A quantas anda a formação dos formadores?

 

“Um bom professor de literatura deve ser um leitor assíduo: curioso em relação à produção literária atual, atento aos lançamentos, além de ter repertório dos textos clássicos. Ele deve ser um apaixonado pela literatura! Não há como envolver os alunos na leitura literária sem um grau de paixão e de envolvimento pelos livros.”

É o que nos conta Ana Carolina Carvalho, integrante há dez anos da ONG Avisa Lá, que atua na formação de professores da rede pública de educação. Ela defende que todo o ambiente escolar deve ser favorável à leitura, “uma microssociedade de leitores e escritores”, citando a educadora argentina Délia Lerner. Com apoio da equipe gestora, a escola precisa promover clubes de leitura, momentos de trocas de impressões e opiniões entre os leitores e organização de saraus.

 

 

A formação dos educadores no quesito literatura é por vezes defasada: muitos não tiveram contato com a leitura na vida escolar. A educadora, então, defende um papel duplo da escola: “É preciso que seja um local de promoção da leitura não apenas para as crianças e jovens alunos, mas também para os professores”. E afirma que “toda a escola precisa se comprometer com a criação de uma comunidade de leitores”.

O leitor é aquele que “vê na leitura também uma fonte de prazer quando percebe a construção do escritor, o jogo com as palavras e se compraz com os efeitos que o texto provoca”. Ele gosta de compartilhar suas leituras, busca indicações e frequenta espaços que dissemina o ato de ler.

A seguir, leia o bate-papo que tivemos com a especialista.

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O que constitui um bom professor de literatura? Quais aspectos de leitura ele deve desenvolver nos alunos?

Ana Carolina Carvalho – Um bom professor de literatura deve ser um leitor assíduo: curioso em relação à produção literária atual, atento aos lançamentos, além de ter repertório dos textos clássicos. Ele deve ser um apaixonado pela literatura! Não há como envolver os alunos na leitura literária sem um grau de paixão e de envolvimento pelos livros. Isso é básico.

Outro aspecto muito importante: ele deve trazer para dentro da sala da aula as práticas sociais de leitura (organizar clubes de leitura, trocas de impressões e opiniões entre os leitores, promover indicações de leitura entre diferentes turmas, saraus etc). Também é muito importante garantir o acesso livre e contínuo ao livro: a organização de um canto ou estante de leitura em sala é uma ação fundamental para a formação de leitores, bem como a visita frequente à biblioteca ou sala de leitura da escola, se houver. Para além da sala de aula, pode-se também incluir visitas aos espaços sociais dedicados à leitura, como bibliotecas, editoras e livrarias.

Agora, uma formação de leitores não existe de forma isolada em uma sala de aula. É preciso também que a escola toda se comprometa com a formação de leitores. Délia Lerner [educadora argentina; autora de livros como Ler e escrever na escola, o real, o possível e o necessário], uma referência importante na área, afirma que a escola deve ser “uma microssociedade de leitores e escritores”, ou seja, deve se comprometer com as práticas de leitura e escrita que existem fora dos muros da escola. O que significa isso? Que toda a escola precisa se comprometer com a criação de uma comunidade de leitores. Então, para além da figura do professor, deve-se ter uma equipe gestora atenta ao projeto de formação de leitores, organizando ações nas escolas que envolvam todos em atividades de leitura.

Qual é a diferença entre alfabetizar e criar leitores? Como construir a criticidade de um leitor? E o que é ser um leitor crítico e autônomo?

