A mancha no vestido de organdi de Angela-Lago

03/11/2016

Por Angela-Lago

Sei que não se pode pedir bom senso de mãe. Ainda mais quando ela tem muitos filhos. Acaba sempre meio louca. Vira e mexe agarra um pequeno herói prestes a saltar pela janela com a capa mágica. Ou salva um dos dois mais velhos que se trucidam em guerra sem trégua. Já os grandes aproveitam que o neném quer experimentar o mundo com a boca e dão formigas para melhorar a visão do pequetito. E gafanhotos para o bebê ser capaz de pular bem alto. 

A minha mãe, a quem perdoo, perdoo, perdoo, teve seis pestes. Eu, a do meio, a tudo assisti e lhe dei razão sempre que possível. Até mesmo quando me mandou para um colégio de freiras. Ela, que não tinha fé nenhuma e muito menos religião. 

Entrei em crise com as aulas de catecismo. Não sabia mais se o inferno era na terra mesmo, como ouvia minha mãe falar cada santo dia, ou se existia de fato. Se existisse, coitada, ela não teria escapatória. Para começar, nunca tinha ido à missa. 

Naquela época era obrigatório ir à missa aos domingos. Comungar, não, comungar não era obrigatório. Era complicado: primeiro você tinha que fazer uma lista dos seus pecados e conseguir perdão. Depois, precisava jejuar oito horas antes. E, na hora h, engolir a enorme hóstia a seco. Não era bom nem encostar os dentes nela. Minhas colegas sabiam histórias terríveis sobre o sangue de Cristo danar a jorrar da hóstia mastigada. 

Eu quis porque quis comungar. Fui. A alma limpa feito o vestido de organdi. Um esforço enorme para não sujar nada com um mau pensamento qualquer.

Era uma manhã abafada de março, a igreja cheia de crianças e pais e tios e padrinhos. Sentia mareio, calor, o vestido pinicava, a barriga roncava de fome. Estava ajoelhada. Abri a boca e fechei os olhos. O padre colocou a hóstia dentro. Ainda me lembro de pensar: e se eu mastigar? Imaginava o sangue a jorrar boca afora. A tontura piorou. A vista escureceu. 

Acordei pouco a pouco com minha mãe desabotoando meu vestido manchado de vermelho. Senti os lábios úmidos, passei a mão, vermelha também.

Não foi nada, disse minha mãe, me dando mais um golinho no gargalo da garrafa. O coroinha, que trouxera o vinho do padre, assistia a se esbugalhar todo. Estávamos na sacristia. — O vinho vai fazer a pressão subir – mamãe explicava.

Quem vai saber se a mancha no meu vestido de primeira comunhão é do sangue de Cristo na hóstia consagrada. Ou do vinho. Ou dos dois. Minha mãe sempre pulou em minha defesa quando meus irmãos me chamavam de sacrílega.

– A menina não teve tempo de morder coisa nenhuma! Mal o padre deu a hóstia, caiu para trás. Vai ver, é santa!

***

Angela-Lago é autora de livros como O caixão rastejante e outras assombrações de família, Sete histórias para sacudir o esqueleto e Muito capeta. Nasceu em Belo Horizonte, em 1945. Viveu na Venezuela e na Escócia. Há vinte anos escreve e ilustra livros para crianças. Expôs seus trabalhos em muitos países e recebeu prêmios no Brasil e no exterior - França, Espanha, Eslováquia e Japão.

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