A história não acaba quando o livro termina

 

Razão e sensação. Razão para geografia e sensação para a educação física. Mente para aprender sobre os períodos geológicos e corpo para praticar handebol. Por que não misturar as duas coisas? Por que não aproveitar as mais variadas faculdades do conhecimento para aprender por meio de outras vias? É justamente essa a premissa do projeto O que fazer depois das histórias?, elaborado pela educadora Bia Machado, doutora em filosofia, e pelo artista e educador Lucas Lopes, que uniu conhecimentos de culturas medievais e produções artísticas. Criado para compor a programação do Sesc Belenzinho, foi encerrado no início do mês. Conversamos com os dois realizadores, que falam sobre como pensar uma abordagem analógica, que conecte diferentes tipos de experiência, para o trabalho com as histórias, considerando as ligações entre os conhecimentos um caleidoscópio, onde cabem inúmeros arranjos.

 

Ilustração Lucas Lopes

 

Ao estudar ciências antigas e culturas orientais, Bia entrou em contato com a abordagem analógica. É um recurso para trabalhar em níveis, estabelecer conexões a partir de uma linguagem, utilizado conhecimentos antigos como a acupuntura, a homeopatia e tratamentos com ervas feitos por pajés. Foi quando percebeu como razão e emoção podem ambas gerar aprendizado e, mais ainda, como cada pessoa aprende de uma maneira singular. "Há pessoas para as quais a experiência emocional diz tudo, outras para os quais o contexto e a experiência concreta são fundamentais, outras para quem uma explicação é o que as faz realmente aprender", ela explica em um TED Talk. Assim, limitar as leituras e a contação de histórias a um único padrão seria deixar de lado essas possibilidades, o reconhecimento do específico, já que existem diferentes tipos de intuição, sensação, pensamento e sentimento.

Ao pedir para que uma criança desenhe uma história depois de lida, por exemplo, é possível que o desenho seja uma descrição da história. Ao trabalhar com recursos analógicos, esse mesmo desenho pode ser a história em uma nova linguagem, não apenas uma representação dela. "As ferramentas artísticas podem ser uma maneira de usar outras habilidades para estabelecer relações com as histórias, para além do raciocínio lógico, da 'moral da história' ou do 'literalismo'", comenta Lucas. Seguindo este mesmo pensamento, Bia entende que as histórias são "mapas" do funcionamento interno de cada indivíduo e usar diferentes linguagens artísticas para produzir analogias é concretizar esses mapas. "Com esse procedimento, as histórias tornam-se espelhos onde cada um pode se ver e se descobrir", define.

O contato com o passado, com uma realidade medieval facilita o entendimento desse mundo analógico. Para ilustrar isso, a pesquisadora recorre à seguinte imagem: "os contos contados em caravanserais [estabelecimentos hoteleiros] da rota da seda não eram apenas entretenimento, eles funcionavam tanto como um processo de cura, quanto como um trabalho de autoconhecimento. Ao ouvir um conto, cada ouvinte sabia que podia conectar-se com o seu mundo interno e aprender mais sobre si mesmo". Deste ponto podem suceder discussões sobre a relação dos contos da tradição oral com as faculdades do espírito. A história como alimento para a mente, para o corpo e para alma. Ou, como ela mesmo descreve: "uma experiência só pode ser realmente 'vivida' se ela for 'traduzida' internamente e tornar-se, por assim dizer, 'proteína própria', como no processo digestivo. Nesse sentido, ler torna-se aprender sobre o 'único', torna-se uma experiência singular".

 

Ilustração Lucas Lopes

 

Este singular, no entanto, não significa um isolamento, como aponta Lucas, "porque pode ser traduzido em inúmeros 'únicos' entre cada um e entre todos". "Cada pessoa fala uma língua única e diferente das outras. Todo o trabalho com a analogia seria então o conjunto das infinitas traduções e proporções que podem ocorrer entre essas 'linguagens-de-cada-um' e as 'linguagens-de-cada-coisa'", acrescenta. Considerar o mundo analógico é respeitar o diverso, aceitar a mudança e também aprender com ela. Nos encontros de cada um com as histórias, podem ser descobertas novas identidades pessoais. Esses espelhos revelam ângulos nunca antes observados.

O momento de singularização, de autoconhecimento vivido a partir das combinações que surgem das histórias e linguagens artísticas ainda pode ser compartilhado. "O que podemos fazer depois das histórias é criar mais espaços, e nesse caso, penso em dois tipos de espaços diferentes: espaços externos para que possamos continuar trocando e aprendendo uns com os outros e espaços internos para que essas histórias possam se acomodar e operar analogicamente", elabora Lucas. Isso é um antídoto para a escalada de preconceitos e intolerância que tem ocorrido nos últimos tempos. A experiência de testar analogias antes ignoradas para o reconhecimento de si e a percepção de si no outro. Afinal, segundo Amadou Hampaté Bâ, compilador e divulgador de culturas africanas, referenciado por Bia, "O Homem é o universo em miniatura". E por isso mesmo todos dividem a mesma matéria. A leitura e conhecimento de histórias também é filosófica.

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