A conjugação presente do verbo ler

 

O que tornou a leitura como uma prática social assim como a conhecida hoje? Pode-se entender a história da leitura de diversas maneiras, como uma linha do tempo da escrita, com recortes regionais e de línguas, ou numa progressão cronológica das obras publicadas. Nesse vasto campo de estudo, também é possível pesquisar a leitura enquanto uma prática social. No ensaio A leitura no Brasil: sua história e suas instituições, a professora Regina Zilberman, pesquisadora, escritora e professora brasileira especialista em história da literatura, traz uma análise da leitura para além do texto escrito numa folha de papel.

 

 

Entender a prática da leitura impõe algumas condições. A primeira é a de existir a escrita, reconhecida pela sociedade como um de seus possíveis meios de comunicação; outra é a de obras produzidas terem se tornado públicas ou, como diz Regina, socializadas. Para essa socialização ser efetiva, são necessárias ações de acesso à escrita, que implica também no estabelecimento de uma instituição encarregada de fazê-las: a escola e seus professores, um grupo qualificado para desempenhar a tarefa de decodificar letras e alfabetizar. Uma técnica (escrita), uma tecnologia (qualquer meio em que se possa fixar a escrita) e uma instituição (que habilite indivíduos a usar essa técnica), tudo isso é um processo da leitura. 

Com o passar do tempo, esses fatores se transformam caminhando na direção da facilitação e da socialização, como indica a pesquisadora. “Logo, a história da leitura consiste na história das possibilidades de ler”, explica. No ensaio, cita a ciência já ter conhecimento das escolas que existiram na Grécia e em Roma, da escrita que aparece no terceiro milênio antes de Cristo e de as técnicas de impressão começarem com os chineses, ainda durante a Idade Média ocidental. 

“Mas a reunião desses fatores ocorreu por causa da emergência e sucesso da sociedade capitalista, quando o capital cultural tornou-se igualmente importante para a acumulação do capital financeiro”, aponta. Regina argumenta que a leitura que conhecemos hoje se consolida como prática social na junção desse tripé. É a partir dessa mescla que a entendemos socialmente como um produto da escola e critério para ingresso e participação (ou não) do indivíduo na sociedade. “A leitura passou a distinguir, mas afastou o homem comum da cultura oral; nesse sentido, cooperou para acentuar a clivagem social, sem, contudo, revelar a natureza de sua ação, pois colocava o ato de ler como um ideal a perseguir.” Por isso, a leitura é valorizada como ideia, por distinguir o homem alfabetizado e o culto do analfabeto e ignorante, como ela explica: “O ainda não leitor apresenta-se na situação primitiva de falta, que lhe cumpre superar, se deseja ascender ao mundo civilizado da propriedade, por consequência, do dinheiro e da fortuna”.

Quem fica de fora acaba sendo qualificado como frágil e inepto, como a criança e o "homem do povo", não apenas analfabetos, mas carentes dos “modos de representação característicos, expressões próprias e atitudes peculiares” da leitura e seus gestos, como o de segurar o livro, sentar e escrever, inclinar-se, colocar os olhos ‒ representações de uma pessoa leitora. Assim, mesmo que exercida individualmente, uma visão social da leitura resulta da concepção que a sociedade formula para as classes e as pessoas que a compõem. 

No seu texto, a pesquisadora diagnostica: “Não ler é ficar de fora desse mundo, o que talvez signifique ficar de fora do mundo”. Isso justificaria as diversas políticas de leitura existentes em todo o mundo e no Brasil, independentemente de serem propostas por grupos, categorias profissionais ou governos. A partir desse pensamento, não deixam de valorizar a leitura como ideia, mas tem sucesso quando são igualmente prezadas enquanto negócio.

 

O passado brasileiro do verbo ler    

“A história da leitura no Brasil congrega o percurso das instituições encarregadas de patrociná-la”, afirma Regina em seu trabalho. A pesquisadora mostra que a produção de um livro ou mesmo o fazer literário têm uma forte contradição, já que são institucionalizados, com seus artistas e intelectuais considerados, mas com uma concepção que o que fazem não é julgado trabalho, logo, não requer remuneração. Isso afeta o trabalho de quem está na ponta das mesmas instituições que teriam o poder do letramento: “Quem paga a conta são os trabalhadores inseridos nela, rebaixados à condição de inúteis ou parasitas, dispensados, por isso, de salário, a não ser quando aceitam a praxe, julgada nefanda no caso deles, de ganhar dinheiro. Nessa posição, é a instituição que os rejeita, gerando um círculo vicioso que exige de seus membros a sujeição às suas normas”.

