A poesia que ensina o desaprender

 

Desde menino, o jornalista André Gravatá sonha com os vazios do mundo. Amante convicto da educação e da poesia, juntou as duas paixões e decidiu viajar por muitos cantos do planeta. O que achou pelo caminho foram inúmeras possibilidades de desaprender, em espaços onde ainda se vive o paradigma dos cheios, “em que inúmeras escolas educam crianças e jovens como se eles fossem caixas em que se empilham conteúdos, com corpos espremidos entre cadeiras e grades”.

 

Ilustração Marcelo Tolentino

 

Com um bocado de desejo de desaprender na mochila e no bolso, ele vem desenvolvendo projetos como o Virada Educação, que ajudou a criar em 2014, com o intuito de provocar ações para conectar a comunidade. Alguns livros também nasceram daí: o primeiro foi Volta ao mundo em 13 escolas, projeto que realizou com amigos. Depois dessa experiência, o jornalista publicou Inadiável, livro de poemas, e Mistérios da educação, que também abre espaço para alguns contos, fruto de uma relação com algumas escolas públicas. Realiza também oficinas como “Por uma educação poética: viver o corpo e o território”, com a artista Serena Labate, que acontece no dia 5 de maio em Vassouras, no Rio de Janeiro (mais informações: cecarcoiris@cecarcoiris.com.br).

Já na infância, tinha como brinquedo favorito uma peneira amarela, que carregava para todos os lados. Cresceu e conheceu o poeta que até hoje é uma grande inspiração. “Meu filho você vai ser poeta / Você vai carregar água na peneira a vida toda”, é o que escreveu Manoel de Barros, em O menino que carregava água na peneira. Quando ele mostrou os versos à mãe, ela logo entendeu o recado. E lágrimas escorreram pelo seu rosto. O menino estava fadado às insistências diárias.

O que isso tem a ver com o universo da educação? “Uma educação da água na peneira é uma educação capaz de valorizar os vazios e não apenas os cheios, capaz de afirmar, como Manoel de Barros, que “os vazios são maiores / e até infinitos”, que neles cabe o inesperado, a poesia, a brincadeira e a singularidade de cada um.”

Essa peneira se carrega, por exemplo, quando o jornalista propõe algum projeto que envolva poesia na escola. Ele ainda lembra a ocasião em que uma diretora pedagógica lhe disse que "poesia é para almas elevadas", justificando a razão de não utilizá-la no ambiente de ensino. Acontece que, para ele, poesia está longe dessa arte distante e indecifrável temida pela educadora. Ao contrário: é a intimidade com o mundo, a linguagem da vida.

Por essa vitalidade que ela ganha potência em sala de aula, no caminho de desaprender as respostas mecanizadas e as letras mortas. Para transformar a miséria de significado em mistério, terreno fértil para a dúvida e o questionamento, e, portanto, para a educação. Já diria o poeta Bertolt Brecht:

"A árvore que não dá frutos

É xingada de estéril. Quem

Examina o solo?"

Confira abaixo a prosa completa com o jornalista André Gravatá, sobre educação e poesia.

 

***

 

Qual é o espaço da poesia na educação? Como esse espaço pode ser ampliado?

André Gravatá - Um dia entreguei uma poesia para uma diretora de escola e ela me disse que não queria aqueles versos, justificando que “poesia é para almas elevadas”, e a diretora achava que nem ela nem os alunos da sua escola eram grandiosos o suficiente para se aproximar de poesia. Ela me disse isso meio brincando, meio revelando uma percepção em que parecia confiar. Há muitos significados para a poesia e um deles ainda está muito atrelado a uma arte distante, indecifrável, para almas elevadas. Mas vejo com mais apreço outro significado para a poesia, que tem muito para contribuir com a educação: uma linguagem que nos aproxima da vida, um convite para a percepção se espantar com os mistérios em que estamos mergulhados até no cotidiano mais banal. E para ampliar o espaço da poesia na educação é primordial que se perceba novos significados para a poesia, que reconheçamos o manancial que é essa palavra. Poesia é verso, poesia é percepção, poesia é ato, poesia é sutileza. No meu primeiro livro de poesias, chamado Inadiável, há alguns versos sobre a minha descoberta dessa poesia que é intimidade com o mundo:

 

"a poesia me achou

não para eu me apegar ao poema

mas para eu não desprezar a realidade

 

a poesia me achou no hospital público

na eternidade da saliva que pinga:

o pai dá de comer ao filho velho

tanta baba

o pai enxuga

gota a gota

com amor lento"

 

Você carrega muito de Manoel de Barros em seu trabalho. Em um dos poemas dele, há a imagem do menino que carrega água na peneira. Poderia falar um pouco sobre a potencialidade dessa metáfora? Em que ela pode inspirar educadores?

