apesar da inexistência de palavras.

Na história, enquanto um menino brinca satisfeito de enfrentar as mais terríveis criaturas, o adulto exerce o papel de tentar trazê-lo de volta ao mundo real. Aqui, o adulto cheio de regras e submisso a um padrão de conduta pré-estabelecido que aparece em Shirley fica em elipse. O universo adulto só aparece na mente do leitor, que é levado a fazer essa associação quando o livro termina.

Diante disso, é possível perceber um bonito ponto de aproximação entre os dois livros, que remete diretamente à função poética do livro ilustrado: alargar o olhar. Do ponto de vista semântico, tanto em um quanto em outro, o contraponto funciona como recurso para mostrar como, às vezes, o adulto e a criança habitam lugares completamente diferentes, embora situados no mesmo espaço-tempo.

Dizer para uma criança que ela deve tomar cuidado com as pedras, evitar a água gelada e não chegar perto de um cachorro, como acontece em Shirley, é o mesmo que anular todo o potencial criativo infantil e de deslocamento imaginativo exposto em Bárbaro. Nos dois livros, tanto a palavra quanto a imagem nos propõem literatura, e a narrativa de ambos joga para o leitor uma tarefa muito maior: repensar a relação entre o adulto e a criança.

O recurso do contraponto extrapola até mesmo os limites do livro e da história, já que, quando entendemos aonde essas obras querem nos levar, somos provocados a outro paradoxo. Assim como em um livro ilustrado, importa pouco que texto e desenho digam coisas opostas, assim também é a relação de um adulto com uma criança, em que importa mais estar disposto e atento às possibilidades de criação e imaginação fora dos limites do real do que efetivamente falar a mesma língua que ela.

Estar disposto a desafiar a lógica da sociedade, que historicamente domou a palavra, e relembrar que as crianças e os poetas trabalham na semente do discurso, surpreendendo-se todos os dias com o que a palavra está dizendo. Essas duas obras têm isso em comum: mostrar onde está (e onde pode estar) o vigor da descoberta, do deslumbre.

É a vontade de dar voz à criança que constrói a narrativa desses dois livros. Como uma câmera subjetiva em um filme, o texto se faz a partir do ponto de vista dos pequenos, e o leitor é provocado a se colocar no seu lugar para entender o rumo das coisas. Tudo nestes dois títulos enfocam um mesmo elemento. Crianças e adultos conseguem habitar o mesmo espaço físico ainda assim não deixar de reinar em outro mundo possível: o da imaginação.

Renata Penzani é jornalista, pesquisadora do livro para a infância e autora do blog Garimpo Miúdo, espaço em que compartilha achados da literatura infantil e juvenil. 

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