Ana Carolina Carvalho – Em primeiro lugar, precisamos considerar que não se alfabetiza fora do contato com textos reais, não se alfabetiza fora das práticas que costumamos chamar de letramento, ou seja, dessa imersão nos textos. Ainda é muito corrente a ideia de que se alfabetiza as crianças a partir do contato com letras isoladas, sílabas, frases simples. Mas quando se ensina dessa forma, ensina-se apenas a técnica, o mecanismo da língua escrita, não se ensina a ser leitor, que é aquele que domina as práticas sociais de leitura. Sabe para que servem os textos, como se lê e por que se lê. Para isso, é fundamental que as crianças tenham contato intenso e permanente com toda a variedade de textos produzida em nossa cultura letrada. Textos literários, poesia, textos informativos e os demais textos de não ficção, os jornalísticos e os textos instrucionais. Não formamos leitores simplesmente, formamos sempre leitores de textos reais, que compreendem seu sentido, estabelecem relações entre o que já se sabe, entre outros textos, formando uma opinião sobre aquilo que lê. Este é, por excelência, o leitor crítico. A autonomia do leitor, a meu ver, relaciona-se com as possibilidades de escolha daquilo que se quer ou que se tem necessidade de ler. Mas para saber escolher é preciso duas coisas: conhecer e ter acesso livre aos livros.

Como acontece a formação de professores hoje em relação à leitura e à literatura? Há alguma formação deles enquanto leitores?

Ana Carolina Carvalho – Infelizmente, ainda temos uma formação muito defasada ou mesmo ausente em relação à leitura e à literatura na formação inicial de professores. Sabemos que muitos professores não são leitores assíduos e tiveram também uma experiência muito empobrecida em relação à literatura em sua vida escolar. Falávamos acima dos problemas de ensinar apenas a técnica e o mecanismo da língua escrita, algo que a escola fez – e muitas ainda fazem – por tantos e tantos anos. O resultado disso, dessa ausência de um contato rico e contínuo com os textos é este: temos poucos leitores e infelizmente os professores muitas vezes fazem parte desse contingente de não leitores. Então, isso nos leva à necessidade de formar os professores em serviço. É preciso que a escola seja um local de promoção da leitura não apenas para as crianças e os jovens alunos, mas também para os professores. Todas as práticas sociais de leitura citadas acima devem também estar presentes nos espaços de formação de professores. E quem assume essa formação? A equipe gestora – coordenador pedagógico e diretor da escola.

Muitos cursos de pedagogia não têm matérias sobre literatura infantil e, quando têm, elas não são obrigatórias. Como isso deveria ser trabalhado nas faculdades?

Ana Carolina Carvalho – Esta deveria ser uma formação essencial da faculdade. Em primeiro lugar porque sabemos que muitos alunos chegam ao ensino superior sem essa formação (observamos que isso ocorre com relação à leitura e também à escrita). Conhecer a produção literária destinada às crianças e aos jovens deveria fazer parte do currículo das faculdades de pedagogia, assim como aspectos da crítica literária e da mediação de leitores, ou seja, seria preciso garantir tempos para a leitura de textos de ficção e de não ficção nas faculdades, garantir que os futuros professores conheçam a produção literária destinada aos seus alunos, refletindo sobre suas qualidades e pensando nos elementos que podem fazer da mediação, para além do aspecto utilitário (a literatura como meio para se ensinar algo), que, infelizmente, ainda é tão presente nas escolas. Esses conteúdos deveriam fazer parte do currículo básico dos cursos de pedagogia, afinal de contas, todo professor é um mediador de leitura.

Afinal, o que é ser leitor? Importa mais a quantidade ou a qualidade das leituras? E, afinal, o que seria qualidade literária?

Ana Carolina Carvalho – Leitor é aquele que não apenas lê, mas que tem na leitura uma fonte de conhecimento, de reflexão sobre o mundo, é aquele que encontra diálogos com sua experiência nas leituras que faz e que vê na leitura também uma fonte de prazer quando percebe a construção do escritor, o jogo com as palavras e se compraz com os efeitos que o texto provoca. Leitor é também aquele que se vê enredado em práticas de leitura, que gosta de compartilhar leituras com outros, que acompanha a produção literária, que indica suas leituras e busca indicação de outros leitores e que frequenta espaços onde a leitura acontece.

