A vez a e voz dos príncipes encantados

Por José Roberto Torero

 

“Branco, Belo e Cinderelo” nasceu numa conversa por Skype.

Praticamente todos os dias, eu e Marcus Aurelius Pimenta fazemos uma reunião por Skype. Às vezes, lemos em voz alta um livro que está na última versão; às vezes, fazemos uma escaleta; às vezes, planejamos uma história, às vezes, falamos sobre futebol.

Estávamos numa dessas conversas, discutindo sobre o que poderia ser nosso próximo livro para crianças, quando começamos a pensar sobre os personagens secundários nos contos de fada. Percebemos que os príncipes quase sempre são uns caras sem importância, tanto que nem têm um nome. Todos são apenas “encantados”. Geralmente chegam no fim da história, dão um beijo e pronto. Eis aí toda a participação deles.

 

 

Então começamos a pensar numa história com os príncipes de Branca de Neve, Bela Adormecida, Cinderela e Rapunzel. Mas Rapunzelo acabou sendo expulso. Usar quatro príncipes parecia muita coisa. Além disso, ele nos parecia um pouco mais ativo que os outros. E o título “Branco, Belo e Cinderelo” soava bem. Chegamos a fazer a primeira versão da história com Rapunzelo, mas foi um alívio quando o cortamos.  

Decidimos que a história se passaria depois do casamento dos príncipes, e eles estariam meio deprimidos por conta da sua insignificância. Ninguém sabia os seus nomes verdadeiros e os coitados nunca apareciam na revista Coroas.

Achamos que uma solução para o trio seria que aparecesse um dragão na região e eles resolvessem enfrentá-lo. Eles deixariam de ser coadjuvantes para se tornarem protagonistas. Mas seria meio bobo se eles vencessem pela força. Soaria como um elogio à masculinidade antiga, ao poder físico. Não era isso que queríamos. Então pensamos que o trio levaria uma tremenda surra do dragão.

Ainda não tínhamos o final, mas sabíamos que a redenção deles não poderia ser uma afirmação machista, onde houvesse uma superioridade deles sobre as mulheres. Então pensamos que, para isso ficar bem claro, eles deveriam vencer o dragão vestidos com as roupas das princesas. E aí gastamos os neurônios para encontrar uma trama divertida que levaria a isso (não vou contá-la aqui para não estragar a leitura do livro).

Quando se tem o final da história, tudo vai se ajeitando mais rapidamente. É como quando conseguimos montar as laterais de um quebra-cabeça. A partir daí é mais fácil ir encaixando as peças.

Por exemplo, para deixá-los menos machões, optamos por dar a cada um uma atividade considerada feminina, caseira. Então o primeiro cozinha, outro costura e o terceiro cuida das flores do jardim. E essas características têm a ver com suas histórias originais, porque o conto de Cinderela tem uma floresta (jardim), o de Branca tem culinária (a maçã) e o de Bela tem a ver com costura (a do vestido).

Depois de termos o argumento, começamos a escrever o livro. Nosso método é um tanto imbecil: escrevemos várias vezes, até acharmos que ele ficou realmente bom. Nas primeiras versões, acrescentamos muitas coisas; nas últimas, cortamos bastante. Nas primeiras versões, escrevemos individualmente (ora eu, ora Marcus); nas últimas, escrevemos em dupla.

Nessas versões vão nascendo os detalhes que dão graça à história: a aldeia cercada pelos três castelos, a menina que tira sarro dos príncipes, as piadas verbais, a revista Coroas, a sombria Floresta da Noite Eterna, a personalidade do dragão, a festa na qual o trio não consegue matar uma barata...

Essa é a parte que mais nos diverte. No reescrever é que colocamos as pequenas coisas que fazem a história mais interessante, no rescrever é que conseguimos encontrar a música das frases, no reescrever é que Branco, Belo e Cinderelo ganham vida e personalidade e deixam de ser apenas os maridos de suas esposas.

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José Roberto Torero  nasceu em Santos, em 1963. Autor de diversos livros, é bacharel em Jornalismo e Letras pela USP. Seu livro de estreia, O Chalaça, ganhou o prêmio Jabuti na categoria romance. 

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Ilustração Marcelo Tolentino

 

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