A ritalina é a palmatória dos dias de hoje?

 

“Soma” era a droga da felicidade no universo de Admirável mundo novo, distopia escrita por Adouls Huxley em 1931. O tempo era da imprevisibilidade e do medo de uma Europa entre guerras. Mais de oitenta anos depois, a ficção parece ter se concretizado no vasto consumo de calmantes, antidepressivos, ansiolíticos, e, inclusive, na inclusão das crianças como consumidoras desses medicamentos.

Hoje, o Brasil se apresenta como segundo maior consumidor do cloridato de metilfenidato, a “droga da obediência” que compõe a ritalina e o concerta, utilizados em crianças consideradas hiperativas ou com transtorno de déficit de atenção, o TDHA. De acordo com pesquisa da UERJ, o consumo da substância aumentou 775% entre 2003 e 2012.

 

Ilustração: Marcelo Tolentino

 

Para questionar dados tão espantosos, o cientista social Denis Plapler, ex-consultor da Unesco, criou um curso de pós-graduação com essa temática: “Da palmatória à ritalina - Especialização em Desconstrução de Diagnósticos para Desmedicalização”, com início em agosto. Mesmo relacionado ao universo da saúde, o tema tem importância para toda a sociedade, em especial aos educadores que convivem com essa realidade diariamente. Por isso haverá uma aula aberta sobre a a desmedicalização amanhã, dia 19, na rua Campevas, 197, em Perdizes, zona oeste de São Paulo.

O nome do curso abarca uma visão histórica do problema. Plapler explica que esse quadro se desenvolve com o surgimento de uma instituição escolar criada para atender a classe operária, que trabalhava o dia inteiro e precisava de um lugar para deixar seus filhos. Estes seriam preparados desde cedo para, mais tarde, ingressarem no trabalho das fábricas – nada muito diferente do que ainda vivemos hoje, não?

Daí surgem algumas características atuais da escola: a necessidade de permanecer sentado por muito tempo, carteiras enfileiradas, salas de aula fechadas e divididas por idades e disciplinas, notas. “É uma forma de educar que fomenta o individualismo, a competição, desrespeita completamente a natureza da diversidade humana, não respeita o tempo de aprendizado de cada estudante”, afirma o coordenador do curso. Se hoje o castigo físico é proibido para quem resiste a esse sistema, a palmatória dá lugar ao uso de medicamentos, mais que liberado.

Um caminho para o combate a esse quadro é pensar em novas formas de educação, que valorizem a autonomia dos indivíduos, tanto pessoal como coletiva, individual e comunitária. “Para desmedicalizar a infância, é preciso desescolarizar a educação”, afirma Plapler, que vê a grande raiz do problema no modelo educacional convencional. O especialista ainda defende que não existe criança hiperativa, já que o próprio psiquiatra que criou o termo TDAH, Leon Eisenberg, pronunciou-se antes de sua morte, identificando-o como uma “doença fictícia”.

A causa é um tipo de ensino segmentado que não deve ser naturalizado. Surge na Revolução Industrial com diversas finalidades, entre elas, ensinar a língua do colonizador em países colonizados da África e América Latina. “A raiz do problema está na estrutura da escola convencional, da segmentação do conhecimento, dos espaços, das pessoas”,completa Plapler.

Como mudar uma realidade tão enraizada, pertencente à nossa cultura desde a época da palmatória? Ele propõe que deixemos as crianças em contato consigo mesmas, com a natureza, com o mundo. “Respeitar o tempo de cada criança, escutar cada uma delas, conhecer quem são, quais são os seus interesses, construir espaços de diálogo com elas e permitir que se debrucem sobre aquilo que tem interesse”, explica. “Aprendemos a escrever escrevendo, aprendemos a ler lendo, aprendemos a tocar violão tocando, aprendemos a escolher escolhendo.”

E expande seu raciocínio, a nos fazer ver que a mudança está em tudo, na maneira como vivemos, como enxergamos o mundo. “Qualificar a educação pública implica não apenas em qualificar a escola pública, mas qualificar os espaços públicos, para que não sejam espaços de medo, mas de produção de cultura, de vida.” Diz que temos que olhar para nós mesmos. Por que os adultos têm tanta necessidade de controlar as crianças?

 

 

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