A guerra dos Azuizinhos e Laranjinhos vai à Flip

 

Azuizinhos e Laranjinhos entram em conflito quando passam a discordar de uma questão supostamente importante: o jeito certo de passar manteiga no pão. Seria por cima? Ou por baixo? Não importa, tal questão é um motivo suficiente para os dois grupos iniciarem um desfile de armas perigosas em A guerra do pão com manteiga, escrito por Dr. Seuss e publicado em 1984. Apesar de ter sido publicado há 35 anos, em um contexto de Guerra Fria, em relação à crescente onda do conservadorismo político, o livro traz uma perspectiva atual de lidar com conflitos, baseada na força e na intimidação.  

A obra ganha destaque nesta semana durante Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, que acontece de 10 a 14 de julho. No dia 11/7, às 10h30, na Central Flipinha, a cientista social Rafaela Deiab, coordenadora do departamento de Educação da Companhia das Letras, realiza uma leitura compartilhada do livro. Ela contará como a obra do norte-americano Dr. Seuss (Ted, para os mais próximos)  pode ser percebida de outras formas, a partir de uma leitura mais detalhista. "Uma das chaves de leitura mais importantes é a disputa, que vira guerra, entre Azuizinhos e Laranjinhos por uma razão boba, ou absurda... E se a origem é absurda, há grandes chances de a guerra também ser..."

 

 

Imagem e texto conversam nas obras de Dr. Seuss, ponto este relevante para a conversa na quinta-feira. Além disso, o repertório e as subjetividades do público participante só têm a acrescentar ao encontro. A guerra do pão com manteigatraz uma história que trata da realidade de maneira a não deixar de lado as possibilidades criativas e imaginativas do mundo infantil. Respeita o leitor e pode ser lida e agradar pessoas de diferentes idades. Uma história para fomentar discussões sobre sua narrativa e também sobre sua leitura e seu teor político para crianças. Para saber mais sobre as interpretações dessa obra, a recepção dela pelo público brasileiro, o estilo e importância do autor, leia a entrevista completa a seguir!

 

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Qual a importância das obras do Dr. Seuss estarem disponíveis no Brasil? Sendo um autor tão relevante na literatura infantil mundial por que ele ainda é pouco lido pelo público brasileiro?

Rafaela Deiab – Dr. Seuss é um autor muito inventivo e bem-humorado, com uma obra vasta, e foi importante para consolidar a literatura infantil moderna no mercado de língua inglesa. Ele ainda teve atuação múltipla no universo do livro: ilustrava, escrevia e editava seus próprios livros. Mas, para mim enquanto leitora, acho que o mais incrível são as obras mesmo. A prosa poética, ou o poema narrativo, o modo como os livros saem do esperado e tratam de assuntos muito importantes e complexos por meio de caminhos inusitados, com humor e flertando com o absurdo a todo instante. A leitura das obras é divertida, comovente, atual e surpreendente – e tudo ao mesmo tempo. O autor está se tornando mais conhecido agora, muito em função das adaptações em desenhos do Gatola da cartola, na Netflix, e das adaptações cinematográficas de Como o Grinch roubou o Natale O lórax. A editora Companhia das Letrinhas também reeditou as obras do autor. Os livros foram traduzidos novamente e com capricho pela poeta contemporânea Bruna Beber. Com isso, os livros se atualizaram e se comunicam mais com os leitores de hoje.          

 

Como mediar a leitura de A guerra do pão com manteiga? O paralelo com a realidade deve ser apresentado ou essa percepção deve surgir por parte da criança e, então, desenvolvida pelo adulto?

Rafaela Deiab – [Na Flip] Planejo fazer a mediação tal qual qualquer outro livro-álbum. Realizaremos uma leitura compartilhada da obra A guerra do pão com manteigaseguida de uma conversa sobre ela. O objetivo da atividade é apreciar o livro conjuntamente com o público, permitindo uma análise mais aprofundada e atenta aos detalhes. Acompanhar a leitura com o exemplar em mãos, conjuntamente com um grupo, seguida de uma conversa apreciativa é uma estratégia de mediação que permite entender melhor os livros, sua estrutura, a relação entre texto/imagem e suas chaves de leitura, além de interpretações mais subjetivas das experiências dos leitores. Mas é claro que uma das chaves de leitura mais importantes desse livro é a disputa, que vira guerra, entre Azuizinhos e Laranjinhos por uma razão boba, ou absurda... E se a origem é absurda, há grandes chances de a guerra ser também... Espera-se que durante a mediação a análise da disputa apareça nos comentários e nas falas do grupo de leitores. Se ela não vier, fazemos uso de perguntas que disparam esse tipo de reflexão. Mas insisto que a chave de leitura é o tema: a diferença, que vira disputa e depois guerra. E é aberta, de modo que cada leitor pode associar a disputas e guerras distintas. Dr. Seuss teria escrito a obra pensando na corrida armamentista durante a década de 80 nos EUA, mas é possível também associá-la à polarização que vivemos no Brasil na atualidade também. Essa compreensão, no entanto, dependerá da biografia, das referências e da trajetória de cada leitor.      

 

 

Por Dr. Seuss geralmente trazer uma temática política em suas obras, ele é um autor que extrapola o rótulo "literatura infantil"? Por quê?

Rafaela Deiab – Eu diria que, por escrever ótimos livros ilustrados, ou álbuns ilustrados, Dr. Seuss extrapola o rótulo de “literatura infantil”. Isso porque suas obras possuem muitas camadas de leituras, boas elipses que permitem ao leitor completar as histórias, traz temas que nos permitem refletir e pensar mais sobre nós mesmos e o mundo onde vivemos. Acho que os bons livros fazem isso, os de adultos, jovens ou crianças. Dito de uma outra maneira, são obras que, pela elaboração artística da linguagem e das imagens, tocam os seus leitores, pouco importando a idade deles. Ah! Os lugares aonde você irápor exemplo é um livro que muitas vezes é dado como presente de formatura do Ensino Médio ou mesmo da faculdade nos EUA. É um texto sobre a vida, sobre as dificuldades e a beleza inerentes a viver, os altos e baixos, e sobre como é possível seguir em frente... Um livro que é uma reflexão existencial, escrita de maneira jocosa e simples, com um imaginário muito peculiar.         

 

Sobre sua experiência de trabalho na relação da editora com escolas, como você vê a questão da perseguição a professores que discutem temas polêmicos, políticos e contemporâneos e, muitas vezes, são acusados de doutrinação política?

Rafaela Deiab – Acho que muitas vezes temos julgado pais e professores que discutem com as crianças os “poros da vida” e suas contradições. Questões como vida e morte, alegria e tristeza, amor e ódio, inclusão e exclusão, riqueza e pobreza, confiança e desconfiança, segurança e medo... Como se as crianças não fossem capazes de lidar com a vida em sua complexidade. É claro que são necessárias modalizações na linguagem, mas é integrante de nossa função enquanto educadores falar da ambiguidade da vida. E escolher obras artísticas que tragam isso me parece um excelente caminho. É muito melhor sentir a tristeza numa história, antes de vivenciá-la. É como se, ao sermos impactados pelas leituras, fizéssemos uma espécie de mapeamento mental daqueles sentimentos, sensações e trajetórias vividas pelos personagens. E esse repertório passa a nos integrar e ser acionado também em nossa trajetória. E as obras literárias que trazem essa complexidade da vida respeitam seus leitores, na medida em que não os subestima nem os trata como bobos ou incapazes que só conseguem ler obras açucaradas que se passam num universo cor-de-rosa.       

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