André Gravatá – Um dia li o poema O menino que carregava água na peneira para a minha mãe. E ela chorou. Bem na parte em que Manoel diz: “Meu filho você vai ser poeta / Você vai carregar água na peneira a vida toda”. Minha mãe me perguntou: "Você vai carregar água na peneira a vida toda?". Não lembro o que respondi, se respondi. Mas sei que para mim essa metáfora tem um significado ainda mais vasto, pois um dos brinquedos que eu mais gostava na infância era uma peneira amarela. Essa metáfora diz tanto sobre a vida! Sobre a nossa incapacidade de controlar o que acontece. Sobre o fato de que queremos deixar as coisas de um jeito e aí vem o presente e o que imaginávamos escapa e se manifesta outro arranjo de coisas. Essa metáfora diz muito sobre educação porque ainda vivemos no paradigma dos cheios, em que inúmeras escolas educam crianças e jovens como se eles fossem caixas em que se empilham conteúdos, com corpos espremidos entre cadeiras e grades. Uma educação da água na peneira é uma educação capaz de valorizar os vazios e não apenas os cheios, capaz de afirmar, como Manoel de Barros, que “os vazios são maiores / e até infinitos”, que neles cabe o inesperado, a poesia, a brincadeira e a singularidade de cada um.

 

O poeta também falou do "delírio do verbo", que acontece "se a criança muda a função de um verbo". Como se dá essa capacidade delirante da criança? Como o adulto pode dialogar com essa habilidade da infância?

André Gravatá – As crianças convivem visceralmente com algo que os adultos temem, com duas palavrinhas que a poeta polonesa Wislawa Szymborska tanto admira: “não sei”. Como as crianças estão descobrindo o que é a realidade, estão “não sabendo” muitas coisas, o que se abre nelas é um infinito de maneiras de entrar em contato, é uma perplexidade crua, uma frequente relação com o que não tem nome, com o que é incompleto. Mas os adultos, por acharem que sabem tudo, por dizerem “sei, sei, sei” toda hora, morrem para o presente, viram máquinas de atirar conclusões frias sobre tudo, direta e indiretamente ensinam as crianças a se esquecerem de habitar o mundo impregnadas de curiosidade no corpo inteiro. Aquilo que é poesia e delírio vivo no olhar da criança, muitas vezes se torna erro para o adulto, que quer corrigir e padronizar. Ouvi recentemente: uma criança que estudava numa escola fértil em poesia e brincadeira precisou mudar de colégio e disse para a mãe, apontando, cabisbaixa, o que passou a estudar: “antes eu fazia poesia e agora tenho que encher meu caderno de letras”. Quando se cultiva a monocultura da resposta mecanizada, aquilo que antes era mistério da linguagem e os infinitos espantos no contato com o mundo se tornam meras letras mortas. Assim o mistério vira miséria. Miséria de significado. Miséria de vitalidade. E para que exista um terreno mais fértil, o adulto tem que se dispor a desaprender um tanto dos seus saberes empoeirados enquanto convive com as crianças.

 

Acha que esse delírio poderia de alguma forma ser relacionado com a chamada "pedagogia para o desaprender"?

André Gravatá – Desaprender é verbo urgente para conjugar na educação. Desaprender as respostas prontas que não fazem mais sentido. Desaprender as regras que violentam os corpos. Desaprender a desigualdade radical que tantos ainda afirmam existir entre aluno e educador, como se um deles não soubesse nada e o outro soubesse tudo. Desaprender a obrigação de repetir o certo até quando o certo se torna errado, pois nem sempre o certo é certo. Desaprender a vergonha pelo delírio. Desaprender o embrutecimento. Desaprender o olho voltado apenas para o grande, para o forte, para o concluído, para o nota dez, para que então o fraco, o miúdo, o simples e o incompleto sejam percebidos na sua inteireza e importância.