Em relação à qualidade literária, gosto muito de um critério estabelecido por Beatriz Helena Robledo (pesquisadora e professora colombiana, especialista em literatura infantil e formação de leitores): o efeito de duração. De acordo com esse critério, aqueles textos que ficam na gente, que ecoam por mais tempo no leitor seriam os bons textos. Os que esquecemos facilmente não nos marcam, não ficam na gente. Essa é uma pista que podemos seguir para refletir sobre a qualidade literária em um texto. Agora, qualidade ou quantidade? Quem lê lê bastante e gosta de bons textos! Aliás, quanto mais lemos, mais adquirimos elementos para avaliar a qualidade literária de um texto. Então, fica a dica: ler muito para poder ler cada vez melhor e com mais critério.

Segundo Tania Rösing, idealizadora da Jornada Nacional de Literatura, já há um consenso de que a leitura é importante na vida das pessoas. O que faltaria seria um incentivo maior, mostrar o quão interessante a leitura pode ser. Você concorda com a fala dela? Como fazer isso?

Ana Carolina Carvalho – Sim, concordo. Existe um discurso muito bem estabelecido em relação à importância da leitura na vida das pessoas. Ninguém vai discordar disso. Agora, nós lemos pouco. Acho que as ações de incentivo à leitura devem ser permanentes e fazer parte de políticas públicas. Os programas do livro e leitura municipais, estaduais e federais são importantíssimos. Mas sabemos que não basta fazer o livro chegar às escolas e bibliotecas. É preciso também pensar nas ações de mediação de leitura. Muitas vezes, os livros chegam às escolas, mas permanecem guardados nas caixas em que vieram. É preciso levar as ações de mediação de leitura aos locais que receberam os livros. São essas ações que farão os livros chegarem de fato nas mãos dos leitores e não apenas a sua existência dentro de uma biblioteca.

A questão da mediação é cada vez mais importante. Há uma demanda e um incentivo muito fortes em relação ao entretenimento em nossa sociedade, ao prazer imediato. Experiências em geral muito distintas do que a leitura pede: uma imersão do leitor, um bocado do seu tempo. A leitura pode dar trabalho! Se não tivermos uma mediação muito competente, não conseguimos trazer o jovem para a leitura. Outro aspecto importante é que hoje em dia a formação de leitores precisa ir além do livro. Os jovens estão o tempo todo conectados e a leitura literária precisa estar também nos meios eletrônicos. Seria importante buscar diálogos entre o livro e os meios eletrônicos, por exemplo, além de buscar obras que possam dialogar com a experiência do jovem.

Quais são os desafios na formação de um professor leitor?

Ana Carolina Carvalho – Não são apenas os jovens que estão nessa sociedade que acena para experiências de entretenimento e imediatismo, todos nós estamos. Esse é um desafio que enfrentamos também na formação de professores leitores. Em meio a toda essa oferta, é preciso que a leitura encontre o seu espaço na vida dos professores. Outro grande desafio é inserir as práticas de leitura permanente nos contextos de formação. Sem essas práticas acontecendo de modo contínuo não teremos professores leitores. E ainda, quando consideramos a formação de professores pelo Brasil afora, ainda esbarramos na questão do acesso aos livros. As livrarias são escassas e muitas vezes, inexistem, sobretudo nas cidades pequenas, e o número de bibliotecas ainda precisa crescer muito para chegarmos a um bom cenário. De acordo com os dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, teríamos em torno de 6.102 bibliotecas no país. É pouco se considerarmos a população brasileira! Nesse contexto, os programas de distribuição de livros dos governos ganham uma importância ainda maior, mas a questão é que o professor, até por não ter tido uma formação inicial que tenha privilegiado a leitura literária, também necessita – e muito – de ações de mediação. É um desafio e tanto, dado o nosso país de dimensões continentais, mas é possível, desde que essas ações sejam vistas e inseridas dentro de políticas públicas. 

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