Com isso, a história da leitura no Brasil corresponde ao processo dessa institucionalização e o quanto esse processo se particulariza. Encostando na esfera da história da literatura, para exemplificar essa análise, o ensaio comenta sobre como no período colonial os poetas daqui se julgavam portugueses, “até José Basílio da Gama e Silva Alvarenga se dizerem americanos e brasileiros”, e os autores românticos do século XIX, buscando escrever a história literária nacional para outro país, saíram atrás de sintomas dessa brasilidade no passado ‒ uma procura que ainda não saiu do horizonte da crítica e historiografia literária brasileira.

Vinculado a esse reconhecimento externo mora uma ideia de qualidade da literatura, pois, para ser reconhecida como instituição, é preciso que contenha obras de valor artístico e informativo inegável, aceitos dentro e fora do país. Seria o esforço para criar a "Poesia Pau-Brasil, de exportação", numa brincadeira da autora com o Manifesto da Poesia Pau-Brasil do poeta Oswald de Andrade. Já internamente, essa aspiração se manifesta na busca pelo interno em suas diversas etapas entre um texto e seu leitor. Ainda no exemplo dos próprios autores na literatura, ocorre quando um escritor procura traduzir temas de interesse local ou luta pela constituição de seu público (pensando na formação de um nicho ou gosto) educando-o para o consumo de livros e assim absorver técnicas literárias mais refinadas. Ou quando a categoria reivindica seus direitos, exigindo remuneração adequada que confira respeitabilidade ao trabalho intelectual.  

“Ao examinar a história da literatura nessas diferentes perspectivas, a história da leitura cumpre seu papel, materializando o funcionamento do aparelho cultural e dando visibilidade às suas entranhas, nem sempre eticamente recomendáveis. Por sua vez, a história da literatura brasileira, com suas contradições, vaivéns contínuos, avanços e recuos, revela a natureza dialética da história da leitura, que tem a ambição de narrar o progresso e depara-se frequentemente com os retardamentos”, avalia a especialista. 

O outro braço dessa institucionalização se refere à técnica. Com a escola, a história da leitura – e, portanto, seu braço direito, a história da literatura – se corresponde com a história da educação. Independentemente das diferentes filosofias educacionais, processos de ensino e modo de organização do aparelho pedagógico, a leitura, entendida como procedimento de decodificação de textos escritos, exige as mesmas tomadas de decisão em qualquer ambiente escolar: o método de alfabetização, o tipo de livro escolhido (se didático, paradidático ou outro) e a educação artística e o ensino da literatura. 

 

Enfoque no sujeito, não no verbo

Na publicação, o que se sugere é que essas questões mostram não o método, mas o sujeito na face principal do problema do não letramento. “O analfabeto que é problemático apresenta uma configuração a priori: ele é pobre, está fora da idade para ser alfabetizado (mesmo quando ainda se trata de crianças), nem sempre foi bem nutrido, habita o campo ou vem de lá, precisa trabalhar desde cedo e muito para sobreviver. Os métodos de alfabetização parecem invadir um terreno já ocupado por outros problemas, provavelmente mais prementes, de modo que terão de decifrar o enigma, para não serem devorados”, explica sua autora. 

Com isso, o enigma do “como” formar um leitor teria sua resolução no “leitor” em si, se resumindo a uma pergunta: como lidar com ele? Regina pergunta sobre as pessoas não leitoras em situação de vulnerabilidade social: “Alfabetizá-las é adequá-las à sociedade burguesa, proporcionando a essa última mão-de-obra qualificada? Ou é prepará-la para se defender no mundo moderno, industrializado, globalizado e complexo, de difícil enquadramento? Ou é conscientizá-la, para que entenda sua situação de exploração e miséria, levando-a a virar a mesa?”.

Num rosário de queixas sobre a situação educacional do país, o que a pesquisadora reforça, por outro ângulo, é a importância das instituições onde se possibilita a leitora. “Por isso, a leitura depende que a escola seja atuante, isto é, que se valorize a educação enquanto fator de ingresso à sociedade e ascensão; que a escrita seja, ela mesma, considerada um bem, propriedade que atesta a existência de outras propriedades.” Trata-se da influência dessa prática na sociedade enquanto formação dos indivíduos, frequentadores de um mercado de consumo e de trabalho, sem o qual a sociedade “sem considerar o ensino, não se pensa a leitura, nem se entende a literatura, cuja definição passa pela interferência e impacto desencadeado pela escola”.

Para além da sociologia literária e dos desafios dos profissionais e pesquisadores da educação, a concepção histórica sobre a leitura é fator decisivo para se compreender e onde na sociedade se opera a literatura e em que se expressa a leitura. “Ponto de apoio para a compreensão da sociedade brasileira contemporânea, uma história da leitura é igualmente seu retrato em perspectiva, que queremos conhecer em todas suas dimensões”, diz Regina.

 

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