 

Além de Manoel de Barros, quais outros poetas te ajudam a refletir a educação? Poderia compartilhar conosco?

André Gravatá – De raízes brasileiras, Clarice Lispector é uma mestra inesgotável (sugestão: procure o conto A mensagem, no livro A Legião Estrangeira). Cora Coralina, Conceição Evaristo, Hilda Hilst, Adélia Prado, Maurinete Lima (procure o poema Aldeia, é infinito), Solano Trindade (procure Tem gente com fome), Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Criolo (“no meio do caminho da educação havia uma pedra” é um verso que é retrato do passado e presente). Se busco inspiração em outras partes do mundo, encontro a polonesa Wislawa Szymborska, que é incandescente (procure qualquer poema dela, qualquer um). Também da Polônia, Bruno Schulz é um voo de pássaro estrondoso, ensurdecedor. O alemão Bertold Brecht, por fim, é outro que me acompanha com uma pergunta incansável, que é educação em estado de calor máximo:

 

"A árvore que não dá frutos

É xingada de estéril. Quem

Examina o solo?"

 

Você é coautor de um livro sobre propostas inovadoras de educação pelo mundo, o "Volta ao mundo em 13 escolas". Poderia contar um pouco sobre essa experiência?

André Gravatá – Este livro nasceu de uma pesquisa realizada em espaços de educação em nove países, desenvolvida não apenas por mim, mas sim por um grupo de quatro pessoas (Eduardo, Carla, Camila e eu) profundamente movidas por uma vontade de se nutrir com práticas de educação inspiradoras, que transformam realidades e apontam outros tipos de contornos para os processos de aprendizagem. Há ações consistentes acontecendo por todo o mundo e um ponto que me tocou especialmente foi o fato de que precisamos valorizar mais o que acontece no nosso país. Para que se tornem mais e mais conhecidas várias propostas de educação incríveis existentes em território brasileiro, para que nos tornemos mais íntimos da nossa própria realidade. Para que nos inspiremos com o Bairro-Educador Heliópolis, em São Paulo. Também com o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, em Minas Gerais. E com a Escola Municipal Professor Waldir Garcia, em Manaus. Além de outros, diversos outros espaços que afirmam a relação vital entre educação, cultura e vida.

 

Quais são as potencialidades da educação que estão sendo descobertas pelo mundo? O que temos a aprender com esses novos modelos?

André Gravatá – Um bom ponto de partida é aprendermos que não existe um modelo único que responda a todos os desafios. Prefiro inclusive falar de práticas de educação em vez de modelos, ressaltando que mesmo as práticas nunca deveriam ser copiadas como se fosse possível repetir exatamente uma ação de um dado contexto em outro. Há práticas que servem como inspiração para nutrir nossa ação, mas nossa ação é mais consistente se parte de uma intimidade profunda com nosso próprio contexto — e no Brasil o cenário é um emaranhado: as escolas públicas com projetos de educação transformadores infelizmente convivem com uma agenda de desmonte de políticas de educação e a perenidade de um sistema que mais tem a ver com o século 19 do que com o presente. E ao mesmo tempo vejo no Brasil e também mundo afora uma movimentação promissora ganhando mais corpo, afirmando que as escolas fazem parte de territórios e é urgente que as crianças, jovens e educadores possam circular por esses territórios, descobri-los, ocupá-los criativamente e assim aprenderem cidadania, geografia, história, poesia, sensibilidade e tanto mais. Cidades educadoras, bairros educadores e territórios educativos são expressões que nomeiam alguns desses horizontes que nascem da sede por mais sentido na educação.

 

Aceita participar de uma brincadeira? Complete as frases abaixo:

Educação rima com… comoção ou distração, depende da educação em prática.

A criança faz poesia quando… existe plena, existe respeitada, existe nutrida.

Na educação, as palavras… perdem sentido quando são enjauladas e vivem voos quando se tornam brinquedos.

 

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